Skip to content

Modas Novas, Velhas Manhas

Novembro 13, 2010

A velinha vestiu o casaco mais quente que tinha – andam frios estes tempos – , procurou a sacola no armário, verificou que dentro dela estava o que precisava, e saiu.

Há muito que criara a rotina de ir até ao parque para dar de comer; vinha-lhe o hábito dos tempos de aldeia em que, logo pela amanhã, abria a sacola do milho e atirava ao vento as sementes douradas para as galinhas. Agora, na cidade, perdera os seus animais para alimentar, aquela mania do filho de a trazer para a cidade – está muito só na aldeia, tem que vir para cidade, tem mais companhia, fica mais moderna – estragara tudo; não sabia o porquê de tanto empenho na mudança, acabara por ficar só na mesma – hoje não podemos ir aí, a vida é muito complicada, muita apressada, mas no fim-de-semana vem almoçar cá a casa que a Susana vai fazer um strognoff excelente -, e para modernidades já não tinha paciência: a terra que nos faz é a mesma que nos traga.

Na rua não prestou muita atenção ao reboliço à sua volta, nunca prestava; eram imagens estranhas, tanto quanto as que consumia na televisão apenas para adormecer. Seguiu o seu caminho como sempre fazia: em direcção recta ao parque, segurando firmemente a sua sacola para cumprir a sua nobre missão.

Uma vez no local, abeirava-se do varandim no topo do parque e gritava:

– Mercados, mercados!

Passado pouco tempo, ali vinham eles, em bando, os mercados, no seu esvoaçar negro.

Ela abria a sua sacola e começava a atirar as pepitas douradas, as moedas que tanto lhe custaram a juntar, para o espaço, afim dos mercados virem saciar a sua fome avassaladora. Por vezes, tinha que se afastar, tal era a fúria dos mercados. Temia que um dia, na ânsia de tudo comerem, a deitassem abaixo do varandim e, para além de engolirem as moedas, a devorassem a ela própria.

Todas as tardes regressava a casa angustiada: sabia que, por muito que lhes desse de comer, eles regressariam no outro dia ainda com mais fome, com mais garra para lhe despejar a sacola. Mesmo assim regressava sempre: era preciso acalmar os mercados.

Anúncios
3 comentários leave one →
  1. Novembro 14, 2010 4:01 pm

    Os mercados são assim como os pombos na praça, dá-se-lhes milho e é vê-los a engordar de dia para dia!

  2. Novembro 15, 2010 12:13 pm

    A “fome” dos ,mercados é danada.
    Desgraçados daqueles que tem que lhes dar de comer.

  3. minda figueiredo permalink
    Novembro 23, 2010 12:51 pm

    e raios partam se eu não preferia viver na época das cavernas…

    eheh

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: