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Fantasmas da Liberdade (suspiro para Buñuel)

Fevereiro 7, 2012

Beijinhos e abraços sonoros; eternos cumprimentos à beira da porta, a fazerem eco por corredores vazios, como se as visitas tivessem que ser anunciadas aos restantes condóminos numa espécie de propaganda canora.

Ainda não estavam ditas as primeiras palavras de circunstância – faz frio, o tempo já não é o que era, esse penteado novo fica-te muito bem –, e já as crianças se tinham posto em fuga para o esconderijo mais secreto do universo: o seu quarto.

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Um serão em casa dos Carvalhais tinha sempre o mesmo figurino, como se de uma representação teatral se tratasse, cada um já sabia de cor as suas marcações: adultos na sala, em volta de uma televisão que fingiam não ver, com conversas sobre política, este país não sai da cepa torta, futebol, a culpa é mesmo do sistema, mundanices, as novas maminhas da Nini pareciam que iam rebentar, doenças, agora ando aqui com uma dor que me consome; e as crianças no quarto, com os seus mundos aos saltos, entre almofadas voadoras e ecrãs cibernéticos.

– O que estão a fazer as crianças, que não se ouvem?! – interrogou Violante, a anfitriã, enquanto saboreava um dedal de licor num cálice; as dietas que iniciava todas a semanas tinham as suas leis de volumetria.

– Ora, devem estar à volta da internet, como de costume – respondeu Vicente, um dos amigos visitantes. – Isso ainda vai ser a perdição deles. O mundo, agora, apenas ganha as formas do que existe por lá, naquela colmeia de páginas electrónicas; fora disso, é como se não existisse.

– Meu caro, é a era do e-existencialismo! – comentou Victor, enquanto se dirigia para a varanda, a fim de saborear rapidamente uns 120 segundos de fumo. – Apenas uma nova realidade, todo o resto são fantasmas das nossas cabeças gastas.

– Talvez, mas o pior fantasma é aquele que nos liberta para o abismo.

Se a conversa adulta era marcada por uma sonoridade elevada, a brincadeira infantil contrastava pelo aparente silêncio.

– Tão calados! Devem estar a aprontar alguma – insistiu Violante com a sua inquietação. – Vou lá dentro ver o que eles estão a fazer.

Violante levantou-se e dirigiu-se ao quarto dos filhos, onde eles tinham abrigado mais três amiguinhos visitantes. Sem fazer muito barulho, aproximou-se da porta e abriu-a. Ficou estarrecida; só não desatou aos gritos porque, mesmo em momentos fortes, uma mulher moderna tinha que manter a elegância. Apesar do choque, entrou pelo quarto dentro e arrastou os seus dois filhos até à sala.

– Eu não acredito, eu não acredito! – disse ela com as mãos na cabeça, depois de ter obrigado os filhos a sentarem-se no sofá. – Vocês nem imaginam o que eles estavam a fazer!

Quando Violante contou o que tinha encontrado na sua visita surpresa ao universo infantil, os dois casais visitantes prontamente foram buscar os seus filhos e propuseram-se a sair de imediato, não sem antes terem dado umas bofetadas secas nas caras cabisbaixas dos seus descendentes – só nos fazem passar vergonhas; em casa ainda levas mais.

Se a chegada fora bastante eufórica nos cumprimentos, a despedida, essa, desenlaçou-se quase em silêncio, o verdadeiro som da vergonha que, naquele momento, os cobria a todos.

Victor e Violante preferiram guardar o dia seguinte para ter uma conversa profunda com os filhos; uma cabeça quente nunca é boa conselheira; mandaram-nos, sim, imediatamente para a cama. Depois, sentaram-se no sofá a tentar perceber o que se passara.

– Já deitaste aquilo fora? – perguntou Victor, quebrando o silêncio introspectivo que reinava.

– Não, guardei lá dentro.

– E se fosses buscar para nós vermos? – propôs Victor com um certo sorriso maroto.

– Estás parvo?! Já não bastou a cena de há pouco?!

– Vá lá! Ninguém está a ver.

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Perante a insistência do marido, Violante levantou-se e foi à arrecadação buscar os objectos – guardados num saco preto do lixo – que tinham incendiado a noite. Fechou a porta da sala e sentou-se de novo no sofá. Ao começar a desfolhar as primeiras páginas, as pernas de ambos entrelaçaram-se num gesto de carinho e cumplicidade do momento.

– Ainda te lembras disto? – perguntou Violante?

– Se me lembro, foi um êxtase para mim na altura.

Em conjunto, releram algumas passagens das Aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain, de uma velha edição já bastante amarrotada que, não se sabe como, os seus filhos tinham conseguido obter. De tão excitados com a leitura, que há muito não saboreavam, nem deram pelo avançar da noite. Resolveram guardar a outra peça apreendida aos seus filhos, Oliver Twist do Charles Dickens, para dia seguinte, assim não misturavam prazeres. Enquanto isso, os seus filhos dormiam um sono agitado, cheio de imagens psicadélicas, em resultado de todos os acontecimentos fortes daquele dia; não só fora arriscado entrar numa biblioteca, com níveis de segurança bastante elevados, para roubar dois velhos livros, como também tinha sido bastante embaraçoso serem apanhados a lê-los naquela noite. Um trauma para a vida inteira, por certo.

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Pequena homenagem a Truffaut, Buñuel e a todos os grandes escritores de grandes histórias.

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One Comment leave one →
  1. minda permalink
    Abril 24, 2012 5:05 pm

    delicioso o texto…

    assustadora a imagem por ser quase real…

    minda

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