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Adivinhe quem vem Jantar?!

Janeiro 26, 2012

Assim que o dia tombou, a casa ficou vazia – ou quase. Em oposição ao que era costume, todos os criados foram apressados a terminar os seus afazeres de final de tarde – a gaja passou-se; que destrambelhe todos os dias, que assim chego mais cedo a casa -, nem mesmo a camareira, que preparava o quarto com todos as exigências de um dormir requintado, ficou nessa noite. A velha senhora precisava urgentemente de ficar a sós. Durante toda a tarde esteve ansiosa, não fosse alguém ouvir algum barulho estranho vindo da cave; inclusive, esteve para dispensar todos os empregados logo após o almoço, mas achou que iria levantar uma certa suspeita, pois ela não era mulher para grandes agrados com o pessoal subalterno.

Logo que ouviu o portão electrónico do jardim fechar-se, suspirou; era chegada a hora. Desceu à cave, acendeu a luz e olhou para eles; ali estavam, amarrados, mudos e quedos. Fez um pequeno passeio à sua volta, tocou-lhe ao de leve com os dedos, numa espécie de provocação, e soltou uma gargalha forte.

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– Já voltarei, meus queridos – disse ela, antes de subir as escadas e apagar a luz, deixando a cave de novo na escuridão.

Não se ouviu um gemido; todos a temeram.

Na cozinha colocou uma panela de água a ferver; era tempo de começar a preparar o grande prato. Um desfile de iguarias preparativas rolou pela mesa, ia cozinhar com todo o esmero aquele jantar. Há muito que não punha o pé na cozinha, mas aquela refeição especial tinha que ser feita por si: só o manjar que nos sai da mão chega ao coração.

Quando o caldo estava no ponto, ela dirigiu-se à dispensa e, de um grande saco, tirou o corpo para a cozedura. Sem grandes alardes caiu na panela. Mexeu, provou e deixou cozinhar em lume brando, como mandava a receita.

Enquanto a panela fervia, dirigiu-se à sala e começou a pôr a mesa, com todo o requinte; dois grandes castiçais – um em cada extremo – culminaram a tarefa. Depois de apagar o fogão, voltou à cave.

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– Preparados para a festa, meus queridos? – disse ela, enquanto desensarilhava um ponta da corda para os puxar escada acima, sem nunca os desamarrar. Eles não resistiram, deixaram-se levar.

Na sala de jantar, soltou-lhes um pouco a corda, para que todos eles se sentassem à mesa; mas sem facilitar, não fosse algum escapar-se e estragar-lhe o sonho de uma vida. Quando todos já estavam instalados, foi à cozinha buscar o manjar; voltou com uma enorme terrina de prata que colocou bem ao centro da mesa.

– Quem quer ser o primeiro a ser servido? – perguntou ela, enquanto destapava a terrina, deixando sair uma grande quantidade de vapor que se espalhou pela sala, enchendo-a de finos aromas.

Ninguém respondeu; no entanto, não se fez silêncio. Assim que o fumo se dissipou, foram gritos histéricos que estalaram no ar. Não queriam acreditar no que viam dentro do caldo; só nesse momento, os forçados convivas repararam que faltava um dos companheiros, que havia um lugar vazio na mesa.

– Glenn, desiste! Nem com todo o terror do mundo serei teu – disse, entre soluços e gaguejos, o Oscar de Melhor Actriz.

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– Serás, serás! Serás tu e todos os que estão aqui. Esta noite não terei um, mas sim todos os Oscares possíveis – respondeu Glenn Close, já com a voz exaltada. – Tantos anos a sorrir, a bater palmas e a vir sempre de mãos abanar. Não, hoje só vão ser meus e de mais ninguém.

– Mas Glenn, eu sou o dos Efeitos Especiais, nunca te calhava, sou mais uma coisa de computadores. Deixa-me ir embora! – implorou, com voz sumida e fina, um outro Oscar.

– Daqui ninguém sai; pelo menos, vivo! – Glenn voltou a soltar uma gargalhada histérica. – Vá sirvam-se, preparei esta sopa de Oscar de coentrada, com todo o carinho do mundo só para vocês; pena que o Melhor Actor já não vá para ninguém, a não ser para o nosso palato. Clooney, my dear, I don’t give a damn!

– Não adianta, Glenn – disse o Oscar de Melhor Filme, endireitando-se na cadeira e fazendo jus ao seu estatuto de prémio principal – Connosco ou não, será sempre a Meryl Streep que subirá ao palco; ela é uma senhora!

Ainda com a exclamação entre dentes, o Oscar do filme do ano voou até à lareira, depois de Glenn lhe ter dado com a colher com que tirava a sopa.

You talking to me? – perguntou Glenn virada para a restante plateia à mesa, enquanto o calor do lume derretia as formas da estatueta. – Vamos comer, antes que o Bunny esfrie. Meus queridos, temos que celebrar esta grande noite, e não se preocupem com Meryl, que ela está muito bem. Merylizinha, I’ve got a feeling you’re not in Kansas anymore.

Meryl abriu os olhos, com algum esforço, como se tivesse a despertar de uma ressaca adolescente; uma forte dor na cabeça prendia-a ao chão, onde estava prostrada. Não percebia como tinha ido parar ali, a uma pequena ilha, de meia dúzia de metros quadrados, perdida no meio do oceano; logo naquele dia, em que uma plateia enorme a aguardava para lhe fazer a maior das ovações.

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2 comentários leave one →
  1. minda permalink
    Janeiro 26, 2012 10:00 pm

    and para Bau Pires vai….

    o ÒSCAR de …

    o “maior louco do ano”

    fantástico…

    beijinhos
    minda

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