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A Diva e o Sopro

Setembro 16, 2010

Como qualquer mulher, abriu o roupeiro e viu-o quase vazio. No meio de centenas de peças nada enxergou que a pudesse satisfazer naquela noite importante. Como era possível, depois de muitas tardes a deambular pelas lojas das melhores marcas, que houvesse aquele deserto têxtil à frente dos seus olhos? Umas peças estavam fora de moda, outras não se adequavam à ocasião, já para não falar daquelas que pareciam ter encolhido e para as quais nem queria olhar, era o que lhe faltava, ter um roupeiro despojado e ainda por cima a chamar-lhe gorda, qual espelho malvado.

Por fim, depois de ter asfixiado a cama com um mar de peças, escolheu 2 vestidos pretos de corte clássico, como seria conveniente, colocou-os à sua frente e perguntou ao marido a opinião. Ele, meio desprevenido, meio em pânico, não sabia o que dizer, aos seus olhos eram dois vestidos perfeitamente iguais, ainda que ela teimasse em classificá-los em preto corvo e preto ébano. Não comentar nada, traduzido num tanto faz, era ouvir um pranto de reclamações, que não lhe ligava nenhuma, que ela lhe era indiferente; assim, fingindo uma análise detalhada às peças, sugeriu o que lhe pareceu ter um decote maior, sempre ajudaria a sobressair o colar, bem vistoso, que mais tarde, por certo, lhe seria pedido para colocar, e com o qual ele iria embirrar com o fecho – o homem já foi à lua, já quase que se dissolve electronicamente, e ainda continuam a insistir naquelas coisas minúsculas para fechar colares e pulseiras, que só dedos de duendes conseguem manobrar.

audrey-hepburn-vestido

Ela olhou-se no espelho e sentiu que estava ao nível do evento: o vestido preto ajustava-se adequadamente ao corpo, realçava-lhe as linhas mais importantes e escondia as outras, debruadas com calorias em excesso; o colar de pérolas, autênticas, com um pequeno medalhão de brilhantes, realçava-lhe o pescoço e insinuava o peito; o casaco de vison, genuíno ou artificial, consoante a ocasião em que necessitava de explicar, havia que estar ao sabor dos tempos modernos, envolvia-a num estilo discreto mas sofisticado.

Ele, no seu eterno smoking preto, achou que estava bem e pronto para sair.

Chegaram um pouco atrasados ao teatro – maldito trânsito que atrapalha sempre, – para desespero dela, dessa forma, mal entrariam, as luzes apagar-se-iam e não haveria tempo para o contacto social, nem tão pouco para ver como todas as outras estavam vestidas. Por sorte, felizmente que é Portugal, o espectáculo estava também um pouco retardado, os músicos faziam ainda os exercícios de aquecimento com os instrumentos. O arrumador encaminhou-os para os lugares respectivos, duas cadeiras bem centrais nas primeiras filas da plateia. Sentados, ainda houve tempo para uns olhares rápidos a tentar encontrar caras conhecidas. Lá estava a Teresinha Brito de Almeida, no seu camarote, elegante como sempre: o seu colar de diamantes, com brincos a condizer, ressaltavam na paisagem, como que a fazerem conjunto com os lustres imponentes do tecto daquele teatro de arquitectura neoclássica. Um simples acenar de cabeça bastou para que o cumprimento fosse feito entre os dois casais.

As luzes apagaram-se. A orquestra deu os primeiros acordes do Thannhauser. O palco iluminou-se, deixando ver uma longa escadaria ao centro e, no seu fim, um grande cadeirão, em madeira trabalhada, revestido a veludo vermelho. Aquando do começo da parte apoteótica do Pilgrim’s Chorus, ela, a grande diva, surgiu ao cimo da escadaria. Lentamente, numa cadência sincopada com a partitura, desceu degrau a degrau até à boca de cena. No fim, no momento em que se escutavam os últimos acordes daquele andamento, abriu os braços, em jeito de crucificação, deixando que o seu longo manto púrpura, abotoado à frente como se fosse um vestido, se abrisse e a transformasse numa espécie de borboleta. Aplausos, muitos aplausos. Com os braços levantados e a cabeça bem erguida saboreou o calor daquela ovação. Aos poucos, deixou cair a cabeça em sinal de agradecimento. Os aplausos continuaram.

Mulher2

Terminada a aclamação, fez-se silêncio. Ela, lentamente, desabotoou o pequeno laço que prendia o manto à frente e deixou-o cair a seus pés. O seu corpo, belo e nu pôde ser contemplado por todos. Permaneceu assim, de pé, desnudada, apenas com uns sapatos altos, também eles cor de púrpura, durante alguns instantes. O mutismo da sala continuou. Depois, recuou um pouco e foi sentar-se no cadeirão que aguardava no centro esquerdo do palco. Cruzou as pernas. Colocou bem a voz e disse:

– Boa noite, hoje vou falar de broches!

(a historieta continuaria, não fosse isto aqui uma casa de gente decente)

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3 comentários leave one →
  1. minda permalink
    Setembro 16, 2010 5:17 pm

    ora bem…
    a primeira parte, aquela em que fazes um retrato de uma feminilidade indecisa, passa-me ao lado…
    a segunda, aquela em falas de uns bichinhos que vivem nos guarda-vestidos e trabalham arduamente para, noite apos noite, diminuirem o tamanho das roupas… essa sim, chamou-me a atenção!
    é que, não sei porque cargas de água, essa bicharada resolveu ultimamente mudar-se, de armas e bagagens, para minha casa…
    e ainda por cima, devem ser uma familia islamica, porque devem ser muuuuuuuuuiiiiiiiiiitos…
    e pronto… quando a historia estava a aquecer foges com o rabo a seringa? ou será a picadela do alfinete?

    beijinhos
    minda

    • bp63 permalink*
      Setembro 16, 2010 5:26 pm

      os bichinhos das calorias em ti…umh! Não acredito.
      O rabo não fugiu, a seringa é que foi censurada 🙂

  2. minda permalink
    Setembro 16, 2010 6:28 pm

    ihih

    godto mesmo de ti bêpêzinho…

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