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O Encantador de Cavalos

Janeiro 15, 2012

Mas que saber importa?, se a razão é morta.

Ele olhou aquelas letras que rabiscou no seu caderno de notas; sentiu-se orgulhoso e extasiado. A frase com que concluíra o curto poema tinha força, dera todo um brilho aos versos anteriores, e fizera-o explodir de prazer.

Nunca pensara escrever poesia, mas agora, todos os dias, tinha necessidade de desabafar um poema, como se expiasse a remoinho dos acontecimentos num desfile de palavras soltas, ritmadas, bem adjectivadas e de sentido profundo; sempre era mais fácil que a anterior mania artística de pintar umas naturezas mortas – que por vezes até ganhavam vida de tão espaventosos traços -, especialmente porque montar o ateliê não era tarefa que se pudesse fazer a qualquer momento e em qualquer lugar.

De tão satisfeito com o poema que escrevera, achou que o devia passar de imediato para o computador; a lírica fazia parte daquele lote de cinco estrelas que um dia haveria de dar a conhecer; sim, porque o mundo ignorava quanta sensibilidade se escondia por detrás daquele olhar bravio e acutilante com que se apresentava aos outros.

Só no momento em que se preparava para dedilhar tão pulcras palavras, é que reparou que no computador ainda passava um filme que pusera – antes de tão nobre inspiração – a correr no ecrã. O fulgor do engenho fizera-o esquecer das imagens. Mais sereno – o resultado literário sossegara-lhe a excitação -, voltou a concentrar-se na narrativa do filme.

Perante o desfile das imagens sentiu-se emocionado; não só porque foi aquele ambiente fílmico que o inspirara e lhe dera o impulso para rabiscar as belas palavras, mas também porque o ambiente das cenas que via reconfortava-o, aconchegava-o, como naquelas tardes do dia de natal, em família, a ver velhos musicais.

Apeteceu-lhe elevar o som para se envolver ainda mais com o que apreciava, mas não o fez, não queria que do outro lado do gabinete tivessem a mais pequena percepção do que estava a ver. Tinha pena. Apesar de já quase saber de cor o desfile dos acontecimentos, gostava sempre de ouvir o embalo das vozes que davam corpo ao encanto das cenas.

Mesmo com cinema mudo, uma lágrima ainda tentou nascer num recanto das vistas.

No ecrã do computador, duas belas mulheres – esculpidas a silicone e a farandol -, nuas, entregavam-se num jogo luxuriante, onde não faltavam umas longas e agudas botas de cabedal, não descalçadas, uns chicotes inocentes, repousados nos revoltos lençóis de cetim grená, e um fálico dildo, bem luzente, com que brincavam nas suas partes íntimas, depiladas e oleadas para o momento. Ainda que nada se ouvisse, poder-se-ia deduzir os sonantes gemidos que as duas fêmeas soltavam durante o acto em cena.

Foi o som do telefone que o despertou de semelhante encantamento. Atendeu, soltou uns monossílabos entre dentes e desligou. Estava atrasado. Num rompante, desligou o filme, fechou o computador e o caderno, levantou-se do cadeirão e foi até ao pequeno sofá no canto do gabinete. Pegou nas calças e vestiu-as rapidamente; a gravata – pousada nas costas do sofá – voltou ao pescoço e foi apertada. Estava novamente composto.

Bateram à porta. Ele respondeu: sim, pode entrar.

– Vamos, senhor Ministro? – perguntou o assessor, assim que abriu a porta. – A sala já está repleta de jornalistas.

– Sim, vamos lá domar as feras – tentou uma piada, o ministro.

– E que feras! Este osso vai ser duro de roer; também, com as medidas que vamos anunciar, não podemos esperar outra coisa.

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