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Onde estavas no 11 de Setembro?

Setembro 10, 2011

 

11 de Setembro de 2001. Onde estava eu? De passagem por uma capital europeia. 4 meses atrás, no próprio WTC em viagem de trabalho, a pisar o chão que, um pouco mais tarde, desmoronou perante os nossos olhos.

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Seriam cerca das 4 horas da tarde espanholas, estava eu num piso descoberto de um autocarro de sightseeing em Madrid – já estivera várias vezes na cidade, inclusive até vivera nela durante 1 mês, mas, por força de quem me acompanhava, resolvi fazer este circuito de fast tourism – quando recebi uma chamada de PT: primeiro a perguntar-me se estava tudo bem; depois para me dizerem “as tuas torres caíram”.

Num primeiro momento não acreditei, piada de mau gosto, depois fiquei gelado, sem palavras. No banco de trás do autocarro, um casal americano ria-se e tirava fotografias à Gran Via que, curiosamente, começava a esvaziar. Ainda pensei em dizer-lhe o que se estava a passar na sua terra, mas deixei esse papel de ave agoirenta para a televisão do seu quarto de hotel, ao menos completariam o bendito circuito felizes da vida.

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Resolvi descer de imediato e ir para o hotel. Liguei a televisão e percebi, ainda que de uma forma muita confusa, que o mundo – a América “era (é)” o mundo – estava a ser atacado e a desabar. Equacionei regressar de imediato, tinha carro e as estradas não estavam encerradas, ao contrário dos aeroportos. Para não fazer a viagem de noite – sabia lá que mais poderia acontecer – resolvi  partir só no outro dia de manhã, antecipando, ainda assim, o regresso.

Temendo o que pudesse acontecer – poderia tudo fechar – fui ao supermercado do El Corte Inglês comprar mantimentos. Melhor não o ter feito. Apanhei uns empregados histéricos a falarem já da 3ª guerra mundial, que os aviões caiam que nem tordos na América – apontaram-me mais de 7, se a memória não me falha até a Walt Disney em Orlando fora bombardeada – e que se esperava um ataque semelhante em Madrid. Saí a correr, nem me lembro se paguei as bolachas, o pão bimbo e uma embalagem de presunto serrano; se não paguei, também ninguém correu atrás de mim, o mundo estava prestes a desabar, queriam lá eles saber das galletas e do jamon.

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Cheguei ao hotel e fui zappiando pelos diferentes canais; felizmente que os jornalistas, apesar de tudo, estavam menos histéricos do que os empregados d’El Corte Inglês, o que me tranquilizou mais: a Europa estava em alerta mas não havia sinais de ataque; os aviões eram “só” 4 e resumiam-se a NY e a Washington. Mesmo no meio do caos e do horror, numa primeira fase suspirei de algum alívio; quando estamos a salvo – nós e os nossos – a tragédia tem sempre uma dimensão diferente.

Ao ver as imagens da caída de uma das torres vi como ela desabava e destruía uma outra, mais pequena, que fazia parte do complexo. Lembrei-me da minha viagem de trabalho a Washington e a NY. Estivera lá nos finais de Abril desse ano e uma das reuniões fora no WTC. O facto de conhecer algumas das pessoas que trabalhavam ali, deixou-me angustiado: uma coisa é o horror daquilo que nos é estranho; outra coisa é saber que estivemos ali – poderia ter sido apanhado naquele momento – e que pessoas nossas conhecidas estariam dentro da tragédia. Felizmente – vim a saber depois – todos os que conhecera se salvaram. Não era grande o consolo mas era algum; a dor quando é estanha dói menos.

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Estivera 3 vezes em NY e, em todas elas – por diferentes razões – fui ao WTC. Conheci-o em diferentes perspectivas: turismo e trabalho. Assim, por brincadeira, dizia “as minhas torres”, por já lá ter estado várias vezes. Mal sabia eu que, um dia, elas realmente iam ser minhas; de todos nós. No dia 11 de Setembro de 2011 – ainda que o ataque fosse aos EUA –, um bocado de nós, ocidentais, foi demolido conjuntamente com as torres: a ideia que as explosões e a carnificina – coisas que nos impressionam nos telejornais entre uma colherada de sopa e relambório sobre quem levanta a mesa – seriam sempre coisas lá por terras distantes e exóticas, onde nós, gente banal, de “bons costumes”, nunca estaríamos, caiu nesse dia por terra. Os atentados de Madrid, Londres e agora Oslo vieram provar, ainda mais, que o terror pode estar ao  virar da esquina – assim haja loucos para tal.

Mas a imagem principal que guardo, foi quando – já com falta de ar por estar encerrado num quarto de hotel a ver tudo aquilo – resolvi sair à rua: a Gran Via – outrora sempre a fervilhar – estava quase deserta, só alguns turistas e locais desnorteados deambulavam pela rua; as pessoas caminhavam sem sentido, qual zombies, com um ar alucinado e sem saber o que fazer; os jornais faziam edições extras – foi a última vez que assisti a esse fenómeno – as pessoas pegavam neles, folheavam e voltavam a pousar; ninguém pagava; ninguém se preocupava com isso. Madrid parecia retirada de um qualquer filme catástrofe, daqueles em que se acorda e o mundo desapareceu. Parecia ficção, mas não era; eu estava lá.

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Dizem que o mundo mudou, desde esse dia; não, o mundo é igual, nós é que passámos a olhá-lo de maneira diferente.

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