Skip to content

A Orgia dos Farsantes

Outubro 17, 2011

Despi-me completamente, deitei-me e esperei que viessem; nu, oferecido, fiquei sereno enquanto aguardava a sua chegada. A roupa – outrora motivo de encantamento – jazia no chão, quanto menos barreiras tivesse o corpo melhor, mais fácil ficava o seu desfruto.

Noutro tempo, teria ficado nervoso, ansioso até, com semelhante propósito; agora, que toda a decência já fora despachada para terras distantes – tão longínquas que não havia mapa para as assinalar – nem um único sobressalto me invadia: estava ali para aquilo.

corpo

Sempre pensara que este tipo de festim fosse mais adequado para gente importante, pessoas de bens – donos das vontades do mundo – e bonitas como nos filmes; mas não, até eu, simples anónimo, mero cidadão ordinário, fui envolvido, diria intimado a participar.

Assim, numa nudez gelada, esperava-os deitado, de braços abertos, numa espécie de crucificação pornográfica, no chão da sala. Quando ouvi um barulho proveniente da janela, percebi: finalmente chegaram.

Enganei-me, em parte. Desta vez – em contraponto ao que normalmente acontecia – não vinham em bando: apenas um entrara pela janela. Sabia que o facto de ele vir isolado, não significava que o bacanal fosse aliviado, pelo contrário, seria ainda muito mais vigoroso e em nada me pouparia. Sem demora, expus-me sem pudor – escancarado até na alma – para que se servisse, para que se despachasse e, assim, o momento fosse exíguo. Estiquei bem o pescoço, local de eleição para o pretendido. Quando me cravou os punhais dentários numa perna, percebi que desta vez a fome era maior e que, além do sangue que sempre me bebiam, também a carne seria devorada. Foi sem forças, completamente sugado e despojado de bons pedaços do corpo, que senti, pouco tempo depois, o eterno bater de asas e o voo picado desde a minha janela até ao seu palácio, algures numa parte de excelência da cidade.

vampire

Cheio de dores, a desfalecer, arrastei-me até ao sofá. Sonhei que era a última visita daquela espécie. Puro sonho. Sabia que, mais tarde, ele e todos os outros vampiros viriam novamente: enquanto tivesse uma gota de sangue e um grão de carne eles não deixariam de me visitar.

Embriagado com a dor e o definhamento da força, senti raiva; não uma raiva de impotência, mas sim de cansaço: se ao menos me levassem o sangue e se assumissem como tal, em paz ficaria, mas não, estes vampiros modernos, entra ano e sai ano, todos iguais, levam a vida a culpar os vampiros anteriores por terem de me atacar, que os seus dentes só são mais afiados porque os caninos dos antecessores não cravaram como devia ser.

Para a próxima, quando votar, mais do que o rigor de colocar a cruz num quadradinho, levarei vários dentes alho; pode ser que a coisa funcione.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: