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A Fervura dos 40, Uma Casa Assombrada

Agosto 29, 2010

Ali estava ela, imponente e de porta aberta, a casa onde eu não queria mesmo entrar. Depois de uma bela e calma caminhada pelo passeio verdejante do jardim dos 30, tinha que entrar dentro do condomínio mais temível, a Casa dos 40. Uma casa verdadeiramente assombrada.

Uma Casa em que, por mais riqueza que haja lá dentro, por mais que se tente disfarçar, ninguém quer entrar. Pode até ter um minimalismo perfeito nos traços, vindo de um Siza Vieira qualquer, inclusive estar decorada de uma forma neo-barroca pós-moderna, como se houvesse a mão de uma sósia da Gracinha Viterbo, mas, o certo, é que todos preferimos qualquer barraca mal amanhada desde que tenha o número 20 ou 30 gravado na porta.

À porta somos acarinhados pelos companheiros de jornada, que ainda ficaram por lá, saciados de contentamento, na sua Casinha dos 30, a dizer, não tenhas problemas, isso não vai ser tão mau assim, afinal tu vais ser o mesmo de sempre, só que numa casa diferente, blá, blá, blá. Os outros, futuros vizinhos e já condóminos da Casa, sorriem, de uma forma amarela, e também dão uma forcinha, pequena, singela, porque eles sabem que já estão numa idade em que não podem gastar energias ou, então, a casa vem abaixo.

Mas a pior sensação daquele momento de entrada, não é vermos janelas a precisar de reformas, nem paredes já com algumas rachas, é ouvirmos um eco, vindo bem lá de dentro, que sabemos que nos vais acompanhar desde o momento em que metemos o pé no degrau até ao cadafalso final, independentemente da Casa, e que diz, enta, enta, enta!

O HALL

Qual reivellon, qual lançamento do space shuttle, mal pomos o pé no hall dos 40, parece que dentro do nosso corpo estiveram um conjunto de seres insuportáveis, tipo glutões do Presto, a fazer a contagem decrescente, com uma garrafa de champanhe na mão, para invadirem todo e qualquer espaço celular e começarem a fazer das suas – 4, 3, 2, 1, 0, aí vamos nós!

Uns, os mais engenheiros, lançam logo cordas e zás, toca a esticar tudo para baixo, é chegada a hora da Lei da Gravidade entrar em acção e atacar as nossas carnes: Começa o despencamento flácido!

Outros, os que têm uma costela de Marquês de Sade, andam com martelinhos a bater aqui e acolá, para que de repente comece uma dor repentina nas costas, no pescoço, na perna, onde calha. Dizem que com o tempo ganham uma especialização e nunca mais largam a bendita obra, especialmente quando passarmos para as Casas seguintes. Devem delirar estes glutões, com os seus fatos de cabedal, a ouvir os nossos ais e uis, que vão subindo de escala com o tempo.

Ainda há outros, com um espírito recalcado de censores, que começam a tapar algumas partes do nosso cérebro, para que se façam ecoar as primeiras falhas de memória. Voltam em força depois numa outra Casa, a dos 60, mas é nesta que eles começam a dar o ar da sua graça, ou seja, iniciam aqui o seu o tirocínio. Onde pus as malditas chaves? Ou o como é que se chamava mesmo o tipo? São perguntas que nos passam acompanhar, acho mesmo que vêm como anexo às renovações do BI.

Lá fora, não acreditávamos, mas logo que entramos podemos constatar a triste verdade: mal temos os primeiros minutos na Casa do 40 o nosso corpo começa a sofrer mutações, qual monstrinho de filme de série B. Algo me diz que o criador do X Men foi um quarentão assustado com o que os glutões malditos começaram a fazer no seu condomínio corporal. Assim, aquilo que era um figurino que podia entrar em qualquer despedida de solteira como artista convidado, começa agora a fazer o seu longo estágio para a incarnação final de um Jaba The Hut.

Ah, isso é mito, chegamos aos 40 e é como se nada fosse. Mentira! Quem diz isto mente para si mesmo para se ir convencendo e não desatar a correr pela Casa a gritar Wilma abre a porta!. Eu também não acreditava, mas mal entrei na Casa comecei logo a conhecer a graça de maleitas e suas comadres, cujos nomes pensei que só existiam para complicar a vida a estudantes de medicina. Aquele pequeno deslize que era um copo de água nos outros Condomínios, agora, nesta Casa, com todas as correntes de ar que há nela, vira uma tempestade tropical em menos de um figo.

A SALA DE ESTAR

Enquanto que na Casa dos 20 a sala de estar é a noite e na dos 30 é o mundo, na dos 40 vai ser mesmo uma sala pérfida onde nos vamos sentar e iniciar um processo de dependência verdadeiramente ameaçador. Adeus noitadas, adeus viagens aqui e ali, vamos começar a entrar pela primeira vez na nossa sala de chuto que nos vai acompanhar até ao fim. É nesta sala que os primeiros chinelos, a primeira mantinha começam a ser instrumentos base para a injecção assistida do consumo de uma droga explosiva, o pequeno ecrã.

Primeiro começamos sempre com pequenas doses de drogas mais ligeiras, umas fumaças de erva de séries de TV e de filmes perdidos no cinema ou então umas pedras de tudo o que é serviço noticioso. Mas isto meus amigos é só mesmo o princípio de um dependência terrível e sem volta, pois, aos poucos, acabamos por ficar cada vez mais agarrados ao vício e, sem nos apercebermos, estamos já instalados numa outra Casa, a dos 60, a consumir o cavalo de uma Fátima Lopes ou de um Você na TV. Há apenas uma esperança de não chegarmos a estas drogas duras, pelo menos desta maneira, que é entrar de vez em quando numa clínica Multiplex e, em várias sessões de Grande Ecrã, fazer uma desintoxicação.

É também nesta sala que dá início a um novo dialecto até então desconhecido para nós: Falar de doenças.

Se aos 20 se fala de aventuras, aos 30 de filhos, aos 40 começa-se a desfiar o prontuário médico. Já reparam que tipo de conversas se faz quando se reúne um grupo misto* de pessoas com mais de 40 anos? Doenças, maleitas, medicamentos, etc! Quase que trocam entre si, como cromos repetidos.

Conversas

Casa 20

Casa 30

Casas + 40

Noitadas

Filhos

Doenças

Tecnologia

Viagens

Política

Música

Carros/Casas

Comida

Fonte: Estudo de BPtest

* Se o grupo se dividir por sexos, as conversas tendem a manter-se iguais ao longo do tempo, o que só por si daria panos para mangas para uma outra discussão, pois eles nunca deixam de abordar o futebol e as mulheres, enquanto que elas falam sempre das suas coisinhas e também das… mulheres. Mas isso é para outros Carnavais.

Voltando ao grupo misto e ao novo dialecto clínico que começamos aprender dentro da Casa: Se não são eles próprios a ter a tal maleita, há sempre uma prima, uma tia, que tem isto, que teve aquilo, que já fez o exame tal, que agora vamos nós marcar uma consulta disto e daquilo. Este estranho dialecto aprende-se depressa e em pouco tempo já fazemos conversas como se fosse a nossa primeira língua. Há depois aqueles que, não só contentes em ter adquirido esta nova línguagem social, resolvem especializar-se e tirar autênticos Mestrados e Doutoramentos. Clínicas e Farmácias passam a ser os anexos recuados da sua nova Casa, digamos que uma espécie de marquises de alumínios, que dão sempre muito jeito.

A SALA DE JANTAR

O aterrador nesta sala é que ela aparentemente não é nada assustadora, inclusive parece que se descobre um outro prazer, uma nova paixão, a Mesa.

Assim, como em todas as paixões, a Mesa primeiro invade-nos os sentidos, dá-nos um calor sensual no estômago, para depois nos começar a arruinar, primeiro na carteira, depois no físico, por nos faltar pedalada para ela.

Apesar de termos vivido sempre com a Mesa, só nesta Casa é que nos começamos a aperceber como ela é bonita e exótica, como as cores que nos oferece nas longilíneas iguarias são sensuais, como o perfume que exala em cada pedaço seu é hipnotizante. De tal forma, que, quando ela se nos oferece por completo, bem posta e recheada, não conseguimos resistir e avançamos com força para a devorar todinha.

Mas todas as amantes fatais têm um preço caro, depois do êxtase da descoberta vem a ruína. A Mesa também. Na ânsia de querer coisas novas e cada vez melhor, começa-se a fazer uma peregrinação à procura dos melhores bordeis, perdão restaurantes, para satisfazer os nossos apetites, mas depressa descobrimos que esses clubes de prazer não são compatíveis com a nossa carteira, ou pelo menos de uma forma tão frequente. Se não pararmos a tempo vamos ficar arruinados.

Os efeitos secundários, criados pelos tais glutões, de comer sem protecção, também vão ser devastadores, pois no momento em que descobrimos o prazer da Mesa, o nosso corpo só para contrariar, descobre como ela é incompatível com o nosso novo estado e nova Casa. Um colesterol terrorista e umas glicoses destrambelhadas vêm estragar a festa, além de um tecido adiposo que teima em inchar, inchar, e fazer com a lei da gravidade dos tecidos corporais, nomeadamente os da cintura, se imponha sem apelo nem agravo. Para piorar, além dos glutões que temos dentro, parecem existir ainda uns outros nos roupeiros, que devoram parte da roupa e a fazem minguar. Nova despesa, renovar guarda-roupa.

A única solução é regressar tristemente à Mesinha que já tínhamos e que sempre nos aturou. O problema é que ela, não sei se por ciúme recalcado, se por vingança, vai estar menos bonita e apetitosa e resolve vestir-se apenas com um tipo de iguaria, a dieta.

É triste! No momento em que descobrimos um novo prazer para nos alegrar a Casa, é que o organismo se havia de pôr com esquisitices. É quase como ter a Angeline Jolie como vizinha e, na noite em que ela decide visitar-nos em lingerie transparente, termos um desarranjo intestinal de tal forma que ela acaba por ir ao andar de baixo visitar o vizinho da Casa dos 30.

A CASA DE BANHO

Ainda ontem entrava na casa de banho, olhava-me no espelho e sabia que mais dia, menos dia, o telefone havia de tocar para um convite para fazer a próxima campanha masculina da Calvin Klein.

Agora, nesta maldita Casa olho o espelho e quanto muito o convite que tenho é da Dercos para a campanha das ampolas da queda de cabelo. Já para não falar de um outro telefonema recebido, em que quase tive para cometer um homicídio por cabo óptico, pois vieram com um convite para o anúncio da Michelin.

Olhando-nos ao espelho começamos a compreender as frases assassinas com que de repente nos invadem, como se fosse um enxame de abelhas a azucrinar-nos a cabeça todos os dias. Eis uma série de exemplos:

O que dizem

O que querem dizer

Estás muito bem, para a idade!

Acham-nos velhos e ainda por cima com um aspecto que não devíamos ter, porque isso de estar bem é para gente jovem.

Há muito que não te via, mudaste muito!

Envelhecemos muito e quase não nos conhecem.

Estás com um ar assim… mais saudável, mais cheinho!

Estamos gordos, muito mais gordos.

O que te aconteceu ao cabelo?

Estamos carecas e cheira-me que não é deles que elas gostam mais.

É um tipo simpático (esta dita a 3ºs).

Já está um bocado gasto, já não tem os mínimos para ser interessante, bonito, etc.

Mas é mesmo em frente ao espelho que somos confrontados com a resultado diário do trabalho árduo dos tais glutões. Como não somos de baixar os braços, resolvemos então entrar numa guerra aberta com eles. Primeiro, começamos a olhar para os sustentadores de idade, uma espécie de esticadores em forma de creme, da companhia do lado. Afinal se elas conseguem mudar o espelho todos os dias, numa espécie de magia de um génio dos boiões, porque não nós fazê-lo também. E é assim que, secretamente, entramos nas primeiras mariquices masculinas, um pequeno creme hidratante para depois da barba, que disfarça as rugas, diz a publicidade. As únicas rugas que vamos vendo disfarçadas devem ser as das acções das empresas de cosmética, que vão ficando com os orçamentos mais cheios e sem buracos, mas insistimos na tarefa.

Depois, como há outras rugas mais adiposas nas zonas mais abaixo do pescoço, ginásio com eles, há que ir contrariar a maldita lei da gravidade das carnes. Mas tal como as rugas, as únicas carnes que se levantam verdadeiramente devem ser a dos accionistas dos Health Clubs, quando dão pulos de contentes ao fechar o balanço do ano. Mesmo assim insistimos em sessões contínuas. Tantas, que depois dá sempre origem a outras sessões, agora menos animadas e com o tal novo dialecto que começámos a aprender, uma luxação aqui, uma distensão ali. No final, a única lei da gravidade dos músculos com que nos cruzámos foi a gravidade da situação que arranjámos.

Mas a pior relação com este espelho diabólico é quando ele parece falar também o tal novo dialecto que se aprendeu na Casa. Uma mancha aqui, uma cor da urina ali, e já estamos de papel na mão num corredor de um laboratório a fazer umas análises. Análises? Sim análises, aquela coisa que sempre pensamos existir só para a Ciência fazer experiências. Ficamos a saber que afinal também existem para nós. Ou será que nesta Casa já doamos o corpo à ciência e ainda não sabemos?

O QUARTO

Depois dos sustos todos nas outras divisões, quando chegamos ao quarto já não temos força e o que nos apetece é dormir. Mas antes, uma outra coisa que normalmente se faz nos quartos, também nos começa a assombrar, o Sexo.

Todos sabemos que falar de sexo é quase que mentir a todo o vapor, mas vou tentar não exagerar.

Se as hormonas na Casa dos 20 são um autêntico Bungee Jumping e na dos 30 são uma sessão de Body Jump (cama elástica), na Casa dos 40 são uma verdadeira sessão de squash. Podiam estar calmas, mas, na pressa de não querermos perder a forma, agitamos bem e desferimo-las com golpes bem fortes.

Depois de todos os sustos nas outras divisões fica-se com o pânico do e se isto também falha? Antes que falhe mesmo, há que aproveitar, que a seguir a esta Casa vem outra ainda pior e não há tempo a perder. Como um adolescente tardio, é soltar a franga, é mandar-se à estrada e fazer depressa tudo aquilo que ainda não se fez. Já reparam a quantidade de divórcios que há quando se entra nos 40? Precisamente, se a hormonas já não saltam, faço-as saltar eu, que a mim ninguém me apanha.

Claro que há muitos homens que mantêm a calma e preferem continuar a jogar uma boa partida de bridge com as hormonas. Talvez porque têm uma parceira no jogo que não lhes deixa muito tempo para pensar noutras jogatinas, porque senão, podem crer, ainda ela estava com o Ás de Ouros na mão, a pensar na jogada, e já ele estava com o Ás de Paus a rondar a Dama de Copas da colega.

Mas esta procura do El Dorado do Sexo não é só porque resolvermos dopar as hormonas, com medo que elas ficassem assustadas com a Casa, é também porque pensamos ser a única forma de enganar o tal espelho mauzão que temos, e esperar que ele nos devolva uma outra imagem mais rejuvenescida. Melhor do que qualquer creme, qualquer ginásio, achamos que esta actividade lasciva tem o elixir da vida eterna. Com o andar do tempo pela Casa vamos vendo que não, que continuamos a ter o mesmo espelho rezingão e que, cada dia que passa, ele é ainda mais mauzinho connosco. Mas ao menos divertimo-nos bastante e isso, tendo em conta a Casa que habitamos, já é uma brisa refrescante.

Sair porta fora e procurar a primeira louraça que habite numa Casa com 20 na porta é muito comum, pensando-se, assim, que ainda se arranja uma vaga no condomínio dela e se esquecem as assombrações. O problema é que na nossa bendita Casa quarentona também nos dá uma maldita miopia e, muitas das vezes, a nova inquilina quase que já habita a mesma Casa que nós e nem loura é.

Assim, depois de toda esta agitação assombrada pela Casa, só podíamos fazer bem uma coisa, dormir. Aliás, é também este um outro novo dialecto que se aprende por cá. Depois de tanta fervura em todas as divisões só mesmo uns bons sonhos.

E se nos sonhos, ao longo do tempo, a Casa dos 40 vai ficando cada vez menos assustadora, uma outra começa a fazer-nos tremer, o Comboio Fantasma dos 50 que já se aproxima! Que bom que seria, agora, ficar já nesta casa e não houvesse estação para a maldita composição parar.

A  todos os que vão a entrar agora na casa, e do alto de uma das suas janelas, com cuidado, não vá isto vir abaixo, apenas vos digo:

Força Camaradas, venham e não tenham medo, afinal, depois de estar cá dentro, o que custa são só os primeiros 40 anos!

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2 comentários leave one →
  1. minda permalink
    Agosto 29, 2010 8:55 pm

    ola Bauzinho…

    tu assuatado com a entrada nos entas…

    e se eu te disser que quando se caminha a passos larguissimos para os loucos 60’s a coisa muda de figura…!!!

    em vez de sustos e incertezas passa a haver seguranças, certezas e outras coisas bem firmes… as dores são garantidas, as mazelas sao uma certeza, as análises são sempre sinónimo de raspanete do medico…

    mas também tem outras vantagens – começamos a encarar as tais hormonas com uma paz… ihih

    beijoca

  2. Setembro 17, 2010 8:21 am

    tudo na vida tem um fim, é os que os que abitão este planeta têm mais certo, mais certo do que acertarem no euromilhões, mas nós não pudemos fujir á realidade e não pudemos pagar para ser ao contrario ainda bem porque se assim fosse só os pobre chegavão ao fim do percursso e avia quem pagasse para se rire de quem partia. Obrigado por este bucadinho que que passei e que dei por bem empregado a ler com toda a atenção tudo aquilo que está escrito com toda a clase, pois eu já entrei na casa dos 70 e sei dar o valor a tudo isso um abraço au amigo que teve esta optima ideia

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