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Pedaços Delirantes de Futuro

Janeiro 29, 2012

Os meios de aprendizagem podem ter evoluído muito com o tempo, muitíssimo até, mas a forma básica da educação manteve-se, na sua essência, ao longo dos séculos: o mestre, mais velho e sabedor, a transmitir os seus conhecimentos aos aprendizes. Não importa se falamos dos pensadores da antiga Grécia, dos feiticeiros imaginários de uma Idade Média, dos Iluministas do Séc. XVIII ou dos Revolucionários do Séc XX, em todos eles a estrutura da transmissão de conhecimento mantém-se: um espaço académico, a dois níveis, onde se transmite o saber como quem passa um testemunho. Podemos verificar que esse espaço, de nome Escola, se manteve perpétuo ao longo das eras, apenas vestiu roupas diferentes.

No entanto, face à evolução tecnológica dos últimos tempos, e à sua moldagem dos costumes, nasce uma inquietação: até quando a escola vai ser Escola?

Deliremos um pouco, aos pedaços.

2027 – ESCOLA PÚBLICA

Era dia de teste. Os alunos tiveram que passar pelo detector de metais: o objectivo era assinalar a presença de mp7, pequenos aparelhos que podiam armazenar a informação de toda uma nação. No entanto, o que mais se detectava eram armas, nomeadamente os pequenos sabres com uma luz cortante, Laser Weapon LW, muito em moda e inspirados num filme do século passado; talvez, por isso, lhe chamaram The Force.

Quando entraram na sala, os alunos ligaram os ecrãs que faziam parte da secretária, mas, como sempre, alguns não funcionaram. O teste ainda não estava lá; tiveram que esperar a entrada da professora.

– Ó setora hoje não vai correr o glass? – perguntou um dos alunos, quando viu que o vidro anti-bala, que os separava da professora, ainda estava corrido.

– Não, vai ficar assim! – respondeu a professora. – Da última vez que o baixei quase que não saía daqui viva. Não vou arriscar. – Só de pensar no sufoco que foi ter uma arma apontada à cabeça quase que desfalecia; também não percebia como passavam eles as armas, depois de terem montado toda a segurança à entrada; com jovens não se podia facilitar, eles arranjam sempre maneira de contornar as imposições.

– Ok, lá vamos nós de Táxi – gozou um dos alunos, pois aquele separador entre alunos e professor era assim conhecido por fazer lembrar um dos primeiros mecanismos de segurança dos táxis.

Dada a inoperacionalidade dos ecrãs, activou-se o plano de contingência: executaram o teste nas velhinhas folhas de papel.

2027 – ESCOLA PRIVADA

Era dia de teste. Antes de entrarem na sala ligaram os seus Mp7 num nos dos muitos terminais existentes nos corredores para visualizarem em ponto maior toda a matéria. Um deles fez uma colagem, processo que consistia numa leitura óptica de algumas partes da informação através de um micro marcador, que depois podia ser descarregado em cima de um monitor sem que a informação fosse introduzida ou detectada no sistema.

– Clix, isso é proibido, se fores topado vais ter um crash nas tuas notas – avisou um dos colegas.

– Não tive para downloadar tudo para a mona. Tem que ser assim.

Ao entrarem na sala tiveram uma surpresa: as e-desk, secretárias cujos tampos eram os próprios computadores, não permitiam o acesso.

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– Meus amigos – informou a professora, – hoje vamos abandonar as nossas velhas amigas e-desks. Ponham os óculos, os iVision, e no dedo indicador o e-thimble, pois, desta vez, vamos fazer tudo por aí. Como sabem, basta tocar com thimble na imagem projectada, que vão visualizar, e dão ordem de comando, escolhendo a imagem correcta como resposta. Mas vocês conhecem isso melhor do que eu. Já agora, para os mais espertos as colagens aqui não funcionam.

2043 – ESCOLA PÚBLICA

Depois de passarem 3 barreiras de segurança, os alunos despiram, à entrada do grande átrio da escola, os seus acid-protects, uma capa neo-acrílica que geria a temperatura do corpo e impedia a poluição de tocar na pele. Quando os colocaram nos despoluidores – aparelhos que retiravam dos tecidos toda a camada negra e ácida existente no ar e que ficava agarrada -, verificaram que estes não funcionavam. Reclamaram, mas não adiantou, quase ninguém estava na escola para os ouvir; apenas algumas câmaras registaram esse facto e o transformou, automaticamente, em vídeo relatório nos computadores dos responsáveis.

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Sem maiores preocupações, caminharam por um longo corredor vazio à procura da sala onde iam ter exame. Ainda que já o tivessem visionado no computador, o espaço não lhes era familiar, praticamente só o frequentavam para prestar provas; a escola era, agora, um local quase fantasma. Na sala de exame já estava projectada um holograma de um professor, único a nível nacional. Os professores – uma classe que praticamente desaparecera face aos novos métodos de ensino – prestavam apoio à distância, bastando apenas um para garantir a assistência a centenas de escolas.

– Estive a bombar conhecimento toda à noite; estou preparadíssimo – referiu um dos alunos, que tinha efectuado, assim, o método de estudo normal do momento: dormir com um CP, Conhecimento Passivo, um micro chip no ouvido que provocava ondas no cérebro com toda a matéria que precisava saber, e que era mais conhecido no meio jovem por KD (knowledge downloaded).

– Eu também – respondeu um colega, – mas, mesmo assim, antes disso, fiz um estudo pró-activo, li umas coisas. Temos que ter cuidado com isso dos KD em exagero, ouvi dizer que faz mal. Tenho um amigo que teve um crash na mona durante a prova e teve que ser internado, agora parece um tolinho.

De repente, a imagem da professora, estática até ali, entrou em funcionamento:

– Bem-vindos a mais um exame. A vossa prova será projectada dentro em breve. Boa-sorte.

2043 – ESCOLA PRIVADA

Os dois jovens divertiam-se no deserto numa luta enérgica de robots que ambos pilotavam no seu interior. Num dos voos rasantes foram surpreendidos por uma voz, a mãe:

– Meninos, o vosso PT (Personal Teacher) está a chegar, foi detectado pelo nosso sistema a 5 minutos daqui. Preparem-se para o exame.

Perante tal aviso, os dois rapazes fizeram off, retiraram os 2 DCE (Digital Complete Effects) – uns pequenos óculos de película, que aderiam facilmente aos olhos e aos ouvidos, e que, ao gerar impulsos electrónicos no cérebro, transportavam as pessoas para qualquer ambiente, simulando, com todos os sentidos, os lugares e as coisas; viajar deixara de ter limites, ainda que não se saísse do lugar – e aguardaram calmamente, na sala, a chegada do PT.

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– Não sei porque tiramos os DCE, se calhar até vamos fazer o exame neles – disse um dos jovens.

– Acho que não, o Ministério não autoriza porque também podemos aceder a outros conteúdos.

– Ora, o PT depois retira as provas do DCE e codifica-as novamente; é para isso que lhe pagamos. Mas também para mim tanto me faz, ontem tomei a pílula? Tu não?

– Não, isso não está suficientemente testado. Acho que pode ter efeitos secundários muito graves. É proibida a venda, onde a arranjaste?

– Ora o proibido hoje em dia significa alguma coisa? Tudo se adquire num instante no e-market. Até fizeram entrega óptica e tudo. Uma pessoa levanta-se um pouco pedrada, mas estou aqui como se fosse um autêntico catedrático no assunto.

Descoberta a fórmula do conhecimento, o efeito físico no cérebro da memorização e do raciocínio, depressa se concebeu a Pílula do Conhecimento, um comprimido amarelo que tomado antes de deitar, fazia segregar substâncias e impulsos eléctricos no cérebro, que levavam à retenção imediata de todo o conhecimento que fosse passado pelos DCE ou CP, como se a pessoa fosse sempre detentora dessa sabedoria. Numa noite poder-se-ia ficar conhecedor de uma biblioteca inteira. No entanto, vários casos de loucura foram conhecidos após a ingestão da referida Pílula.

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– Vou descarregar os testes – disse o PT depois de entrar na sala onde estavam os jovens. – Já sabem que é composto por 2 conteúdos: a prova propriamente dita e os elementos de auxílio. No fim do tempo estipulado, os testes desconectar-se-ão automaticamente. Boa sorte.

 

2094

Não há escolas públicas nem privadas. A Escola desapareceu. O Estado desapareceu.

Após o aparecimento dos Replicadores, que conseguiam replicar toda a matéria como se fosse uma mera cópia digital, toda a estrutura económica ruiu. À semelhança da cópia digital, as pessoas puderam replicar de toda e qualquer matéria. De um momento para outro era possível obter uma cópia exacta de um outro objecto. Só as empresas que fabricavam os Replicadores sobreviveram e por isso começara a dominar tudo, substituindo-se ao próprio Estado.

O poder e a lei emergem das Enterprises, os fabricantes de Replicadores; as pessoas passaram a ser meros serviçais ou subsistentes das empresas; o feudalismo electrónico nasceu.

O conhecimento é, agora, um programa feito à medida. As crianças, elaboradas também à medida das necessidades, são desde logo invadidas com todo o tipo de conhecimento, tornando-se assim seres super inteligentes e conhecedores, mas muito direccionados. Os adultos, ao longo da vida, também vão sofrendo vários programas de upgrades e, consequentemente, várias personalidades.

Mas nesta programação contínua não há só inserção de conhecimento, também há retirada do mesmo, através do famoso KD (Knowledge Delete). Em função dos objectivos da Enterprise ou da existência de algum perigo para a sua hegemonia, as pessoas são submetidas a tratamentos com vista à retirada de conhecimento.

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Ele e Ela conheceram-se no Túnel, centro de manipulação de conhecimento, quando foram seleccionados para um programa de Arte Hemisférica; foi amor à primeira vista, como nos velhos livros que se deixaram de escrever. Juntos iniciaram uma caminhada na Enterprise: primeiro num trabalho árduo de melhorar os conteúdos da empresa; depois numa luta secreta contra a manipulação de conhecimento e de memórias.

Agora, ali estavam eles outra vez: ela para adquirir um novo nível de ciência, o de Bio-Electrónica Plus, técnica muito complexa que obrigava à diminuição de outros tipos de conhecimento; ele para um programa de recuperação, que no fundo significava o apagão de todo um conhecimento em filosofia política, que adquiria ao longo do tempo, e a introdução de uma nova memória dos dias.

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Entraram ambos no longo Túnel, cheio de ondas coloridas. Os corpos, deitados, levitaram por força de um campo sensorial que os fez deslizar por todos aqueles anéis de cor luminosa. Antes de se separarem em corredores diferentes, ele ainda tocou, ao de leve, no dedo dela. Ambos sabiam que a partir dali, quando se voltassem a encontrar, já não se iam conhecer; seriam dois estranhos, com memórias diferentes que não se cruzariam.

Restava-lhes a esperança que aquele toque nos dedos fosse o testemunho de um sentimento, uma espécie de beijo dos velhos contos de fada que, ao voltar haver um contacto – no dia em que desconhecidos se cruzariam -, os despertasse para a paixão que as máquinas calaram; a química natural a sobrepor-se ao conhecimento electrónico.

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4 comentários leave one →
  1. Janeiro 29, 2012 7:59 pm

    Ainda bem que em 2094 já estou a fazer de tijolo…sou romântica demais para viver assim…

    • Bau P permalink*
      Janeiro 29, 2012 9:16 pm

      mesmo em 2094 há romantismo, ó iá!

  2. Janeiro 29, 2012 8:16 pm

    Até me arrepiei!
    Depois do arrepio, verifico que os dois últimos parágrafos já por aqui andam. As máquinas que anularam as emoções; a substituição de um conhecimento por outro; o “bate e foge” dos relacionamentos.

    • Bau P permalink*
      Janeiro 29, 2012 9:17 pm

      mas Kurioso, o futuro é apenas o prolongamento das nossas inquietações actuais

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