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Bora lá com mais uma Tradição

Dezembro 28, 2011

A vida é um ciclo e, por isso, estamos sempre a regressar ao ponto de partida, como aqueles ratos dentro das gaiolas-roda que giram e giram, mas não saem do mesmo sítio; enfim, são burros, apesar de ratos, e não vêem que um ser superior, nós, lhe armadilhamos as voltas para eles fazerem figuras de parvos.

Pois, tal como ratos, damos voltas e voltas e estamos sempre a regressar ao princípio – provavelmente porque também existe um outro ser superior, algures perdido no universo, que se diverte com as figuras que fazemos -, convencidos que iniciámos um novo ciclo. Pobres tontos, é mais do mesmo; passamos a vida a comer um prato requentado mas temos a mania que o Grand Chef Gourmet nos preparou um prato de haute cuisine.

O divertido é que sempre que voltamos à casa de partida – sem passar pela prisão, espera-se -, ganhamos nova energia, ainda que o cansaço seja muito, e desatamos a fazer desejos para o velho, disfarçado de novo que, vem todos os anos. Porque desejamos? Porque é tradição.

A tradição já não é o que era, certo? Certo! Mas que tradição? Se fizermos caso de todas as tradições o mais certo é arriscarmo-nos a ficar completamente doidos pois há uma panóplia de usos completamente avassaladores, muitos deles em sentido contrário um dos outros.

Cumprir tradições é, por vezes, mais caótico do que ir a um centro comercial em véspera de Natal. A somar à tradição temos a sua prima, a superstição, com a qual compõe o ramalhete e forma uma aliança dourada – a expectativa parva -, o que, além de complicar a execução dos tais costumes idiotas, vem ainda criar uma dose de penalização para os não cumpridores.

 

A noite de 31 de Dezembro, a famosa passagem de ano, em português mais conhecida por reveillon, é um autêntico painel demonstrativo desta santa aliança, em que subir a cadeiras, deglutir passas, bater em panelas, vestir roupa interior de uma determinada cor, são apenas a ponte de um iceberg que teima em incendiar o mundo inteiro nessa data. Parece que não há buraquinho no planeta onde não esteja um cretino qualquer a tentar festejar e atirar ao ar uma série de costumes que alguém, que não tinha mais nada que fazer na vida ou que andou a beber uns copos valentes, resolveu dizer que dava sorte.

O pior disto tudo é que não há uma norma, tipo Código Civil das Tradições, que nos ajude a sair deste calvário; mesmo um simples regulamentozinho paroquial já nos safava. Assim, somos entregues à pandemia de vontades para que cada ano seja verdadeiramente novo; lá mais para o final do calendário, suspiramos e vemos que, afinal, ele, o dito novel, morreu de velho.

Em jeito de despedida e com todos os votos de boa vontade, três pequenas historietas sobre o ano novo e as suas idiossincrasias.

1 – As passas fazem mal às costelas

A festa estava ao rubro, a meia-noite aproximava-se. Em autêntico ambiente histérico, cada um propôs-se a executar a sua tradição para que o ano novo entrasse pela porta da frente bem radiante, fresquinho como uma alface acabada de colher. Não bastava a barulheira de toda a música saltitante, naquela garagem improvisada em centro de festas, veio juntar-se um autêntico chinfrim com o anúncio do tipo de tradição que se propunham a executar: traz as passas, põe a cadeira ao centro, onde está a panela para bater e outros avisos foram disparados em várias versões.

– Vamos lá avozinha, coma as 12 passas que está mesmo a dar a meia-noite – disse a neta à avó, senhora que já suspirava por todos os santinhos que tudo aquilo acabasse muito depressa, não aguentava tanta chinfrineira e a única coisa que ela queria mesmo, naquele momento, era apanhar-se na sua caminha com um copo de leite quente com canela para a aconchegar.

– Mas eu não gosto, nem vou conseguir – respondeu a avó, olhando para as passas que já lhe tinham sido postas na palma da mão sem o seu consentimento; ainda que pequenas, pareciam-lhe enormes para a sua garganta fraquinha.

– Qual não gosta, qual quê?! Coma, que é para dar sorte.

A avó, a custo, lá começou a comer as 12 passas; se a neta assim queria, não lhe ia fazer essa desfeita, a rapariga precisava de assentar, ela estava numa idade complicada e não andava com grandes companhias, era preciso dar mesmo uma boa aragem de sorte naquela miúda, senão, qualquer dia, ainda lhe entrava pela porta dentro com uma rapazão tatuado, cheio de brincos e essas coisas modernas que só fazem mal à juventude e à vista de gente decente.

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Não se sabe se por dificuldade em engolir uma dúzia de uvas secas à velocidade supersónica das badaladas, se pelo susto de ver o neto a estatelar-se de cima de uma cadeira que ela tanto estimava, engasgou-se.

– Ai, acudam que a avó está sufocar – gritou uma das netas quando a pobre senhora começou a ficar roxa com uma sultana entalada na garganta.

Jaime, um neto bem robusto, estudante de enfermagem, mas mais dado a cantorias – andava a fazer castings para um programa de talentos; havia de ficar famoso pela voz e não pelas injecções –, afastou toda a gente e fez a manobra de Heimlich. O pessoal que tivesse calma, ele sabia do assunto, andava a estudar para isso. Com toda a sua força de rapaz possante nos seus 20 anos apertou a avó. A senhora soltou a maldita passa e um grito enorme; não foi de alívio.

Na urgência do hospital o médico teve muita dificuldade em perceber porque é que a pobre senhora teimava em lhe dizer que o motivo de ter uma costela fracturada fora uma simples passa da meia-noite.

*****

2 – Baixar as calças não é tradição

– Ouve, é como eu te digo, deves vestir umas cuecas vermelhas, para dar muita felicidade, e que sejam as mais curtas possíveis, que é para trazer fortuna, pois o tamanho é inversamente proporcional ao dinheiro.

Manuel nem ouvia bem o que amiga lhe estava a dizer, ao olhar para aquelas strings vermelhas acetinadas, que ela lhe apresentava; só se lembrava que se vestisse aquilo iria ficar mais ridículo do que um stripper masculino em despedida de solteira. Não lhe bastava o vermelho florescente, ainda tinha que levar com o seu tamanho reduzidíssimo, especialmente na parte de trás, em que um simples fio resguardava toda a área, precisamente uma das zonas onde ele há algum tempo adquirira grande volume de massa corpórea.

– Não tenhas problemas, assim como assim, não vais andar a mostrar as cuecas a ninguém nessa noite.

Manuel quase que teve para lhe responder que até nem se importava muito de lhe mostrar a ela própria, mas resolveu ficar calado pois o seu sucesso com o sexo feminino estava pelas ruas da amargura e o máximo a que ele se arriscava era levar com a dita peça de roupa interior nas ventas; se calhar, todo esse infortúnio, era mesmo um sinal que devia seguir o conselho, a sua ventura romântica precisava de mudar.

Contrafeito, Manuel lá vestiu a tanguinha vermelha. O ano que terminava fora mesmo muito azarado, não havia nada que não lhe tivesse acontecido, pelo menos na sua mente pessimista era esse o retrato que lhe surgia sempre. Precisava, assim, de uma onda de sorte, para não dizer de um mar encrespado de muita boa ventura.

Primeiro, sentiu-se muito desconfortável com aquela linha sedosa, demasiado fina e escorregadia, a passar no sítio onde detestava que passasse alguma coisa, mas aos poucos, como tudo na vida, habituou-se à ideia e ao desconforto; e lá para o fim da noite, já ninguém o segurava, todo ele era energia dançante, especialmente com os grandes saltos, onde exibia orgulhosamente os seus dotes de bailarino acrobático, talvez inspirado nas coreografias eléctricas que os habituais usuários de semelhante peça costumavam fazer. Tantos foram os saltos, naquela sua modalidade de baile olímpico, que acabou por dar um jeito numa perna, o que lhe provocou imensas dores; mesmo sem ver nada na perna, ele quase que jurava que tinha um osso exposto.

   No entanto, a dor maior foi quando, ao ir ao hospital por causa da perna, teve que baixar as calças e a enfermeira assistiu, em primeira fila, à exibição da sua tanguinha secreta em cetim vermelho, a sobressair no meio de uns pneus adiposos já bem acentuados. Consta que todo o pessoal da urgência passou por lá, como quem não quer a coisa, para ver semelhante modelo.

*****

3 – Branco mais branco nem sempre dá

Laura queria deitar para trás todas as agruras do maldito ano que findava e abrir os braços ao novo tempo que se avizinhava. Deixou o eterno e triste costume de ficar em casa na passagem de ano, a ver programas de humor duvidoso, e resolveu marcar um lugar num reveillon de um bom hotel, daqueles que têm à frente do nome uma fila enorme de estrelas. Só faltava mesmo escolher a vestimenta para o grande evento.

– Sabes que com um vestido preto numa me comprometo, fica sempre bem – disse Laura a uma amiga, quando lhe mostrou a roupa que comprara.

– Qual preto, qual quê? Imaginem entrar num novo ano já de preto, isso só atrai maus fluidos.

– Mas eu sempre me vesti assim.

– Por isso é que a tua vida está como está.

A amiga depressa abandonou a peça estendida em cima da cama e começou a procurar alternativas no roupeiro. Já estava a desistir – não sei onde esta rapariga compra a roupa, parece uma boneca espanhola com vestes de uma tia defunta –, quando encontrou um vestido branco que lhe pareceu giro.

Roupas

– Leva este, veste-te toda de branco que isso dá boa sorte. Não vês os brasileiros, todos de branco a chamarem as energias positivas?

– Sim, mas nem por isso vivem bem.

– Mas são felizes, é uma gente para cima, quando as coisas lhe correm bem, correm mesmo bem.

– Mas esse vestido é de Verão, aliás como toda a minha roupa branca, e agora faz tanto frio.

– Que nada! Levas este vestido branco giríssimo, pões aquela pashmina de lã rosa e vais muito bem.

Laura não achava muito boa ideia ir vestida como nos trópicos quando por cá fazia um frio de gelar, mas acabou por aceitar o conselho da amiga; afinal, a sua vida andava, há uns anos a esta parte, num autêntico recuo, e só com muita luz ela poderia avançar.

Não sabe se foi pelo vestido branco, se foi pelas taças de champanhe que bebeu para combater o frio – foram mesmo muitas, vinha uma corrente de ar do terraço que enregelava os ossos –, o que é certo é que se divertiu imenso naquele final de ano. Não se lembrava muito bem, mas sabia que acabara a noite, já de madrugada, no terraço da piscina a dançar sambinhas em comboio; fora uma alegria como nunca.

O mesmo não pôde dizer, passados uns dias, quando se viu numa cama com uma pneumonia muito complicada durante 2 semanas, causada pelo frio que sofrera durante aquela memorável noite; logo ela, que gozara com uma colega que, em tempos, apanhara uma hipotermia ao teimar desfilar numa escola de samba no Carnaval da Mealhada, num gélido Fevereiro, desnudada como se tivesse no sambódromo.

– Sabe, é o que dá este frio por cá, mesmo muito agasalhados apanhamos sempre qualquer coisa. Olhe, se tivesse no Brasil, agora estaria muito melhor, andava toda levezinha, com um vestidinho branco qualquer, e não havia nada que lhe pegasse – Laura encarou aquela frase do médico, numa das suas visitas, como uma piada de mau gosto; só podia ser.

*****

Um bonito 2012 na medida de todos os impossíveis

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2 comentários leave one →
  1. Zé Manel permalink
    Janeiro 1, 2012 7:55 pm

    Devido a essa tanguita, quase de certeza, que mesmo sendo numa noite de natal, o rapaz teve tratamento VIP.

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