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Loiras Sem Fronteiras

Agosto 25, 2010

Nada melhor do que passear num centro comercial para que a fama se espelhasse em olhares de anonimato. Depois de conseguir um pequeno papel na nova telenovela da noite, era a amiga da amiga da protagonista, Diana, mais precisamente Diana D’Avelar – acrescentara o D’ a conselho do agente -, gostava de passear pelos corredores imensos do shopping, não que quisesse fazer algum tipo de compras – agora que era vedeta só frequentava lojas de eleição na Baixa, especialmente nos dias de lançamento em que havia sempre umas ofertas para o redil convidado –, mas sim, porque lhe fazia bem à alma sentir o reconhecimento do público, ainda que este, entre passadas apressadas do dia, apenas lhe lançasse um olhar de soslaio, como que a dizer: a cara daquela gaja diz-me qualquer coisa.

blond

Naquela tarde, apesar de a sua personagem ter tido algum desenvolvimento nos últimos capítulos – ajudara a amiga a pregar uma partida à protagonista, ainda tinha esperança que o neurótico do autor reparasse nela e lhe desse oportunidade para ser vilã –, não estava a ter grande sucesso; aquela gente suburbana estava bem aligeirada nos seus tristes e atarefados passos, nem uma simples mirada confusa lhe faziam. Assim, quando um rapaz louro, vestido com um fato lilás brilhante – que péssimo gosto, meu deus, devia ser proibido –, a começou a perseguir, sentiu-se nas nuvens, finalmente um fã em condições. Junto aos elevadores, Diana não entrou, esperou um próximo, para que o dito rapaz se aproximasse mais e lhe pudesse dar um autógrafo, por certo que o ia pedir. Quando ele lhe estendeu um lenço, ela sorriu – não seria uma boa coisa para assinar, mas, enfim, os fãs são o que são – e esticou o braço; o que não contou, foi que o pedaço de pano branco, em lugar de lhe ser dado para a mão, foi encostado à sua boca e nariz.

Tudo estava muito confuso, Diana acordou numa sala estranha. Não se lembrava de nada, mas ficou em pânico, aquilo não seria boa coisa, por certo. Ainda estava a tentar ordenar pensamentos, quando o rapaz louro, com o mesmo fato lilás, entrou e aproximou-se de Diana. Já lera coisas, assim, na imprensa da especialidade, sua preferida, mas nunca pensou viver uma: ter um fã demente que a raptasse, ainda por cima vestido de uma forma horrorosa, mesmo um psicopata tem que ter o mínimo de gosto.

– Diana, bem-vinda ao BwB – disse o rapaz, enquanto uma porta elevada, no topo da sala, se abria e deixava ver uma Barbie em tamanho gigante.

loura

Diana levantou-se do divã, forrado a cetim rosa, onde estava prostrada, ajeitou a roupa, olhou deslumbrada para tudo aquilo e tentou balbuciar algumas palavras: – Mas o que é isto?

– Diana, tu foste escolhida para ingressar no grande clube mundial Blondes Without Borders, o BwB.

– Como?

– Sim Diana, existe uma grande organização de Loiras Sem Fronteiras que tem por missão assegurar a paz no mundo de alguns homens aflitos.

– Não entendo.

– É simples, sempre que um homem precisa de ter uma mulher ao lado para afirmar a sua masculinidade ao mundo, recorre ao nosso clube, e nós, em nome da paz mundial de todos os armários, tratamos do assunto.

– Que giro! – disse Diana já entusiasmada com o projecto. – Porquê eu?

– Porque preenches todos os requisitos, és loura, bonita, muito vistosa, com algum bom gosto, precisas de protagonismo, não sabes e não gostas muito de trabalhar, tens um talento reduzido e, sobretudo, achas que a fama é um modo de vida.

Diana não sabia se havia de ficar lisonjeada ou amuar com aquele retrato instantâneo, mas o que quer que fosse, pressentia que, afinal, algo de bom viria daquele clube

blonde-hair

– E o que tenho que fazer? – perguntou ela.

– Nada, apenas seguir as instruções de cada missão. Começas com coisas simples, a Barbie de Prata, e vai progredindo na hierarquia até à de Platina. Em casos muitos especiais, poderás ter a Barbie de Diamante.

– É, assim, uma espécie de graduação, como nos escuteiros, certo?

– Sim. As missões para a Barbie de Prata são simples, só tens que aparecer em locais públicos a acompanhar o homem em causa, serem vistos, deixares-te fotografar e apenas tecer o comentário que são só amigos, quando as revistas indagarem sobre o possível namoro. É conveniente que haja troca de alguns afectos, mas sem exagero pois ele pode assustar-se. A Barbie de Ouro implica um namoro prolongado com a possibilidade de noivado, poderão ter que viver algum tempo juntos. No fim, só tens que garantir uma ruptura muito difícil e penosa, de tal forma que ele leve muito a recompor-se e não esteja em condições psicológicas para arranjar nova namorada. A Barbie de Platina está confinada aos casos em que chega a haver casamento, implica um grande espírito de sacrifício, mas terá maiores contrapartidas financeiras.

– E a de Diamante.

– Bom, essa está reservada para algumas eleitas e para casos muitos especiais, normalmente ligados a uma certa nobreza ou a cavalheiros da indústria importantes que, além de uma afirmação social, precisam do corolário da descendência. Quem receber uma Barbie de Diamantes terá que ter filhos e assumir uma família.

INDEX

Diana ouviu tudo com muita atenção, queria ser a melhor das melhores do BwB, com um bocadinho de sorte ainda chegaria a princesa de um qualquer trono apeado; era bem feito, para as vizinhas da mãe verem e engolirem a língua comprida que tinham ao dizer, entre dentes, que aquela rapariga a seguir assim, qualquer dia ia para puta.

Sem mais palavras, o rapaz tirou do bolso um pregador com uma Barbie prateada e colocou na lapela de Diana.

– Tens aqui tua primeira missão: serás a namorada de um colega teu da telenovela, vão ter um romance e serão bem fotografados, inclusive numa discreta praia. O idílio não durará muito, apenas o suficiente para que ele se afirme novamente e possa dar algumas entrevistas, na última das quais irá afirmar que está desfeito com o fim do namoro. Vamos ver como te sais. Agora vai!

barbie_00

Um enorme armário, na lateral da sala, abriu-se e Diana desapareceu no meio do fumo rosa que o mesmo emanava, não sem antes acenar ao rapaz louro do fato lilás, em jeito de despedida altiva; era bem nobre a missão que acabara de abraçar.

Um dia, o mundo agradecer-lhe-ia.

(esquiço da abertura de uma comédia absurda)

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6 comentários leave one →
  1. Agosto 25, 2010 3:02 pm

    Love it ! Do I smell some Heidi here ?

    • bp63 permalink*
      Agosto 25, 2010 3:38 pm

      :), mas é apenas uma Heidi acidental, a menina não me comprometa 🙂

  2. Joselia Antunes permalink
    Agosto 26, 2010 6:27 pm

    és terrível : ))

  3. minda permalink
    Agosto 26, 2010 9:02 pm

    eheh, bepezinho…

    ardo para que passe do esquiço a papel de primeira…

    deleitei-me! (não me deleito sempre?)

    gosto de ti, pronto!

    gosto do que escreves!

    gosto dessa cabeça tortuosa… ahah

    beijocas

  4. Bau P permalink*
    Abril 1, 2012 10:49 am

    Reblogged this on A Sombra das Imagens.

  5. Anónimo permalink
    Abril 1, 2012 3:49 pm

    Muito interessante, adaptável a louras, morenas, ruivas e não só :))) dramaticamente correcto e verdadeiro ou, parafraseando a bíblia: “abençoados os pobres de espírito” porque além de ganharem o céu, são felizes na terra.
    Maria

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