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Diário de Um Idiota (4) – Reveillon

Novembro 27, 2011

Ao dar a 12ª badalada – não na torre de Saint-Denis, mas num qualquer programa cretino de televisão – comemos a última das passas e aguardámos. Antes, não faltara folia na velha noite de reveillon. Cumprimos todos os rituais, mesa farta, roupa nova e uma alegria estridente, à la carte; até a prima Joaquina, no seu vestido dourado – digno de uma autêntica rock star – passou lá por casa para nos felicitar, ainda antes de ir comemorar a noite para um dos hotéis mais caros da cidade, também estava podendo – como costumava dizer -, o seu Rogério ganhara uns bons dinheiros nuns negócios que nem ela sabia explicar – coisas da política, assim referia.

champagne-e-fogos

 

Ainda a passa não se ajeitara no estômago – banhada num leito de champanhe, melhor dizendo, espumante, que os tempos não estavam para brincadeiras -, começámos a sentir o que já era esperado: um barulho profundo – do tamanho do fim do mundo – avançou rapidamente, como um grito de adamastor; as paredes e o chão começaram a tremer, numa autêntica dança de alto mar, foi preciso agarrar as pratas e uma baixela antiga – heranças da avó –, guardadas no aparador, para que não houvesse um cemitério do passado já ali, a rebolar e a estilhaçar a nossos pés; o LCD, novinho, acabado de estrear, nada como ver a vida em alta definição, também teve que ter mãos para o susterem; umas rachas gigantes pintaram as paredes e uma grande parte do soalho, mais um pouco e a família ficaria separada em duas partes do lar. Apesar do abalo, a casa aguentou e nós suspirámos de alívio: estávamos todos bem, graças a deus, e a televisão ficara intacta, podíamos, assim, ver já em directo tudo o que acontecera.

Entre destroços e móveis tombados, dirigimo-nos para a porta da rua, era importante ver o que acontecera lá fora. Ao abrir a porta, uma paisagem devastadora engoliu-nos o olhar: o nosso bairro estava completamente destruído; a nossa casa, em mau estado, ficara de pé, mas as outras, aquelas que sempre nos fizeram companhia, estavam quase todas destruídas e engolidas pelo mar que resolvera espraiar-se por ali; apenas o edifício do banco, todo estilhaçado na sua linda fachada de cristal – outrora o orgulho da modernidade na vizinhança -, e o casarão do Rogério e da prima Joaquina, o palacete que parecia ter vindo fugido de uma outra época, estavam em pé.

De repente, no meio dos escombros, emergiu um vulto gigante. Apesar do seu aspecto zombie tenebroso – bocados de carne caíam durante o andamento, a cara, tirando os olhos, deixava ver todo o miolo de um crânio, como se a pele tivesse ardido – consegui notar-lhe contornos de mulher. Ao aproximar-se de nós, e no meio daquela ruína fantasmagórica com que se apresentava, reconheci-a: Europa, uma velha amiga.

ZombieWoman

– Ajudem-me! – rogou a Europa, estendendo a mão que, naquele momento, era apenas uma montra sangrenta de falanges, falanginhas e falangetas.

– Agora é tarde, senhora – respondi-lhe. – Inês é morta!

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