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Lets Twist Again (Pulp Fiction sempre a abrir)

Janeiro 8, 2012

Uma onda acordou-o; os salpicos de água no corpo fizeram-no levantar rapidamente da areia. Estava nu, só e perdido numa praia desconhecida. Quando se viu assim, ainda esboçou um sorriso – devia ter sido forte a farra na noite anterior, para despertar naqueles propósitos -, mas o facto de não lhe soprar na memória nem uma réstia de prazer, depressa o fez abandonar a ideia de deleite nocturno; fora assaltado, drogado até, e abandonado naquele ermo, pensou.

Ao fundo, junto às rochas, ainda que a névoa pintasse o ambiente, viu o que lhe pareceu ser um bar de praia: uma casa pequena de madeira. Dirigiu-se para aquele local, alguém havia de lá estar para o socorrer, pelo menos dar-lhe umas roupas que o ajudassem a sair daquele estado indecente.

Quando entrou – depois de empurrar uma porta que teimava em não abrir – viu um espaço completamente deserto, apenas um balcão dava a ideia que o estranho local fora um bar. Caminhou naquela sala vazia à procura de encontrar algo – não sabia o quê -, como quem procura o interruptor para acender a luz quando se está no meio da escuridão. Encontrou uma camisa caída por detrás do balcão; sem pensar, vestiu-a de imediato. Sentiu-se mais composto. Abriu uma porta – seria uma cozinha, o mobiliário assim o apontava -, entrou e ainda não tinha dado dois passos e já tropeçava em algo: um corpo de homem, estendido e sem camisa, sangrava.

Não dava ares de vida aquele corpo estendido; o sangue derramado no chão levou-o a nem tentar perceber se ainda podia fazer alguma coisa por aquele homem. O melhor era sair daquele lugar, antes que as coisas complicassem; talvez chamasse a polícia quando pudesse dar uma explicação lógica porque estava ali.

– Não se mexa! – ouviu a ordem por detrás de um cano de uma pistola que lhe encostaram na nuca. – Não vai sair daqui vivo. Vou fazer-lhe o mesmo que o senhor lhe fez a ele.

Apetecia-lhe gritar que não fizera nada, que estava ali por engano, mas a pistola, a respirar a sua pele, emudeceu-o. Achou piada que alguém – ainda sem saber porquê – o tratasse por senhor no momento em que o queria matar; teria que ser muito mais nova a mão que empunhava a arma.

A voz, feminina, não disse mais nada; a sua dona, entretanto, disparou um tiro seco. Ele caiu. No chão, atordoado, delirou com a sua morte: como seria ela? Não teve muito tempo para desvarios, um outro corpo, perto de uma porta, tombava. O tiro não tinha sido para ele – que caíra apenas pelo efeito da explosão do disparo junto ao ouvido -, mas sim para uma nova personagem que surgira de repente.

– Desculpe se o assustei, mas tinha que criar uma manobra de diversão para o abater. Caso contrário seria ele a matar-me. Agora, tenho que fugir antes que cheguem mais. O senhor deve fugir também, mas seria melhor vestir umas calças primeiro, ou ainda acaba preso por atentado ao pudor.

Sem mais palavras, ela fugiu e ele ficou, agora, na companhia de dois cadáveres. O disparo e a queda serviram para uma coisa: enquanto caído lembrou-se que se chamava David.

Naquele compartimento, que já fora cozinha, os mortos pareciam multiplicar-se; ainda não estava ali há cinco minutos e já jaziam dois a seus pés. Antes de sair, precisava de encontrar um telemóvel – só isso o metia em contacto com o mundo exterior, o mundo normal que o arrancaria daquela alucinação -, mesmo extintos, os corpos teriam que ter um, todo o ser humano carregava aquela gerigonça electrónica como um segundo coração. No primeiro corpo nada encontrou, apenas reparou que o seu peito tinha uma tatuagem: 5 letras em círculo que faziam a palavra Croma. No segundo, no bolso das calças, encontrou o objecto desejado. Marcou o 112; no meio de uma convulsão quase histérica de palavras chamou a polícia.

Enquanto esperava, resolveu que não queria aparecer assim aos agentes, apenas com uma camisa no corpo, provavelmente emprestada da primeira vítima. Dirigiu-se à segunda vítima e tirou-lhe as calças, deviam servir-lhe, o homem tinha uma daquelas estaturas padrão. Ainda estava a correr, com cuidado, o fecho-éclair, quando uma mão lhe agarrou a perna violentamente.

– Corra! – disse-lhe o moribundo sem calças, com os olhos bem arregalados – Corra sempre, pare apenas para morrer – e, como sempre, nestas coisas de falas de gente a finar, fechou os olhos após a frase fatal.

Nesse momento, David reparou em coisas estranhas: as duas vítimas eram quase iguais, gémeos seriam; as caras deles lembravam-lhe alguém mas não sabia quem.

David saiu para o pequeno alpendre – que outrora devia ter sido uma esplanada – e esperou a chegada da polícia. Quando viu umas luzes aproximarem-se, vindas pela única estrada, de terra batida, correu ao encontro delas. Ainda não tinha soltado os primeiros ais – as pedras cravam-se nos pés nus – quando recebeu os primeiros tiros. Felizmente que o anoitecer distorce pontarias, e ele teve tempo para se atirar pela ribanceira da berma; correu mais um pouco e escondeu-se numa duna. Os dois homens da autoridade saíram do carro e começaram-no a procurar.

– Chama reforços, ele não pode sair daqui vivo – ouviu David, de um polícia que estava bem perto e que, só por um triz, não o viu.

Mas quem acabou morto foi o próprio polícia, ao ser alvejado por um tiro vindo da escuridão. O outro agente, isolado, depois de ter disparado para o vazio, recuou, entrou no carro e partiu a toda a velocidade.

David não sabia se havia de sair do buraco da duna e correr sem fim, ou aguardar que aquela tempestade de gente a cair morta se acalmasse. Não teve tempo para ter muitas dúvidas. Umas luzes acenderam-se e vieram até ele; era um todo- o-terreno, que parou e abriu a porta.

– Entre, se ainda quer viver – disse-lhe uma mulher, ao volante, e que tinha a voz da personagem que lhe colocara a pistola junto ao seu ouvido na cabana.

Sem hesitar ele entrou no veículo e partiram; não pela estrada normal, mas sim pelo meio de todo aquele matagal, provavelmente uma zona de reserva onde não podia transitar, embora a um carro de gama alta tudo seja permitido.

– Chamo-me Penélope – apresentou-se a estranha personagem feminina.

David olhou-a: era uma mulher muito bonita; mais uma vez a cara dela também lhe parecia familiar, mas não sabia quem, talvez uma actriz de cinema. Não se preocupou muito com esse facto, se ele não se lembrava do seu passado recente, quanto mais ter boa memória cinematográfica.

– Pode explicar-me o que se está a passar? – tentou David obter um esclarecimento para o seu pesadelo. – Acordo nu numa praia, chovem-me corpos aos pés e já ouvi mais tiros neste final de tarde do quem em toda a merda de filmes que vi na vida.

Ela não ligou à pergunta. Continuou a conduzir.

– Vai continuar neste joguinho de mistérios? Não tenho paciência para tal brincadeira.

– É bom que tenha, mesmo, muita paciência; o seu jogo ainda agora começou.

Sem mais palavras, Penélope parou o carro, saiu e começou a subir aquilo que parecia uma duna gigante. David imitou-a, mais lentamente, que os pés descalços não lhe deixavam azos de grandes velocidades. Ao chegar ao topo deitou-se por detrás de uns arbustos, voltando a imitá-la. Olhou e viu, ao fundo, numa espécie de vale, aquilo que lhe parecia ser um grande complexo industrial ou uma central energética; as luzes e alguma arquitectura sofisticada davam ao lugar um ar de coisa do outro mundo, como se um qualquer Guggenheim tivesse despencado ali.

– Vamos; vamos tentar entrar – disse Penélope.

– Está doida? Já tenho que chegue. Quer o quê, que assalte as instalações de uma sucursal da NASA?

– Não tem outra saída, se quiser viver. Neste momento está contaminado com um vírus mortal e só ali poderá encontrar o antitudo que o salvará.

Sem pensar, David agarrou-a e beijou-a; como era doce a boca daquela mulher.

– Bom, assim seremos dois a estar contaminados – disse-lhe ele após o gesto arrebatado. – A união faz a força.

– Não seja cretino. Acompanhe-me.

Bem gostaria, mas a forma como ela saltou a vedação era mais adequada a um artista de circo do que a uma simples pessoa. Só faltava mesmo que ela abrisse a pele e fosse um lagarto, ou então que aquelas luzinhas todas começassem um processo de ascensão aos céus para a loucura ser completa, pensou David ao assistir ao triplo salto mortal efectuado pela tal Penélope. Quando ela já estava do outro lado, ele sorriu-lhe e encolheu os ombros, como que a dizer: – E agora, não está a pensar que eu seja acrobata.

– Vá até à portaria e entre normalmente.

– Só assim, chego lá, aceno e entro?

– Exacto.

Para quê duvidar, quando a loucura se instala, tentar tecer um raciocínio com uma milésima de lógica é pura perda de tempo. Avançou até à portaria, chegou a um pequeno cubículo onde estava um segurança; este olhou para o intruso, tirou uma pistola do bolso e disparou.

Não saiu bala da pistola mas, sim, um raio avermelhado que iluminou o corpo de David, numa espécie de scanner.

– Boa noite – cumprimentou o segurança, depois de ter verificado, no ecrã, todas as componentes do intruso e de lhe abrir o portão.

David entrou cauteloso: porque lhe permitiam, assim, a entrada? Ao avançar, tentou retribuir, com um simples acenar, um agradecimento ao segurança, mas não teve tempo; ficou gelado com o que viu.

Dentro do pequeno cubículo da portaria, o rosto de segurança – impávido e a seguir com o olhar os movimentos de David – revelou-se igual ao dos dois homens que ficaram caídos no bar da praia, e, mais uma vez, a cara era-lhe familiar. Naquele sonho alucinado, do qual teimava em não despertar, a humanidade masculina que se atravessava pela sua frente parecia que ficara reduzida a um único elemento que se replicara.

No entanto, o susto maior acabou por o ter quando, próximo do edifício principal – onde o esperava Penélope -, e ao passar diante de um envidraçado, viu reflectida a sua imagem: todos os supostos gémeos – com os quais esbarrara nas últimas horas – eram, nada mais, do que uma cópia da sua própria figura. Desde que acordara na praia que esquecera quem era, mas naquele momento, ao ver-se reflectido, reconheceu-se e identificou-se como réplica de todos as figuras masculinas que emergiram naquela sua alucinação – sós os polícias escapavam a essa figuração, mas as luzes do carro e os disparos não lhe deram tempo para os fixar.

Com um passo arrastado, começavam a faltar-lhe as forças, aproximou-se de Penélope; não esperava que ela lhe desse alguma explicação – e se a desse, por certo, ainda o confundiria mais -, apenas queria que o levasse dali para fora. Ela fez-lhe a vontade: assim que ele se aproximou, empurrou-o para dentro de uma espécie de elevador e carregou num botão.

– Adeus – disse-lhe Penélope, do lado de fora. A porta fechou-se.

David escorregou pela parede espelhada do elevador e deixou-se levar; algum destino haveria de encontrar, melhor ou pior não interessava, a confusão na sua cabeça era tanta que qualquer coisa servia. Levou algum tempo a chegar ao topo – pressentiu que ia subir. Quando o movimento parou e a porta se abriu, ele sentiu uma leve aragem fresca no rosto. Levantou-se e deu alguns passos, não muitos, pois, se mais algum tivesse dado, mergulharia num enorme abismo que se oferecia a seus pés. Tentou enxergar alguma coisa que lhe desse uma pista, mas além da altura descomunal – como se tivesse trepado à montanha mais alta e estreita do mundo – onde se encontrava, só um vasto mar à sua volta lhe invadia o olhar.

Como nos sonhos de miúdo – em que acordava sempre que caía de um abismo – resolveu atirar-se; assim, por certo, despertaria daquele pesadelo. Bastariam uns segundos de mergulho picado e estaria a acordar, dando um valente salto, na sua cama de sempre.

Não acordou.

David deitado numa cama de uma enorme sala, cheia de ecrãs, permaneceu imóvel; os monitores mostravam uma única imagem de um negro contínuo, como se todos estivessem desligados, apenas um apresentava uma linha contínua florescente.

– Não resistiu – disse uma assistente, enquanto desligava uns fios da cabeça de David. – Não passou do nível 7.

– A continuar assim, não vamos ter concorrentes para o Secret Dream – comentou o produtor do programa, enquanto tocava num dos ecrãs negros para visualizar imagens, algo distorcidas, das últimas vivências de David. – Já é o terceiro esta semana. Vejam lá se injectam menos soro de sonho nos próximos, esta gente só come porcarias e depois tem um coração de passarinho. Bom, este também não era nada de interessante, que raio de sonhos o homem tinha, parecia pulp fiction e da má, devia ser mais um escritor frustrado, daqueles que agora levam a vida a escrever coisas na internet. Pode ser que o próximo tenha uns sonhos mais escabrosos, sem isso estamos feitos, ninguém vai ver o programa.

– E o que faço com este?

– Fale com o Gaspar, pode ser que ele tenha algum interesse no corpo; ouvi dizer que o próximo programa dele é uma coisa de ressuscitar mortos. A Croma TV bem precisa, ou ainda perde as eleições.

Num tempo em que as estações televisivas passaram a constituir governo, só uma boa audiência poderia dar maioria absoluta, na nova democracia electrónica.

Nota: A versão mais alargada da historieta tem outros contornos e um desenlace diferente.

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2 comentários leave one →
  1. Janeiro 9, 2012 10:16 pm

    E haverá pão para os mortos ou isso de os ressuscitar é mesmo só para ganhar votos?
    Sempre a abrir. Uma paragem antes da morte. Para retomar o fôlego, talvez. 🙂
    Beijocas,
    Ana G.

    • Bau P permalink*
      Janeiro 10, 2012 9:55 pm

      Um dia vão ver que fabricar crianças sai caro e então o melhor é ressuscitar o pessoal. A morte é única paragem, ou talvez não 🙂

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