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A Bela dos Dias Absurdos

Fevereiro 12, 2012

Com tantos prémios e galas de mérito, é lamentável que ainda não tenham instituído um troféu para a mãe que consegue levantar duas crianças perdidas de sono, obrigá-las a higienizarem-se, dar-lhes de comer, ajudá-las a vestir, verificar o estado de todo o espólio escolar, metê-las no carro, enfrentar umas longas filas de trânsito e estar à porta da escola 5 minutos antes de tocar a campainha. Tudo isto, em menos de duas horas e antes de estar à beira de dar um bom par de estalos a cada uma delas por nunca lhe obedecerem; assim pensava Laura, todos os dias, quando pintava esta rotina na sua tela doméstica.

– Mãe, compra-me o GTA 5! – pediu Gabriel, ainda antes de sair do carro, à porta da escola.

– Tu deves pensar que eu ando a roubar! – respondeu-lhe Laura, enquanto verificava se não ficava nada esquecido no banco traseiro. – Além do mais, esses jogos só trazem maus exemplos com toda aquela violência gratuita. Estejam com atenção nas aulas e portem-se bem!

Laura arrancou com alguma velocidade, o tempo parecia que lhe fugia, especialmente naquele dia especial. Perto de casa, parou o carro e dirigiu-se à loja onde costumava comprar as verduras e as frutas; nos tempos que corriam, era o único sítio que lhe dava alguma segurança – os donos, herdeiros de velhos costumes, ainda iam à terra buscar os frutos do chão que os viu nascer. Ficou escandalizada com os preços.

– Assim não vai dar! – desabafou ela consigo mesma. – Qualquer dia não se consegue comprar nada com estes preços, devem pensar que andamos a roubar.

Mas o apocalipse monetário depressa foi esquecido quando se olhou no vidro da montra e viu uma imagem bastante desarranjada; quase que se assustou com tamanho desalinho. O eterno furacão de uma saída apressada arrastava-a sempre para essa paisagem descomposta, que só tinha algum arranjo mais cuidado, depois, no regresso a casa para começar as suas lides diárias. Mas naquele dia, não esteve para menos: entrou de imediato num cabeleireiro e pediu um tratamento de choque. Nem as empregadas, habituadas a todos os cromas capilares possíveis, queriam acreditar quando viram a cor de cabelo alourado que Laura escolhera. Ela queria mesmo uma mudança forte.

Ao chegar a casa, quase que não se reconheceu quando se viu reflectida no espelho, mas ficou feliz, era assim que se queria sentir. Pegou num conjunto de maquilhagem, ainda quase intacto – nos últimos tempos não andava com disposição para pinturas – e empreendeu mais uma transformação através de um longo trabalho de definição de cores e traços no seu rosto. No fim, gostou da imagem sofisticada que o espelho lhe devolveu.

O guarda-roupa, ao ser aberto, não lhe mostrava grande oferta, mas Laura também não ficou preocupada, sabia o que queria vestir naquele dia. Escolheu de imediato um conjunto vermelho-púrpura, que tinha mandado fazer na sua antiga modista e que era a cópia exacta de uma peça assinada por um grande estilista internacional; alguma utilidade havia naquelas revistas que comprava ao fim-de-semana para matar as poucas horas que lhe sobravam, tinham sempre umas fotografias bonitas de mulheres elegantes que pareciam viver embalsamadas em festas. O modelo escolhido tinha, inclusive, um chapéu, de abas largas, a condizer, igual a um outro que uma vez também vira num daqueles eventos ingleses em que qualquer mulher está completamente nua se não levar um apetrecho ridículo na cabeça. Tudo estivera guardado para uma ocasião especial, e hoje era esse dia.

Help with Red Shoes... :  wedding red shoes shoes 58VIOL06Nos sapatos hesitou mais um pouco, não sabia se aqueles vermelhos escuros, os seus preferidos, seriam os mais adequados por ostentarem uns saltos demasiado altos. Mesmo assim, com todos os contras, acabou por optar por esses, afinal não ia estragar toda a composição com uns simples sapatos rasos. Podiam não dar muito jeito e até serem cansativos, mas uns bons saltos altos criavam sempre uma outra elegância.

Antes de sair de casa olhou-se novamente no espelho, estava irreconhecível naquele seu porte. Sentiu-se bela e poderosa, como convinha, mas um pouco nervosa; nada que não fosse normal, apesar de ser um dia como os outros, havia naquele algo de muito importante e excitante como há muito não tinha.

Red Dress

Mais tarde, quando chegou ao banco, sentiu que todos olharam para ela; também não seria de estranhar, não era todos os dias que entrava uma elegante e sofisticada mulher vestida de vermelho pelas instalações dentro, como se fosse para uma festa da alta sociedade, semi-ocultando misteriosamente o rosto num longo chapéu a condizer.

Quando se aproximou do balcão, sorriu e abriu a sua pequena bolsa de veludo púrpura.

– Quietos! – gritou Laura, depois de ter tirado uma pistola e de a apontar a quem estava à sua frente. – Isto é um assalto!

Falso conto, pois, na verdade, é a abertura de um outro mais longo (mini-romance) de nome O Absurdo dos Dias.

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