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Casting Final

Agosto 25, 2011

Ela estava nervosa; tinha razões para estar: era a primeira vez que pisava um palco. Sempre achara que era boa naquilo que fazia, mas agora, estar ali perante um júri tão exigente, tinha medo de se atrapalhar e fazer tudo errado. Quando o assistente lhe deu indicação, avançou para o centro do palco. Lá estavam eles, os jurados, sentados na plateia, imperturbáveis, frios e com um olhar perturbador, como sempre: dois homens e uma mulher – há sempre uma mulher, para preencher a quota feminina correcta, pensou ela.

– Como se chama? – perguntou o jurado do meio; devia ser o chefe, tinha ares disso, pela forma altiva como colocara a voz.

– Emília Sampaio.

– E o que nos traz?

– Pato confitado numa cama de espinafres au creme com espuma de abacate – apresentou Emília, colocando o seu prato em cima da bancada.

– Ok, deite fora tudo isso. Tem 15 minutos para fazer um prato com os ingredientes que estão em cima da bancada.

Emília sentiu-se à beira de ter um colapso nervoso – bem que lhe tinham dito que aquela gente do júri não era boa coisa, estavam sempre à espera de humilhar qualquer um -, só não atirou o seu prato à cara daquelas múmias e saiu a correr, porque desde pequenina lhe ensinaram que uma senhora tinha que manter sempre a compostura. Olhou para os ingredientes: um punhado de farinha, um ovo e um pedaço de chouriço. Que fazer com tão reduzida matéria?

cozinhando

Num gesto de inspiração, bateu muito bem o ovo – a fúria do momento transformou-se numa excelente batedeira -, cortou o chouriço em pedaços muito finos e juntou-os ao preparado anterior, juntou-lhe, lentamente, a farinha e no fim salpicou aquela massa líquida com sal, pimenta e salsa. Aqueceu muito bem o óleo – ia no minuto 8 – e, com uma colher, tirou pequenas conchas de massa que começou a fritar. Ao minuto 15 tinha num pequeno prato meia dúzia de bolinhos dourados.

– Como chama a isso?

– Sonhos de chouriço.

– Muito bem, bonito nome. Pode trazer o prato até nós.

Emília desceu do palco e foi até ao meio da plateia, onde estava a secretária do júri. Ao chegar, sentiu um arrepio, não parecia humana aquela gente: pálidos, cara rígida, sem grande expressão, e com um olhar vidrado, sem pestanejar. Colocou o prato na secretária. Eles tocaram os sonhos – por uma ordem sincronizada -, cheiram-nos mas não os provaram. De repente, aquilo que aparecia uma pequena lâmpada de néon, esticou-se e varreu o prato, numa espécie de scanner. No ecrã gigante apareceram alguns indicadores, como calorias, proteínas, percentagem de colesterol, e um valor final determinante: 0,056% IM.

– Nada mau, tendo em conta os ingredientes, apresenta um Índice Mortal relativamente baixo, o que é um bom indicador de sobrevivência. Sabe, nós nos MasterPerson não procuramos floreados na cozinha, mas sim o básico. Pode retirar-se; o júri vai decidir e depois comunicará.

Emília retirou-se. Entrou o novo candidato, um homem muito endireitado no alto de um fato de bom corte.

politico

– Porque vem ao MasterPerson? – voltou perguntar o jurado do meio.

– Porque reúno todas as condições para vencer; porque, mais do que meu interesse próprio, estou pronto para defender os interesses de uma comunidade; porque sempre me pautei pelos valores da causa pública e…

– Ok, já percebemos – o jurado voltou-se para os colegas, em tom baixo: – Bom, temos mais um candidato à vaga de político; não me parece interessante, mas vamos analisar os indicadores – elevando a voz e dirigindo-se ao candidato. – Mantenha-se quieto. Vamos analisar.

Aquilo que parecia um microfone no meio do palco, elevou-se e começou a contornar o candidato. Começaram aparecer dados no ecrã: Victor Cunha, licenciado em direito, ex-secretário de estado e ex-CEO das Ondas de Portugal; aspecto – 58%; postura – 79%; conhecimentos – 34%; liderança – 64%; inteligência – 22%; IE – 88%.

– Bom, curiosamente, o seu Índice Eleitoralista é bastante elevado. Terá grandes hipóteses, mas a decisão final só a vai conhecer mais tarde. Obrigado.

Para finalizar o dia cansativo – o desfile de pessoas e de modalidades fora imenso –, surgiu no palco um casal jovem, bonito e bem constituído.

– Bom, estamos muito atrasados, podem começar – ordenou o chefe do júri.

Perante a ordem, ele começou a mexer nos cabelos dela, abriu lentamente a blusa e deu-lhe um beijo suave no pescoço.

– Desculpem – interrompeu o jurado -, não estamos a seleccionar a modalidade de sedução, por isso não percam tempo. Vão directamente aos assunto principal.

Sem protestar, o casal despiu-se rapidamente.

– Tomaram alguma coisa? – perguntou o elemento feminino do júri, perante a imagem de um homem já preparado.

– Não – respondeu o homem do casal.

– Óptimo, não queremos aqui doping.

Ela deitou-se numa cama que o assistente colocara no palco; ele colocou-se em cima e, numa posição de missionário, deram início ao acto sexual. Os gemidos, encomendados, em jeito de banda sonora, ecoaram na sala. Aquilo que parecia luz de cena, focou os corpos e vários pontos luminosos percorrem as diferentes partes dos amantes; na zona sexual houve uma maior incidência de luminosidade.

bvgitg

– Vamos trocar de posição – disse o homem, elevando a cara e preparando-se para sair de cima da sua companheira. – Para dar um outra graça.

– Não, deixem estar! – ordenou o jurado chefe. – Terminem assim.

Terminaram; mais uns movimentos pélvicos acentuados, uns gemidos sincopados e o acto findou.

O ecrã apresentou os dados da performance: 79% IR e 52% IS.

– Bom, o Índice Reprodutor não é mau, 79%, mas o Sexual não é grande coisa. Obrigado, vistam-se, amanhã damos a resposta final.

– Quando é que o programa começa – perguntou o elemento feminino do casal.

– Dentro em breve; depois diremos – respondeu um dos elementos do júri.

O par saiu. Os jurados levantaram-se.

– Está quase no fim, vamos ter um trabalho complicado na selecção – comentou a jurada.

– Nem por isso, sabes que o Master irá decidir a escolha final – respondeu o jurado que se mantivera em silêncio até ali. – Temos é que ser rápidos, não podemos atrasar a selecção, o momento fatal está quase a chegar.

impacto_meteorito

Faltava pouco – 3 meses -para que um meteorito chocasse com a Terra e destruísse toda a civilização; só um casting eficaz – ao jeito de um bom reality show – poderia fazer com que um parte dela pudesse ir povoar outro lugar. MasterPerson tinha essa tarefa, de escolher, em nome do Master, aqueles que representassem o melhor do que andou por cá; andava cansado o grande chefe e não lhe apetecia pensar muito nas condições do novo planeta a povoar.

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4 comentários leave one →
  1. minda permalink
    Agosto 31, 2011 11:30 am

    Ola…
    ao tempo que eu nao andava por estas bandas…
    actividades diversas..
    algumas delas a pensar que não podia perder tempo porque vinha ai o tal do meteorito…
    a tua capacidade de sintese e de análise continua a espantar-me…
    louquinho qb torna o texto delicioso
    beijinhos
    minda

  2. bp63 permalink*
    Setembro 8, 2011 11:01 am

    também eu já não andava por aqui há muito, mas de vez em quando, tenho uma recaída 🙂

  3. Setembro 10, 2011 7:27 pm

    Eu sabia que havia uma razão para não gostar muito de reality shows…é o meteorito que me assusta. Também deve ser por isso que tenho sempre a sensação de estar a viver pouco. 🙂 muito interessante Bau…

    • bp63 permalink*
      Setembro 10, 2011 10:39 pm

      que me caia já aqui um meteorito do que participar no reality show 🙂

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