Skip to content

Manual do Engate, ou Como ter a Angelina Jolie a seus pés

Dezembro 4, 2011

Ao que parece, existem 2 tipos de mulheres: as Deusas, feitas a régua e esquadro – normalmente estão emolduradas em telas de cinema e revistas de moda, ou, no máximo, sentadas na mesa do restaurante, lá bem ao fundo – e as Outras, com uma simples beleza humana -aquelas que se sentam ao nosso lado na vida.

Normalmente, a rapaziada banal só se envolvia com estas últimas e sonhava, de vez em quando, com as primeiras. O máximo que se atingia era uma espreitadela no decote da Deusa do restaurante quando se ia à casa de banho, isto se ela não tivesse um paspalho de 1,80 e ombros largos pela frente, a servir de paredão. Escrevi no pretérito imperfeito – envolvia, para quem não sabe -, porque, hoje em dia, com toda o fausto de comunicação e auto ajuda, o presente será mais que perfeito:

não só podemos espreitar o decote à vontade, como também mergulhar nele e fazer dele a grande festa – bom, convém arrefecer os ânimos e sair primeiro do restaurante, ou ainda se arriscam a fazer a festa numa esquadra de polícia, em que o maior volume saliente de um corpo que se encontra não fica propriamente ao nível do decote.

E perguntam vocês: mas porque raio a partir de agora tudo é diferente? Simplesmente porque não faltam publicações a tornarem-nos a nós, homens mortais, em sucedâneos de Deuses, quer seja no sucesso económico – e ultimamente é um dilúvio de gente nos píncaros da riqueza -, quer seja no êxito retumbante da sedução. Basta folhear qualquer revista e encontramos ali autênticos manuais instantâneos de como ter a visão de um Steve Jobs, a fortuna de um Bill Gates, o charme de um Clooney e, claro, os músculos de um qualquer actor imberbe de telenovelas, daqueles que despem a camisola em cada 5 minutos de cena. Esta coisa do “seja um Ás em 10 lições” começou com as revistas femininas, pois as mulheres dotadas daquele velho princípio que conseguem moldar um camelo, por mais teimoso que seja, acharam que elas próprias também podiam ser uma espécie de plasticina de talentos; começaram nos velhos tempos do pré-feminismo com receitas de bolos e assados e acabaram a ditar prescrições para atingir orgasmos de deitar abaixo o prédio, ou, pelo menos, acordar a vizinhança e ser assunto na próxima assembleia de condóminos.

Os homens, que não gostam de fazer má figura, além de começarem a dividir ao meio a prateleira dos cremes lá de casa, também resolveram botar faladura e ajudar o próximo nas revistas de especialidade, que é como quem diz: nós, gajos de sucesso, editores vindos directamente de Hollywood, com uma passagem pela fashion week de Nova Iorque, vamos tornar-te o maior do teu bairro; aprende em 10 minutos a forma como vais entrar na discoteca, no escritório e até na mercearia, e deixares um lençol de mulherio caído a teus pés.

Bom, e foi assim, que eu esbarrei num velho suplemento de uma revista masculina – surripie-o logo lá do monte das carcaças de revistas da barbearia -, onde um tal Tony Clink publicava um Manual do Engate, garantindo que qualquer um podia seduzir as mulheres mais bonitas do mundo, aquelas que nunca se imaginou ser capaz. Se ele, o Tony, diz, eu acredito. Só de pensar que podia ter a Gisele Bundchen a meus pés, levou-me a seguir todos os passos.

“Pense na mulher mais bonita que alguma vez conheceu. Agora pense nela a lamber os lábios muita suavemente com a ponta da língua, a tocar muito levemente no seu cotovelo, inclinando-se e suspirando sedutivamente no seu ouvido, esfregando-se na sua perna, implorando para voltarem para sua casa para que lhe possa dar o melhor momento da vida dela. Se quer tornar este sonho em realidade, continue a ler…” Começa assim a pérola do manual de instruções. Continuei a ler, não sem antes ter ido à procura de um dicionário para ver o que era suspirar sedutivamente, ainda por cima no ouvido; sabe-se lá o que isso poderia ser; era melhor tomar alguns cuidados, não tivesse eu, primeiro, que fazer uma visita ao otorrino para pôr o aparelho em condições de receber semelhantes audições sedutivas.

Como sou pessoa de perseguir os sonhos, especialmente quando eles me são oferecidos em bandeja – qual hamburger com batatas fritas e bebida média -, resolvi estudar a técnica do mestre Tony e pô-la em prática, para, finalmente, construir a utopia masculina: um harém topo de gama, mas em regime de separação de bens, que é como quem diz, um petisco de cada vez, que nestas coisas as mulheres não gostam de molhadas.

Para começar, reparei que o catedrático – o grande Tony – divide os homens em ADE (Artista do Engate) e CPF (Comum Paspalho Frustrado).

Os ADE são uma espécie de Adónis, saídos de um Holmes Place, que bebem testosterona ao pequeno-almoço para, depois, à noite terem sempre la piu bella donna no seu leito. “Os ADE compreendem que todas as situações que envolvem mulheres atraentes são de foro sexual”. Ok, entendi: mal a Angelina Jolie entra na tenda de campanha de distribuição de vacinas no meio do deserto – onde está o nosso querido Guterres – o pessoal pensa logo é na rambóia que fazia com ela e não nas criancinhas, lá fora à espera da pica bendita.

Os Paspalhos, que é como que diz, os CPF são uns caixas de óculos desastrados que não enxergam um pedaço de carne, perdão, de volúpia feminina há muito, para não dizerem nunca. “Não terão nunca a mínima hipótese de alguma vez conseguir com sucesso seduzir e satisfazer uma mulher”.

Fiquei estupefacto: assim, sem mais nem menos, toda a classe masculina é taxada em 2 patamares únicos, sem contemplações; ou seja, quem não se incluir num destes 2 escalões de IRS (Impulso Redutor de Sexo) está feito, pois provavelmente fará parte de uma classe que gosta de pôr uma peruca e fazer imitações da Shirley Bassey, ou então, ainda não descobriu, mas tem algures no corpo um fecho-eclair qualquer que, depois de aberto, faz descobrir por debaixo da sua pele, aparentemente humana, uma espécie de lagarto nojento, oriundo de Marte.

Aspirando eu a ser um ADE – se é que não sou já e ainda não me tinha apercebido -, lancei mão ao Manual e resolvi estudar meticulosamente as 10 lições pospostas, que são10 magnânimes regras da sedução. Por temer uma overdose, comecei apenas pelas primeiras 5.

1. ESTEJA SEMPRE NO CONTROLO

Diz o mestre Tony que se quiser ser bem sucedido o homem tem que ter sempre o controlo de tudo. Começa-se por nós, depois da situação e da mulher e, finalmente, da relação. Resumindo, um homem para ser bem sucedido tem que ser um Pinochet em potência.

Para nos controlarmos – ourself – nunca podemos mostrar que estamos nervosos. Há que mostrar sempre segurança, mesmo que a casa esteja a vir a baixo no preciso momento em que estamos a começar a deglutir a presa. Então o pânico, pessoal, será coisa completamente banida do nosso vocabulário, isso é mariquice de gajos com voz de barítonos.

Cena errada:

– Fujam, que o restaurante está arder! – alguém grita.

Não passam 2 segundos e já estamos ao empurrões à velha que na porta teima em também querer sair; 5 segundos e estamos cá fora aos berros, que os bombeiros nunca mais chegam.

Cena correcta:

– Fujam, que o restaurante está arder! – alguém grita.

– Calma boneca, que tudo isto são só uns chamuscos – respondemos nós – Até te vai ficar bem um tom mais torrado na tua linda pele.

Como qualquer ser humano normal fica nervoso quando está a tentar conquistar uma coisa, a chamada ansiedade do guerreiro, o melhor que tenho a fazer, pensei eu, é tomar uns calmantes. Assim, antes de tudo, entra-se na farmácia e conjuntamente com os preservativos compra-se também uma caixa de Lexotan. Mas cuidado com a dose, não devemos exagerar, senão:

ainda acordamos, depois de um longo sono, solitariamente com a cabeça tombada na mesa do restaurante, enquanto um empregado passa uma esfregona no chão, já com quase todas as luzes apagadas e as cadeiras de pernas para o ar. O pior, é que a tal deusa dos sonhos – a companhia que arrastámos para o restaurante – estará provavelmente acordar também, ao lado do dono do restaurante, que se ofereceu, mui gentilmente, para a levar a casa, depois de ela ter desconfiado que, afinal, o bom ouvinte que tinha encontrado naquela noite para toda a sua conversa – pela primeira vez um homem ouvia-a atentamente – era apenas um dorminhoco de olhos abertos.

O Tony também refere que uma das formas de controlar a relação é nunca pagar as bebidas e o jantar à mulher. Confesso que esta instrução não me desagradou nestes tempos de crise, mas, depois, fiquei desconfiado: será que isto de querer mostrar que é um gajo que está acima da velha técnica de sedução de pagar uns copos, não é um pouco de sovinice? Cheira-me! Afinal, mesmo forreta, eu até tenho prazer em pagar algo, ainda que isso não implique um prazer posterior num leito de cetim; aliás, se o pagamento implicasse sempre um desfecho libidinoso, algo estaria complicado na minha vida, pois desde um pelotão militar a um conjunto de simpáticas velhinhas, tudo já estaria na minha contabilidade de alcova.

Mas pronto, ele disse, eu assim fiz. Para não cair em tentação de cavalheirismo do século passado, levei o dinheirinho contado, apenas o suficiente para pagar a minha parte – também não gosto de abusar -, e pronto. O pior, é que ela, por não ter lido o manual, seguramente, esperou no fim que eu pagasse; cá para mim ela leu, sim, um outro manual, para aí da Cosmopolitan, em que dizia que é o cavalheiro que tem que pagar sempre a conta, pois além de esperar o meu pagamento também não levou nenhuns trocos. Moral da história: ainda tentei convencer o empregado a fazer-me um desconto, mas não sortiu efeito, especialmente depois de ele descobrir que tinha sido eu a adormecer numa mesa na semana passada; deixei telemóvel como garantia, ou isso, ou ter que passar o resto da noite a explicar a um polícia carrancudo as essências do grande Tony.

2. SEJA O MACHO DOMINANTE

O Manual recomenda a ver séries do National Geographic ou do Odisseia, para observar o comportamento do macho dominante, dado ser ele o preferido das fêmeas. E porque preferem? Porque, simplesmente, é o gajo que faz mais sexo e elas gostam de alguém já rodado. Assim, dito com todas as letras.

Levei em conta a teoria e comecei por ver as séries referenciadas. Tive azar porque comecei logo por uma em que mostrava o comportamento do louva-a-deus. O macho fez toda a corte e tal, mas no fim acabou comido pela fêmea, e não foi propriamente em sentido figurado. Passaram depois para um documentário sobre as abelhas. Não me pareceu que a história de uma série de machos, a trabalharem que nem uns escravos para uma tal rainha, fosse um bom exemplo. Já estava a dar tudo como perdido, pois também tinha papado mais uma série sobre aranhas e viúvas negras, quando finalmente apareceu um programa sobre leões. Reparei que eles afirmavam o seu domínio com fortes rugidos e com um caminhar lento, mostrando quase que um movimento coreográfico dos seus músculos das coxas. Ainda por cima, a fêmea acabava a caçar para ele, enquanto o rei batia uma soneca debaixo de uma azinheira lá da savana.

Gostei de cenário, inspirei-me e tentei mostrar ao mulherio, ao entrar no restaurante, quem era o macho dominante.

– Ouve lá o que te deu para vires a caminhar como um parvo?

– Estás com assadura nos tomates? A andares assim!

Com estas observações dos meus amigos, fiquei um pouco desmotivado; claro que eles não sabiam da técnica e por isso faziam esse tipo de comentários. Em contrapartida, as mulheres presentes na sala, por certo, ficaram impressionadas; achei eu. O mesmo não posso dizer do empregado do restaurante que – por embirração, sem dúvida – quase me pôs fora quando eu tentei mostrar o meu rugido para marcar território.

– Só pode ser expiação no meu karma – disse ele, alto e em bom som -, ter todas as semanas o mesmo cretino a torrar-me a paciência.

3. ESTEJA SEMPRE NO SEU MELHOR

Este capítulo começa bem, pois, apesar de vir dizer que a aparência é essencial para uma boa conquista, vem depois esclarecer que o facto de ser baixo, gordo ou careca nada tem a ver com isso. O que conta é atitude e que com uma boa atitude as mulheres esquecem tudo isso. Não sei se o António Vitorino consegue um dia, com muito boa atitude, ter a Nicole Kidman de braço dado com ele, mas pronto, fica a ideia; bem vistas as coisas, seria sempre mais mão e cabeça dada, mas em nada diminui a confiança, certo? Certo!.

Como não se pode arrancar o que nos foi dado fisicamente – ok, vamos pôr de lado as plásticas -, devemos começar por reformar as coisas que realmente pudemos mudar, ou seja a farpela e alguma aparência física. Olá! O super machão – Tony – vai começar a falar de trapos e de cremes? Será que, afinal, depois de muita parra, vamos acabar numa uva de recomendação de sapatos Prada? Hum!

Mas não, o homem atira-se primeiro à higiene pessoal. Diz ele que temos sair lavadinhos. E o que é isso? Tomar banho, lavar os dentes e usar uma roupa lavada sempre que sair para caçar a presa. Conclui-se, assim, que o Tony sempre que sai para o seu escritório, ou lá o que quer seja – onde o homem faz outro esforço que não o de se enrolar com o sexo oposto -, deve sair com uma roupa de três quinze dias, com comida entre os dentes e com uma breve passagem por água, para não aumentar a despesa e ainda ser amigo do ambiente. Claro que, quando o assunto é conquista, ele perde a cabeça – dias não são dias -, passa uma escova nos dentes, liga o esquentador por uns breves minutos para o banho, e cheira a roupa antes de a vestir para ter a certeza que foi à máquina.

O problema é que esta recomendação – sair limpinho – não me trouxe grande novidade, porque já uma tia-avó recomendava ao tio-avô que levasse sempre umas ceroulas lavadas, porque nunca se sabia quando um homem tinha que baixar as calças. Assim, e somando o velho princípio de até num romance platónico, por via das dúvidas, antes de sair se deve lavar por cima e por baixo, passei à frente esta parte do Manual. Afinal, sempre me dei bem com a água e não era por estar prestes a entrar no Olimpo das Conquistas que ia esfregar melhor o corpo. Aguardava, sim, outras esfregas.

No visual, ele recomenda uma roupa discreta. Nada de Armanis porque dá um ar esbanjador, refere – está visto, o homem tem mesmo medo que lhe peçam para puxar os cordões à bolsa. A camisa com colarinho aberto até ao meio, a mostrar a corrente de ouro, também deve ser posta de parte – vá lá, o homem pelo menos não põe as meninas a render, ao menos isso. Ou seja, não devemos vir directamente da Moda Lisboa, nem de uma tasca de Alfama, devemos, sim, ter um ar casual. Até aqui tudo bem. Abri o guarda-roupa e não me faltavam calças pretas e camisas lisas de cor discreta. Tinha os adereços necessários para a próxima tentativa de trazer a deusa mais loura dos arrabaldes.

Se na roupa ele se portou a altura, tinha que borrar a escrita ao recomendar um perfume que não fosse muito forte. Afinal, muito machão, muito machão, mas tinha que vir com a mariquice de se perfumar ao sair de casa. Cá para mim foi distracção ou erro de tipografia ao fazerem o manual. Seguindo o espírito da coisa, homem que é homem não precisa de cheiros de adereço, as suas ferormonas já devem ser suficientes para pôr todas as fêmeas a guinchar. Quanto muito, se a ditas ferormonas não estiverem nos seus dias, entra-se lá no estábulo da avó e rebola-se na palha que faz a cama do gado. Se as mulheres forem realmente da estirpe que o manual descreve – a tal coisa de ansiarem por um macho dominante – aquele cheiro a cavalo vai pô-las fora de si. E ficaram. Ficaram elas e todo o pessoal do restaurante, mal eu entrei. Acho mesmo que a casa de banho teve uma lotação esgotada de imediato, tal foi a corrida. Começo a pensar que tenho algum sucesso, ponho as mulheres num estado verdadeiramente alucinado; a começar pela minha avó, que ficara em casa a ligar para a guarda, que andava gente ou bicho nos estábulos, porque a cama dos animais estava toda desfeita e os bestas estavam super inquietas com algo que viram.

4. SEJA CONFIANTE

Os machos dominantes nunca questionam se são suficientemente bons para determinada mulher; questionam é se a mulher é suficientemente boa para eles. Eles nunca oferecem nada a uma mulher. Não estão a vender-se a si próprios, estão a tentar descobrir o que essa mulher lhe pode oferecer.”

Mais uma pérola. Uma coisa é certa, o Tony é um tipo coerente: ele não se cala, ao reafirmar que não se oferece nada a uma mulher, que são elas a ter que dar, etc. Gastar, o que quer seja com as suas conquistas, não é água da sua praia para este rapaz. Começo a duvidar se o Tony não será um falido dos novos tempos, que escreveu este manual para ganhar uns cobres, quando estava no desemprego.

Retomando: a confiança é a base de toda a conquista. Temos que chegar ao pé delas com aquele ar de quem é ministro, temos o povo lá fora aos urros, mas ainda assim estamos convencidos que somos muito bons. Caso contrário, ficamos nervosos e depois há que atacar nos calmantes, com as consequências que todos já conhecemos.

Uma forma de ganhar confiança é dizermos para nós “Eu sou a melhor coisa que aconteceu a esta mulher. Eu sou a experiência perfeita para esta mulher” – palavras de Tony. Assim fiz; entrei na casa de banho do restaurante e, ao espelho, disse em voz alta e várias vezes a bendita frase. Estava a ficar convencido. De repente, quando reparei, estava um fulano, que tinha saído de uma das divisórias, a olhar para mim.

– Estou a ver que o meu amigo também andou a ler o Segredo, mas numa versão para gajos. Que edição é?

Não tivesse entrado um tipo a vomitar a casa de banho inteira, eu ainda lá estava a ouvir teorias da atracção australianas, em como dizer sucessivamente uma série de baboseiras positivas para que as energias boas se reúnam – assim, tipo flash mob – e venham até nós.

Quando regressei à sala, escolhi a melhor loura presente, daquelas que emergem directamente das centrais de uma revista sem ter protagonizado telenovelas idiotas, e avancei para ela com um ar triunfante, a pensar como ela iria ficar em êxtase com os orgasmos que eu lhe ia dar (sic Tony). Ainda assim, achei que transmitir somente o tal ar de confiança poderia não ser suficiente para ela captar, pois poderia não saber traduzir a mensagem, afinal, todos nós sabemos que as loiras têm problemas com tradutores. O melhor, seria dizer uma frase arrebatadora, daquelas que ilustrasse grande confiança e introduzisse a minha abordagem; só que confundi a frase que devia produzir oralmente – eu sou a melhor coisa que te vai acontecer -, com a outra que sustentava psicologicamente – a do êxtase que eu, grande amante, lhe ia proporcionar – e acabei por lhe recitar algo sobre os guinchos que ela ia dar com os orgasmos produzidos pela minha pessoa.

Acabou por não dar nenhum. Não porque eu não tivesse mostrado grande auto confiança – até o peito se me inchava de tanta segurança -, nem que ela não a tivesse sentido na abordagem – até os seus dourados cabelos esvoaçaram com o sopro das minhas belas palavras -, mas sim, porque o tal sujeito do Segredo declamado na aragem dos sanitários, que parece estar sempre como uma alma penada a vigiar tudo, apareceu novamente por trás, e ainda captou melhor a mensagem, o que o levou a exercer o seu direito de audição prévia ali mesmo em pleno restaurante e na minha cara, num sentido pouco figurado; o homem não estava para arrojos de atitudes positivas para cima da sua companhia de jantar. Bem que tentei chamá-lo à razão, dizendo que o Segredo é uma filosofia de paz com os outros e que segundo a teoria da atracção, ou lá o que é, tudo o que fazemos recebemos de volta. Mas parece que ele não leu bem essa edição, pois não ficou lá muito preocupado que o encontrão que me deu o tivesse, depois, de volta num outro momento. Nem ele, nem o empregado, que fez questão de dar também uma ajudinha, ao repetir a dose de encontrões e colocar-me bem longe daquele espaço. Alguma coisa está errada nesta teoria, ao se dizer que tudo o que fazemos tem depois volta em energia, pois a seguir ao primeiro encontrão que levei, a devolução do dito foi de novo na minha pessoa, e não a quem o deu; afinal, parece que aquelas coisas das energias serem devolvidas tem um prazo de garantia muito curto.

5. TENHA SEMPRE A DISPOSIÇÃO MENTAL CERTA

Confesso que depois de ter que estar sempre no controlo de tudo, qual sapo à espera da sua mosca voadora, de ter que ser o macho dominante, de ter que me aprimorar ao máximo na figura e de ter que gritar não sei quantos chavões de auto estima para estar confiante, a minha disposição mental começava a ficar cansada. No entanto, reparei que o meu querido Tony também aparentava algum esgotamento, pois a diferença entre este quinto capítulo e o 4º ou o 1º não parecia ser nenhuma. Afinal todos falam do mesmo tipo de controlo emocional. Seria apenas um reforço de ideias ou um encher chouriços? Fiquei na dúvida.

Mas pronto, fiz um esforço para avançar um pouco mais nesta gloriosa tarefa de ter a maior pérola feminina enrolada nos meus lençóis. Por falar nisso, também a parte dos adereços sofreu o mesmo choque tecnológico dos dogmas de Tony: já troquei uma flanela aos quadrados azuis e amarelos, que tinha na cama, por um verdadeiro cetim vermelho choque. Não há nada como preparar o ninho de amor. O estranho é que a empregada, de anos na casa, nunca mais apareceu. Ainda tentei telefonar a perguntar o que se passava, mas foi o marido dela que me atendeu e estava um pouco irritado, não sei porquê, dizia qualquer coisa que a mulher dele não trabalhava num bordel. Ainda estou para perceber o que o homem quis dizer; assim como não entendi a boca da empregada nova que arranjei, toda modernaça e com um sotaque exótico, que mal entrou no quarto, olhou para os lençóis, sorriu e disse logo que o fazia falta ali era um espelho no tecto.

Seguindo a bíblia do Mr. Clink, tentei, então, estar com a disposição mental certa, até porque ia começar a noite mais uma vez no mesmo restaurante e precisava de um alto astral, nem que fosse só para suportar o olhar assassino da empregadagem à minha pessoa.

Mas sobre a atitude mental, o Mestre começa por falar do corredor da morte, um local onde os paspalhos se encurralam nas discotecas à espera das donzelas que nunca mais passam. Ele diz que devemos fugir desse local tenebroso e ir de encontro, bem no centro da pista, a todas as mulheres lindas que esperam por nós. Não é ficar encostado à parede a bater o ritmo com uma perna, como se tivéssemos com uma pequena ameaça de ataque epiléptico, que se vai conseguir petiscar alguma coisa. Há que ir para a pista e, qual Travolta, mostrar quem é o rei da dança e o dono das dançarinas, no fundo o tal macho dominante, mas só que mais ritmado.

Mas vamos lá ver, chegar a uma discoteca e começar a dançar, mesmo não sendo para qualquer um, é fácil para muitos, logo a concorrência vai ser grande e será difícil de cativar a Miss Playboy de Janeiro das redondezas. O melhor, pensei eu, é fazer uma coisa com maior impacto, que arrase logo que os pezitos comecem a soltar os seus primeiros movimentos, e, assim, abata toda e qualquer rivalidade possível com os outros machos. Para elevar a competição é preciso fazê-lo num local que causa surpresa e não na banalidade da discoteca onde toda a gente se perde a dançar. Que melhor sítio do que o restaurante para pôr em marcha o plano?! Tem música, espaço, mulheres lindas e, o melhor de tudo, não tem outros machos dançarinos a fazer concorrência.

O problema era saber com que música eu devia fazer a minha entrada triunfante bem no centro do restaurante que, mesmo não sendo pista de baile, dava um certo jeito para tal. O problema é que as músicas de fundo destes espaços não costumam dar grande ajuda para uns bons passos de dança, ainda que o bailarino esteja com a confiança ao rubro; normalmente são umas pianadas afinadas, que estão mais para um pax de deux do que para um pasodoble. Quando estava com toda a concentração mental positiva, a pensar frases do tipo, qualquer destas mulheres lindas é pouco para mim, e eu vou tê-las todas, surgiu uma música que puxava à dança. Mas depois pensei, hum, um fulano saltar para o meio de um restaurante a dançar Madonna não vai colar muito bem, cá para mim ainda pensam que alguém deve ter deixado aberta a porta do armário. Resolvi esperar pela próxima, mas ainda foi pior. Não é que, numa onda revivalista, resolveram colocar o I Will Survive da velhinha Gloria Gaynor. Bom, se eu me atrevesse a dançar com o dedo mindinho que fosse, por certo, teria logo ali um convite para sair no próximo Gay Pride.

Comecei a desesperar. A disposição mental certa estava a ir embora e não havia meio de aparecer o toque adequado para eu brilhar. Finalmente, surgiram uns acordes de uma música bem batida, em que o fulano gritava Sex Bomb, Sex Bomb! Zás, num salto, atirei-me para a improvisada pista e comecei o meu exercício de movimentos bens ritmados. Reparei que, ao exercer uns movimentos pélvicos bem exuberantes, o mulherio já não fechava a boca. Agora, só tinha que escolher a minha presa e, qual macho dominante, avançar para ela e arrebatá-la para a pista. Era o meu momento de glória. Verifiquei que havia uma loura, de catálogo de moda, numa mesa onde só havia mulheres. Alvo certo, não corria o risco de me enganar e ir buscar uma que atrás trouxesse, como brinde, um idiota qualquer com o Segredo atravessado. Avancei para ela.

Ainda tinha uns bons metros para percorrer, sempre a ritmar, quando fui travado por um corpo pluridimensional, algo que, caído ao mar, levava o Greenpeace a fazer, por certo, grandes campanhas, se não fosse para salvar mais uma espécie de peso em extinção, seria, pelo menos, para salvar o próprio mar de um lixo giganuclear. Uma americana XXXXL, entusiasmada com o meu numerito e com uns bons decilitros de tinto português que já tinha emborcado, resolveu atracar-se a mim e fazer também a festa. Baseado na lição nº 1, tentei não perder o controlo, resolvi fazer um passo de dança bem complexo, cheio de rodopios, para a deixar KO – uma americana gorda a rodopiar fica, ao fim de alguns segundos, a arfar todos os hambúrgueres que deglutiu ao longa da vida – e, assim, eu ficar livre para o meu ataque. Se calhar exagerei na complexidade dos passos; a mulher saiu-me disparada pelo restaurante dentro e foi aterrar no meio de uma outra mesa que se preparava para saborear uns mexilhões na cataplana. Digo preparava, porque acabaram todos os elementos da mesa por se ficar pela intenção; a cataplana voou e, digamos, houve uma distribuição muito democrática dos mexilhões pela sala.

Com uma coisa eu podia estar feliz ao estar cá fora do restaurante: era dos poucos que tinha a farpela sem qualquer vestígio de mexilhões à la marinera. O mesmo não se podia dizer do pessoal que me acompanhava, que bramia a raiva de limpar as roupinhas de um molho de tomate com coentros. Talvez por isso, nem repararam que um empregado do restaurante saiu disparado na sua mota em direcção a não sei onde. Melhor dizendo, faço uma pequena ideia, porque ainda o ouvi dizer, à porta do restaurante, que ia imediatamente a uma sessão espírita a ver se o livravam de um encosto que o perseguia há umas semanas no restaurante.

**********

Pronto e foram estas a minhas aventuras nas primeiras cinco lições do grande mestre Tony Clink, e também nas últimas. Se para cinco foi assim, cheira-me que já não tenho resistência física para aguentar as restantes. Olha, que se lixem as deusas – Angelina, filha, talvez na outra reencarnação, ok?, não desanimes – , fico-me pela prata da casa, que é pessoal mais terra a terra.

Bom, apesar da loura divina não ter aterrado a meus pés, há uma coisa da qual me posso, desde já, orgulhar: devo ser das poucas pessoas que tem a foto à entrada de um restaurante como o Cretino do Mês.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: