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It’s my party (estranho como cinema)

Janeiro 22, 2012

 Se fosse como no cinema, ela desceria lentamente por uma longa escadaria, de maneira a exibir o seu longo vestido púrpura, sem ombros, completamente justo até aos joelhos – realçando-lhe umas formas ainda bem moldadas na idade – e solto na parte final; mas não, ele quase que se assustou quando ela lhe apareceu, subitamente, por detrás do sofá.

image– Apertas-me o colar? – pediu ela.

Ele levantou-se, largou o charuto apagado que tinha na mão – apenas brincava com a peça para se entreter e distrair o vício – e obedeceu ao pedido; maldito fecho, uma jóia de alto valor e depois com um sistema completamente arcaico; ficou nervoso por não estar a conseguir levar a bom termo o pedido.

– Não achas que pode parecer muito ostensivo levar uma jóia destas, numa altura como esta? – perguntou ele, não tanto pela preocupação, sabia que a mulher como remate daquele vestido de alta costura nunca iria colocar uma peça qualquer, mas sim para disfarçar o nervosismo de não conseguir executar a empreitada.

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– Estás doido? O que diriam se eu aparecesse como uma pindérica – respondeu ela, também a disfarçar a impaciência da falta de jeito do marido. – Sabes bem que é em momentos como estes que temos que mostrar o que temos e o que não temos; ai de nós se damos a transparecer alguma crise, vamos de imediato ao chão.

Finalmente conseguiu levar a cabo a tarefa: o belo colar de brilhantes, com uma bonita gema em ponta e dois brincos a condizer, brilhava seguro na pele alva da mulher.

– Vamos, ainda que não queira chegar cedo, não podemos chegar tarde, a Mimi odeia atrasos, especialmente em ocasiões como esta – disse ela, enquanto pegava numa longa estola branca de pêlo genuíno e a colocava nos ombros; as noites iam frias.

Ele vestiu o casaco do smoking e dirigiu-se para a porta; antes de sair, ela ajeitou-lhe o laço e beijou-o.

Já a porta estava a fechar, quando se voltou a abrir: tinham esquecido o convite. Ele reentrou no hall, dirigiu-se a uma pequena mesa, pegou num envelope e abriu-o; sim, ali estava o convite, em papel pergaminho com letras douradas.

À saída da garagem, ao ver passar o luzente jaguar preto, o segurança ensaiou uma pequena vénia de cumprimento, acompanhada de um “boa noite” que não pôde ser ouvido; dentro do carro, ouvia-se Bach, na sinfonia 11 em G menor.

Durante o trajecto as palavras não foram muitas, a música envolvia-os e afastava-os das imagens que desfilavam pelos vidros fumados do carro: ao longo da marginal, gente, em bando – outrora designados por sem-abrigo, agora população em geral -, aquecia-se em pequenas fogueiras feitas de restos, de lixo que, ao final do dia, depois de nova escolha, não tivera melhor destino.

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– Uma ilha – rompeu ela o silêncio. – Não é por assistirmos constantemente a este tipo de miséria que ela deixa de o ser; se fossem todos para uma ilha não ficávamos com este triste espectáculo que só causa má imagem ao país. Ao menos, tinham um incentivo: sair da ilha. Quando houvesse emprego, e tivessem novamente lugar na sociedade, íamos buscá-los; os mais capacitados, os mais fortes teriam de novo uma oportunidade.

Ele não respondeu, concentrou-se na condução – acelerou, não fosse algum vagabundo daqueles saltar-lhe para a frente do carro – e em Bach.

No grande portão de ferro forjado, arte nova, que abria a entrada do palacete de Mimi, os seguranças certificaram os convites e abriram passagem. Estacionaram na área reservada aos convidados. Ela ficou satisfeita: não estavam atrasados, mas também já tinham chegado bastantes convidados, assim, poderia entrar numa festa composta e não numa arena despida, o que acontecia sempre a quem – por não saber boas regras de sociedade – chegava cedo.

Entraram na sala. Foram vistos. Viram.

Uma grande paleta de cores sóbrias, constituída pelo enorme desfile de vestidos assinados, envergados pela fileira feminina, contrastava com o branco e preto da ala masculina, criando uma espécie de pintura expressionista.

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Não foram precisos muitos segundos para que o casal, recém-chegado, estivesse entrosado com todos os presentes, num ameno convívio, enquanto esperavam pela entrada da anfitriã. Os empregados, vestidos a rigor, desfilavam, ao alto, bandejas com pequenos canapés – não muito procurados, era preciso manter a linha e não se podia, de forma alguma, dar a imagem de esfomeados – e bebidas requintadas, onde o champanhe era a eleição.

Ao fim de alguns minutos, eram nove em ponto, a música mudou; o pianista deixou de tocar um dos Nocturnos de Chopin e encetou o Moonlight Sonata de Bethoven. Fez-se silêncio, Mimi ia entrar; os olhares rodaram para a imponente escadaria que desaguava na sala.

angelina-jolie-golden-globes-brad-pitt-2012-03Como no cinema, Mimi começou a descer, lentamente, degrau a degrau, as longas escadas em mármore que ligavam a zona térrea – de pé alto – ao andar de cima. Com um sorriso discreto e um ligeiro acenar de cabeça, foi cumprimentando os presentes na sala. Todos puderam comprovar a sua magnânima elegância: num justo vestido pérola, apenas com uma faixa vermelha no topo a definir fronteira com os ombros, Mimi brincava com a idade.

No final da caminhada descendente, Mimi, agora com um sorriso mais aberto, dirigiu-se à chaise longue de veludo vermelho, que estava situada no centro da sala, e onde ninguém se sentara.

Boa noite e sejam bem-vindos – cumprimentou Mimi antes de qualquer gesto; depois, sentou-se, para de seguida se esticar naquele divã especial.

Como uma sereia, e perante o olhar embevecido e contemplativo de todos, assim permaneceu durante algum tempo. Sentiu-se descomposta, a enorme racha no vestido permitia ver por completo as suas longas pernas. Num gesto discreto, puxou o vestido para que cobrisse parte das pernas; não que tivesse pudor em mostrar-se um pouco, mas não se sentia bem ao saber que uma parte do corpo, onde as dietas e as plásticas não foram suficientes para enganar o tempo, estivesse, assim, a descoberto de todos.

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Um dos empregados – talvez o mais velho deles todos – aproximou-se com uma bandeja, inclinou-se perante Mimi e ofereceu-lhe o que transportava. Ela pegou no objecto, ergue-o aos convidados: – À vossa!

Todos os presentes – com excepção dos empregados – ergueram os seus cálices e também brindaram. Depois da saudação, Mimi baixou o objecto, encostou-o à boca, sorriu e disparou. A pistola caiu no chão. A cabeça de Mimi não tombou serenamente na chaise longue, como nos filmes, como ela previra, desfez-se, sim, com o impacto do disparo, largando sangue e pedaços de carne por todo o lado. Alguns dos vestidos, outrora sedosos de encanto, apresentavam agora manchas avermelhadas à mistura com uma estranha pasta cerebral.

Como pessoas de fino trato e de esmerada educação, ninguém perdeu a compostura. Os convidados, voltaram a erguer as taças e brindaram novamente à eternidade.

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