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Diário de Um Idiota (3): fortunas

Novembro 6, 2011

Nunca pensei que fosse assim; como qualquer sonhador, sempre imaginara que, no dia em que me saísse um grande prémio, tudo fosse muito discreto, nada diria, nada se saberia, e eu ficaria na paz da ignorância a gastar, alarvemente, os meus gordos e fartos tostões; mas não, sabe-se lá porquê – por acaso até sei, tivesse eu mantido a boca fechada no bar da esquina, após deglutir 2 garrafas de um mau champanhe, imagine-se, uma pessoa com o meu nível a beber umas míseras imitações, a cheirar a velho de tanto guardar, e nada teria acontecido -, o meu primeiro prémio no grande jackpot do euromilhões veio em tudo o que era jornal, passou na abertura de todos os noticiários, até num canal que falava um língua muito esquisita eu vi a minha cara pespegada, por sinal, uma péssima fotografia tirada quando eu ia entrar no serviço, a fingir que era pobrezinho – a televisão, essa lupa míope, faz-nos sempre mais gordos e velhos, dizem, e é verdade, que eu ainda não estou naquele estado deprimente com que fui anunciado ao mundo, mas nada que uma boa clínica não repare num instante.  

geração de riqueza

Assim, não fiquei surpreendido quando, ao entrar na porta principal daquele grande armazém, vi tudo o que era repórter à minha espera; quase que me engasguei com os microfones que me foram oferecidos de rajada. Sem abrir a boca, apenas com um sorriso leve – dando já sinais de pessoa importante -, entrei naquela majestosa torre envidraçada: um grande armazém onde nada faltava, onde todas as grandes marcas de todos os bons produtos desfilavam, cheias de brilho e apresentadas por gente bonita, lavada e passajada, onde qualquer adulto se podia lambuzar no consumo, como se retornasse à infância e lhe abrissem o palácio dos doces.

Com todo o alarido montando à minha volta, eles já sabiam que eu vinha, tive uma recepção especial: a loja estava completamente vazia, os outros clientes foram convidados a não entrar ou a sair – inclusive foi preciso chamar a polícia, primeiro, e o corpo de bombeiros, depois, porque uma velhota trancara-se na casa de banho e ameaçara deitar fogo a uns frascos de perfume, retirados dos luminosos escaparates, protestando que também era gente, que tinha vindo ali comprar a prenda para o neto, que ia casar, e que não saía sem levar 2 conjuntos de toalhas e de lençóis, coloridos até ferir a vista, de uma espanhola qualquer de renome -, para que o espaço ficasse só para mim; os empregados, hirtos nas suas fardas, alinhavam-se, como se estivessem numa parada militar, e ofereciam-me um largo e encomendado sorriso de boas vindas; até uma passadeira vermelha me fora colocada à entrada, como que a conduzir-me às principais arcas do tesouro.

luxury-lifestyle

 

Um homem alto e muito bem composto – tinha todo o ar de estrangeiro, devia ser o chefe – dirigiu-se até a mim, ofereceu-me a mão e a cabeça – num pequeno gesto inclinado – para um cumprimento; depois, rodopiou um pouco, qual bailarino à boca de cena, e abriu o braços em direcção ao amplo espaço: tudo aquilo era para mim. Perante a minha mudez, tentou acelerar o processo e perguntou-me o que desejava.

– Tempo – respondi-lhe. – Quero apenas tempo, muito tempo. Embrulhe-me, num bonito papel reciclado, todas as doses que tiver!

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2 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Novembro 14, 2011 4:08 pm

    meu querido amigo…

    diz-me por favor, onde fica esse bendito armazem!!!

    • Bau P permalink*
      Novembro 27, 2011 11:35 am

      não sei, acho que fica para o lado da utopia 🙂

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