Skip to content

Diário de um Idiota (5) – Leilão

Janeiro 7, 2012

 

Parei o Jaguar à porta.

Não precisei de abrir a porta, nem o motorista de sair do carro: como se fosse um boneco de corda, o porteiro abandonou a sua posição hirta debaixo do toldo e caminhou, em passos curtos e saltitantes, pela passadeira vermelha até ao veículo, abriu a porta e apresentou-me uma vénia.

– Boa tarde Mr. Dimitris – cumprimentou ele, assim que coloquei os pés em chão não motorizado; nunca lhe dirigi a palavra (sou lá pessoa para dar esse tipo de confiança), mas ele, por força de muito me ver por aquelas paragens, gostava sempre de me saudar com reverência, fazia o papel de funcionário exemplar, o que só lhe ficava bem; um dia destes, direi ao motorista para lhe dar uns dólares, esta gente precisa sempre de uns trocados.

Quando entrei na sala, todos os olhares se voltaram para mim, sabiam que a minha chegada era um sinal que a transacção ia ser disputada; só um bom negócio me levaria a estar presente fisicamente, caso contrário, daria ordens por telefone, como era costume.

– Então, como vão as coisas? – perguntei ao meu emissário na sala.

– Bem, muito bem – respondeu ele, levantando-se prontamente da cadeira, não para me oferecer lugar, havia mais disponíveis, mas para esperar de pé enquanto eu me sentava. – Consegui arrematar tudo o que quería. Apesar de começarem a licitar por alto, depressa o preço cai, há muitos compradores mas, ao que parece, ninguém está disposto a pagar muito.

– Óptimo. O que se segue?

– Não é uma peça muito importante, nem tão pouco com dimensões relevantes, é coisa pequena.

– Eu sei – anui, enquanto olhava para o catálogo no IPad e vias as características da próxima peça a leiloar -, realmente não é coisa muito vistosa, mas a localização é de primeira.

– Temos que ter cuidado, não está em grande estado.

– Não há problemas, manda-se abaixo o que for preciso e erguem-se coisas bem imponentes; daqui a algum tempo ninguém a irá reconhecer.

– Não se esqueça do miolo, por dentro tem todo um habitat muito complicado; aliás, foi ele que corroeu tudo aquilo.

– Não há problema, bastará uma boa pulverização e os parasitas desarvoram todos; depois, tudo o que ficar é porque faz falta para a estrutura se manter em pé e a funcionar como eu gosto, ou não fossem esses os mais resistentes.

O leiloeiro regressou, após a curta pausa efectuada a seguir à venda anterior; ajeitou o microfone e preparou a voz.

– Senhoras e senhores, a próxima pátria a arrematar é Portugal. Preço base: mil milhões.

Anúncios
One Comment leave one →
  1. Janeiro 7, 2012 11:54 am

    sendo nós os parasitas ou já teríamos desarvorado antes? Lol, até tenho medo!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: