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Um contito de Natal: I’m Barbie Soul in the Barbie world (mundos bárbaros)

Dezembro 22, 2011

Mais do que o simples desembrulhar de uma prenda, por vezes, é o embrulhar que faz todo um acontecimento. Quando encolhemos os ombros e dizemos, oh, é giro, obrigado, não sabemos os reais dramas humanos que estão por detrás daquele pacote lindo com um laçarote. Com muito menos sofrimento há gente a combater em terras estranhas e a lutar com animais ferozes. Qualquer pé num centro comercial em vésperas de Natal transforma os arredores de Bagdad num passeio de monges tibetanos

Estrela

Quando pensamos que um dia já nos estourou por completo, e que só um sofá nos salvará, ao nos injectar uma espécie de amnésia paradisíaca sobre as imagens que sobrevoam o nosso pensamento, eis que pode surgiu mais uma etapa, mais uma tarefa, tão assustadora que faz parecer o tormento anterior – o cadafalso que nos assombrou desde que nos pusemos a pé e olhámos para o espelho, com gritos logo pela manhã como envelhecer não é coisa bonita, até voltarmos a casa como combatentes de uma guerra em último grau – uma verdadeira festa privada com o elenco da Miss Suécia num acampamento de nudistas.

Estrela

O pior dos telefonemas para receber num momento como aquele – em que regressava a casa depois de ter despachado, em velocidade supersónica, uma série de contratos e uma festinha de natal na empresa ensopada em boas vontades de última hora – acabara de acontecer. Pedro estava em pânico.

– Mas tem mesmo que ser? – perguntou ele.

– Tem – respondeu peremptoriamente Paula do outro lado da linha. – Amanhã é dia 24 e eu ainda não comprei a maldita boneca. Tu estás aí, mesmo perto do shopping, não te custa nada, ainda por cima a sobrinha é tua.

– Mas aquilo vai estar um caos, estamos em véspera de Natal. Vão lá estar todos os tolinhos atrasados nas prendas a atropelarem-se uns aos outros.

– Não queres que eu vá sair de casa a esta hora à procura do raio da boneca? Já corri seca e meca e não a encontrei. Numa loja de um outro centro disseram-me que nesse tinha.

– Mas não pode ser outra coisa?

– Por amor de Deus Pedro, já me chegou a cena do Natal passado com os crayons, em que já não se sabia quem tinha que levar primeiro um par de estalos, se a criancinha, se a mãe da criancinha.

Realmente, a coisa não tinha sido para menos.

Estrela

Bárbara, sobrinha de Pedro, ao ver mais um presente do género escolar, uma bonita caixa de crayons depois de já ter recebido uma outra de guaches e 2 dicionários infantis naquela noite -, explodira e atirara o estojo pelos ares, gritando, agarrada à cabeça, nos seus pequenos 6 anos: “ mas que mal fiz eu a Deus, para merecer isto, e logo na noite de natal?!”. Para agravar, a mãe da criança, disparava ela também frases do género, “mas que mal fiz eu a Deus para merecer uma filha como esta”, enquanto despejava a sua carteira à procura da embalagem de Lexotans, o seu elixir mágico das crises. Talvez por ser a noite do menino Jesus, Deus estivera bem de serviço naquela casa, o Criador não parara de ser chamado de urgência para prestar explicações; até o pai, a fumar cigarros de seguida na varanda, vociferara também que mal tinha ele feito a Deus para lhe calhar na rifa uma mulher e uma filha destrambelhadas, logo duas era muito karma para um homem só.

Pedro bem que tentara manter o espírito de natal, comendo doces em ritmo acelerado, enquanto Paula tentava controlar o pequeno Miguel que ficara eufórico com todo o espectáculo da prima, mas a tarefa fora difícil: uma boa parte dos crayons voara para a mesa dos doces e as rabanadas começavam a ostentar um estranho colorido, muito pouco natalício; o que restara da consoada fora salvo pela D. Genoveva, mãe de Pedro que, depois de ter retirado algumas iguarias para a cozinha, acalmava a neta ao lhe prometer um presente segredo que guardava numa caixa e que só elas as duas iam saber.

Apesar de tudo, não se podia dizer que fora a pior noite de Natal de sempre, todos tinham na memória a consoada de há 2 anos quando o Miguel apanhara o trem de cozinha em miniatura, acabadinho de oferecer à prima, resolvera meter cada uma das mini-peças de alumínio na frincha da porta e, com o acto de abrir e fechar, dera uma nova forma aos objectos. É para alisá-las, fora a sua explicação técnica ao ser apanhado com as mãos na massa, neste caso no alumínio; mas nem tivera tempo para entrar em detalhes muito técnicos, uma impressão bem digital das mãos de sua mãe arrancara-o de tão complexa tarefa de engenharia.

No hospital, o médico tivera mesmo que retirar alguns restos de arroz-doce da cara da mãe da pequena Bárbara para a examinar, quando ela, meia desfalecida, lhe foi colocada numa marquesa; afinal, ter tomado uma dose exagerada de lexotans, para afogar o cansaço de ouvir a histeria estridente da filha ao ver o abate sucateiro do seu brinquedo, só podia acabar assim, a aterrar com a cabeça bem em cima da travessa do doce de natal, quando todos já estavam bem mais calmos. Uma lavagem ao estômago, depois de uma consoada não fora propriamente a melhor forma de acabar uma noite de Natal, inclusive para uma urgência hospitalar.

Estrela

– Mas tu não vês que tenho o Miguel no carro e que o centro comercial não é o melhor sitio para o levar, especialmente nesta época? – insistia Pedro, à beira de ter um colapso nervoso com a proposta que lhe era feita pela mulher, do outro lado da linha.

– Pelo contrário, ele é uma excelente companhia – retorquiu Paula. – Chato como costuma ficar, é um autêntico motor de aceleramento para nos pormos andar das compras mal se tenha o necessário nas mãos.

Era verdade. Ao contrário de outras crianças, Miguel detestava ir às compras, ainda que fossem para ele; depois de uma apurada inquirição em saber quantas coisas iam comprar, impunha, logo à partida, uma quota de aquisição, quantidade que, ao ser ultrapassada, era incessantemente avisada pela sua voz lamuriante até os nervos ficarem moídos, quase em papa, e ser-se obrigado a desaparecer pela porta fora da loja a rogar pela maldita hora de o ter levado.

– Mas eu não percebo nada de bonecas – tentou uma última vez Pedro.

– Bom, fossem elas um pouco maiores ias ver como percebias tudo e mais alguma coisa.

– Não te ponhas com piadinhas parvas, eu não sei comprar bonecas.

– Ó filho, isso é fácil, chegas lá e vais à zona das bonecas, depois procura a Barbie na Neve, pegas na caixa e zás.

– Mas não há tamanhos diferentes, roupas diferentes?

– Não,  aquilo é tudo igual, desde que a platinada esteja apetrechada para a neve, assim tipo as dondocas famosas nesses programas cretinos de televisão.

– E se não houver essa da neve, não pode ser outra?

– Nem penses, tem mesmo que ser a da neve, se fosse outra eu já tinha comprado. A miúda é essa que quer e já sabes, com o feitiozinho que tem, se não tem a maldita loura anoréctica com uns esquis nos pés amanhã ao desembrulhar as prendas, ainda nos arriscamos a levar todos com as rabanadas nas ventas. Isto, na melhor das hipóteses, porque na pior teríamos um coma profundo da tua linda cunhada.

– Miguel, temos uma missão – avisou o pai quando entraram com o carro no parqueamento do centro comercial. – Vamos entrar na selva e enfrentar os leões para resgatar uma princesa oxigenada. Se conseguirmos sobreviver amanhã teremos presentes a dobrar.

– Ó pai, não inventes! – respondeu o miúdo já amuado – Eu já sabia que tínhamos que ir às compras. Sempre compras, sempre compras!

– É rápido, é entrar num pé e sair noutro.

– Quantas coisas vais comprar?

– Uma, é só mesmo uma coisa.

– Não sejas mentiroso, nunca cumpres o que dizes. Quando dizes que são 4 ou 5, compras 10.

– Desta vez é mesmo uma, prometo.

Se tivesse que esperar por um lugar de estacionamento bem que podiam trazer já para ali o bacalhau com as couves, tal era a confusão para estacionar. Assim, armado em esperto distraído, parou o carro em cima de uma passagem interna de peões e saíram disparados, antes que viesse um segurança chamar à atenção.

Estrela

Quando entraram no piso principal do shopping quase que não conseguiram sair da escada rolante, tal era a multidão que circulava.

Pedro deu a mão a Miguel para não o perder e tentou seguir apressadamente para a grande loja de brinquedos; pelo caminho reparou que estava ali uma loja de produtos naturais que vendia os filtros da cafeteira de água utilizada lá em casa. Resolveu entrar para comprar uma caixa.

– És sempre a mesma coisa! Dizias que era só uma coisa, a porcaria da boneca, e já estamos aqui – barafustou Miguel, mal entrou.

Pedro nem lhe respondeu, pegou nos filtros e dirigiu-se à caixa.

– Vou dar-lhe estas amostras dos nossos produtos – disse a empregada enquanto lhe colocava uma série de pequenas embalagens num saco, junto aos filtros. – Agora também temos uma linha de produtos de cosmética para homem muito boa, tudo com produtos naturais.

Pedro sorriu e agradeceu, embora não percebesse porque raio havia cosmética masculina numa loja que vendia filtros para água. Ele, que não ligava muito a essas coisas de cremes, achou piada ao facto de lhe terem oferecido as amostras, provavelmente a simpática e bonita empregada considereu-o um homem interessante e moderno; mas o contentamento depressa lhe passou quando, cá fora, resolveu dar uma espreitadela aos produtos e viu que faziam parte do saco da oferta um creme anti-rugas, um outro para o anti-envelhecimento das mãos e ainda um gel reparador de idade; afinal, a simpática menina não o tinha achado um homem moderno e interessante, mas sim um tipo acabado e a precisar urgentemente de uma restauração.

– Ó pai, estás a aleijar-me a mão! – gritou Miguel ao sentir uma pressão enorme da mão do pai na sua.

Pedro pediu desculpa, nem tinha reparado na força com que apertava a mão do filho, era simplesmente um sintoma da fúria com que ele agora caminhava pelo corredor, já que não podia voltar à loja e apertar o pescoço a quem lhe traçara um tão deprimente e senil retrato.

Estrela

Ao entrar no palácio dos brinquedos, Pedro depressa esqueceu o seu mau humor com a empregada engraçadinha; não porque ficasse propriamente bem-disposto, mas porque o seu estado azedo foi substituído por um outro ainda pior, pânico, tal era o cenário dantesco que se apresentava a seus pés. Quando se fala a seus pés, não se fala metaforicamente: crianças, com birras estridentes, rebolavam-se pelo chão por não conseguirem os brinquedos que pretendiam; antigamente elas ficavam em casa à espera de um certo menino Jesus bondoso que lhes podia trazer um pouquinho dos seus sonhos; agora, num tempo mais moderno e pragmático, não há que ficar à espera de um velhote pançudo, vestido de vermelho, vindo sabe-se lá de onde, há que ir, sim, directamente à central de compras e aviar de vez os sonhos que se querem. Mas como nem sempre o tamanho dos seus sonhos é coerente com a dimensão da carteiras dos pais, há que fazer grandes manifestações de desagrado e nada melhor que fazer uma berraria, deitados no chão, qual pose mais extremada de movimento anti-globalização em dia de cimeiras.

– Xavier, tu vai-me pôr mão no teu filho! – pediu uma senhora, já com o penteado desalinhado e um pouco descontrolada, a um dos dois homens que caminhavam em passo calmo por um dos corredores. – Eu não o consigo travar, parece que ficou possuído, está-me para ali aos pinotes ao pé das bicicletas do action man. Berra que quer uma.

Mas o dito senhor, pai do petiz tomado pelos maus espíritos ciclistas, tinha mais em que pensar, havia uma grande estratégia futebolística do seu clube a discutir com a outra presença masculina que o acompanhava e, por isso, encolheu o ombros e não deu ouvidos ao apelo da mãe da criança.

Pedro quase que deu um salto, com o susto, quando viu uma fila de bicicletas desabar, como um jogo de dominó, e deitar abaixo todo um escaparate cheio de pequenas figuras do filme de animação do grande sucesso desse Natal. Na verdade, mais do que o estrondo e do que a sementeira de bonecos pelo chão, foi um autêntico exorcismo que ali se passou: a suposta criança, outrora possuída, motora de todo aquele acontecimento em cadeia ao puxar uma das bicicletas, ficou imediatamente calada e correu de mansinho para o pé de sua mãe, qual anjinho devolvido aos céus, enquanto os empregados aflitos avaliavam a dimensão da tragédia daquele tsunami biciclético; a família, abençoada com a expulsão dos maus espíritos que ainda há pouco tinham baixado no seu rapazinho, prontamente abandonou o recinto, talvez para ir dar graças divinas pela bênção que lhes coubera, especialmente a de não terem pagado os prejuízos causados.  

Pedro avançou, pé ante pé, no meio daqueles caos, não queria, qual Gulliver, esmagar as pequenas criaturas de propileno que agora habitavam aquele chão. Miguel não foi tão generoso e gostou de ouvir os seus pequenos pés a dizimar aquela pequena população, como se um autêntico Godzila se tratasse.

Estrela

Lá estava ela, numa zona com grandes letras cor-de-rosa, a anunciar o império Barbie; no meio de uma prateleira, uma pequena embalagem parecia dizer qualquer coisa de Neve. Se fosse um filme, Pedro caminharia em slow motion ao som da música de Vangelis, Chariots of fire, até erguer na mão triunfante, a bendita boneca; mas não era um filme, ou pelo menos um tão simpático; a ser cinema, ficaria mais próximo de uma versão pós-moderna de Aliens pois, no momento em que Pedro se preparava para colocar na sua mão a caixa rosa com uma boneca de cabeleira dourada e um par de skis, eis que uma outra loura – bem mais pesada e de carne e osso – arrancou completamente da prateleira o seu troféu.

– Olha que gira, vou levar mais esta! – comentou euforicamente uma senhora com um louro mais platinado que a boneca, mas com uma figura muito menos esguia, ainda que a roupa não tivesse tido conhecimento desse pequeno pormenor, tal eram os bocados de carne rugosa que lhe sobravam de um mini blusa e umas calças de Lycra bem justas, visíveis por debaixo de um longo casaco de lã aberto.

Pedro não conseguia fechar a boca; não porque tivesse ficado siderado com a doce figura da senhora, mas porque os seus olhos saltitavam entre a caixa, quase sua, refém daquela versão instantânea da Miss Piggy e uma prateleira vazia, onde não restava nenhum vestígio de quaisquer férias na neve da sua querida Barbie.

– Nádia, olha o que encontrei aqui, a Barbie na neve – disse a senhora voltando-se para uma menina também de peso bem guarnecido, uma autêntica versão em miniatura da mãe. – Vais ficar com mais esta na tua colecção.

Mas a miúda não prestou muita atenção à mãe, preferiu antes dirigir-se a Miguel, que estava à volta de uma casa da Barbie a abrir e a fechar as janelas, numa espécie de engenharia infantil para verificar a situação das dobradiças. Ainda que a casa fosse de exposição, Nádia não gostou muito de ver por ali um menino à volta de coisas de menina e tentou empurrá-lo. Pedro não prestou muita atenção no novo assalto que aquela família feminina estava a fazer aos varões da sua estirpe, ele vasculhava a prateleira à procura de uma caixa perdida, alguma que tivesse ficado por ali, pobre e abandonada; por fim encontrou uma, mas o seu contentamento foi efémero, dentro da caixa já rolava um braço solto da serena Barbie.

– Meu Deus, se me atrevo a levar isto ainda acaba a noite de Natal com uma corporação de bombeiros em casa a apagar um fogo – pensou Pedrou ao olhar para o triste bracinho que rebolava dentro da caixa.

Miguel, que já tinha deitado abaixo umas portadas de tanto abrir e fechar com força, enfiou a mão numa das janelas da casa e acenou ao pai, mas este, quase em transe com tudo o que lhe estava a acontecer, nem reparou; tão pouco viu que a menina, furiosa com a apropriação de Miguel à casa, resolveu dar-lhe novo empurrão, desta vez com mais força, o que fez com que o pobre miúdo largasse o pequeno condomínio de quatro assoalhadas em pvc.

Não contente com a sua conquista de território, a guerrilheira Nádia resolveu também ela enfiar a mão na janela e fazer adeus à sua mãe. O problema é que tanto a sua mão como o seu pulso, apesar da tenra idade, já apresentavam algumas dimensões generosas e, se foi difícil entrar, tornou-se quase impossível sair. Ao tentar desesperadamente tirar a mão da janela toda a casa tremia como se tivesse no meio de um epicentro sísmico; por muito que tentasse o sucesso era nulo. Nádia desatou num choro, a chamar pela progenitora.  

– Ai, que a minha menina está entalada! – gritou a mãe, que prontamente se dirigiu para o local do acidente doméstico em versão miniatura.

Mas nem com a ajuda da mãe se conseguiu chegar a bom porto. Nádia permanecia com a sua rechonchuda mão enfiada na janela do quarto do primeiro andar da mansão rosa. Havia que chamar reforços: primeiro um empregado que passava por perto; depois pai e irmão, chamados de urgência pelo telemóvel, pois estariam num outro sector da loja.

– O melhor é pôr água com sabão – sugeriu o pai.

– Mas onde se vai arranjar água? – rebateu o empregado. – Olhe que torneiras da casa não funcionam, são a fingir.

– Não se arme em engraçadinho, que eu arranco já a porcaria da janela.

– Pode arrancar, só que vai ter que pagar a casa.

– E se comprássemos a casa? – sugeriu o irmão. – Assim levávamos como está, com a Nádia pendurada, e depois em casa com jeito desmontava-se a janela.

O pior, não foi a criança ter sugerido uma ideia meia cretina; o pior, foi todos pararem para pensar se realmente não seria boa ideia. A mesma só não avançou porque afinal a Nádia, por momentos aparentada a Martim Moniz, já tinha uma bendita casa quase igual no seu quarto.

– Só os cortinados e o papel da parede são diferentes – afiançava a mãe.

Não havia outra alternativa, só mesmo ensaboando o pulso e a mão é que a libertação seria possível. Mas como fazer isso?

Enquanto acertavam detalhes sobre o resgate da princesa das masmorras janeleiras, Pedro num gesto súbito de audácia, que muito o orgulhou, passou pelo local onde estava repousada a primeira boneca, a raptada que tinha sido quase sua, e fez a troca com a outra meio desmembrada. Sentiu-se um autêntico agente secreto a trocar mensagens.

Assim que fez a permuta, pegou no braço de Miguel deu-lhe um beijo e arrancou-o dali. Ele não percebeu o porquê do gesto meigo do pai, nem porque lhe fora dito, ao ouvido, meu grande herói.

Pelo caminho, Pedro ainda assistiu à procissão da menina pela loja fora: todos com a casa às costas dirigiam-se para a casa de banho; pai e empregado agarravam a mansão ao alto; mãe segurava a filha no colo; esta seguia pegada ao objecto e o irmão ria com todo o cenário. Mas não era o único, uma grande parte da loja perdia-se de riso com aquele desfile estranho em que uma casa parecia voar com uma miúda pendurada.

Estrela

A linha da meta final estava à vista. A fila de caixas surgia no horizonte, ainda que esse mesmo horizonte estivesse bem encoberto com a multidão que o envolvia. Antes que começasse a suspirar pelo tempo que ia perder até conseguir pagar, Pedro deu por falta de Miguel. Era só o que faltava, depois de ter conquistado a pulso o troféu louro perdia agora o outro, menos louro, mais irrequieto, mas muito mais importante. Já a suar, encontrar uma criança naquele caos seria tarefa difícil, começou a percorrer os corredores à procura do filho. Não foi preciso andar muito, ele estava bem parado, em frente a uma vitrina, como se tivesse ficado colado ao chão por força de uma onda hipnótica.

– Pai, olha o relógio do Starwars! – apontou Miguel com o dedo, num olhar radiante, para o escaparate, onde, além do relógio, figurava também uma série de bonecos do filme. – Eu quero um!

Pedro, antes de ralhar por ele se ter perdido ou mesmo de responder negativamente à proposta, deu uma olhadela ao objecto causador daquele incidente, especialmente ao preço, mas não gostou do que viu.

– Nem pensar, isso custa uma fortuna. É um roubo.

– Mas eu quero!

– Amanhã o pai Natal vai trazer muita coisa. Não vamos agora entrar em mais despesas.

– Mas é isto que eu quero – continuou Miguel já com as lágrimas nos olhos.

– Como tu me fizeste prometer, só viemos comprar uma coisa. Já compramos, agora vamos embora.

– Não sejas mentiroso, tu já compraste outra coisa.

– Isso não conta.

– É sempre assim, só para mim é que conta.

– Não há mais discussão, vamos embora!

Pedro pegou na mão de Miguel e arrastou-o para as caixas, como quem arrasta uma mula teimosa empancada. Este, por não ter forças para resistir, canalizou toda a sua energia para a garganta e, para grande espanto do pai, resolveu mostrar a toda a gente como ainda estava bem treinado no choro birrento.

– Ah, um menino tão grande a chorar! – comentou a empregada da caixa, quando viu Miguel naquele estado choroso. – Assim ficas feio.

– Ora, e tu és gorda – respondeu prontamente Miguel, suspendendo de imediato o ataque de choro.

– Eu sei que sou, mas não precisavas dizer – referiu timidamente a empregada, colocando os olhos apenas nas teclas da máquina, como a tentar ocultar os seus largos quilos que, de um momento para outro, foram desnudados.

– Miguel, isso diz-se? – ralhou Pedro já a caminho do carro. – Não se diz que é gorda.

– Mas ó pai, ela é.

– Mas não se diz, não se diz a ninguém que é gordo.

– Mas eu disse a verdade.

– Não digas, fica calado.

– Então queres que eu minta?

– Não, quero que fiques calado.

– Ah, ela pode dizer que eu sou feio e eu não posso dizer que ela é gorda, quando ela é mesmo gorda.

– Mau, mau, mau! Estamos a desconversar. Há situações na vida que não podemos dizer a verdade.

– Sempre a mesma coisa, se minto é porque minto, se digo a verdade é porque digo a verdade.

Pedro só ansiava por um bom sofá, longe de tudo aquilo, para afogar toda a neura com que fora presenteado naquele fim de tarde. Talvez por isso, mal se apanhou no carro tentou sair daquele espaço infernal e seus arredores o mais depressa possível; tão depressa que nem viu um sinal.

– Pai, passaste um sinal vermelho – apontou de imediato Miguel.

– Olha, vai fazer queixa à polícia – respondeu Pedro sem paciência para mais observações.

Miguel devia ter assumido que queria ser um menino bem comportado a partir daquele momento, fazendo sempre o que lhe mandavam, pois, logo que pararam num novo semáforo, cumpriu a recomendação que o pai lhe fizera.

– Olhe, o meu pai passou um sinal vermelho – gritou Miguel, depois de ter baixado o vidro do carro, a um polícia que estava junto ao semáforo.

Pedro e o polícia olharam um para o outro. Não só ambos fingiram que não ouviram, como o olhar do polícia denunciou um certo suspiro, como quem que a dizer: lá em casa tenho um ainda pior.

Estrela

A famosa Barbie teve a sua noite de encanto; tanto encanto que quase acabava em desencanto. Por muito que fosse a alegria da pequena Bárbara perante a boneca, o facto de a receber em triplicado depressa trouxe aquele ambiente bem poético de um certo contentamento descontente.

– Na minha vida nunca nada dá certo, sou uma infeliz! – berrava ela agarrada à cabeça pela sala fora, como se fosse um grande actriz numa marcação teatral trágica, perante a visão triplicada da sua Barbie e a Neve.

A avó apanhava as pobres bonecas do chão, para não serem pisadas pelo andamento desenfreado da neta, e tentava convencê-la como era bom ter em triplicado um desejo, assim a Barbie tinha 2 irmãs gémeas.

– Mas onde é que já se viu a Barbie com irmãs, ela é filha única como eu – reagiu ainda pior a eterna azarada de natal.

Os outros habitantes daquela noite barafustavam entre si pela descoordenação; era preciso azar os 2 tios e o pai terem a mesma pontaria na escolha do presente. Felizmente que a mãe de Bárbara nada daquilo assistiu, a combinação do Lexotan, que tomara bem antes, por via das dúvidas, com um bom vinho tinto que acompanhou o bacalhau, resultou num sono bem profundo; todos rezaram, naquela noite mágica, para que ela permanecesse assim até ao dia de reis.

Realmente feliz estava Miguel com o seu relógio do Starwars. O seu pai acabara por ir, bem cedinho, naquela manhã, comprá-lo, enfrentando, assim, de novo o inferno que ele já tratava por tu cá tu lá. Pedro, bem feliz por ter sobrevivido a tudo, nem se importou muito com os cinco pares de meias, uma gravata fluorescente e uma camisola que não lhe servia, que recebera nessa noite. Sentou-se ao lado da cunhada, esparramada no sofá com a boca aberta num sono do outro mundo, e devorou um prato bem cheio de rabanadas, enquanto assistia à harmonia familiar de mais uma noite natalícia. Paz aos homens de boa vontade, e ele tinha tido mesmo muita.

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