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Desejo Flamejante ou O Pão que o Diabo queimou

Julho 10, 2010

– Vem, Thomas!

Ela deitou-se sobre as sacas de farinha, rebolou-se e mostrou as suas carnes roliças que, alvas como sempre, avermelhavam um calor há muito calado. Como uma gata, bem generosa, em tempo de cio, oferecia-se de uma forma descarada ao padeiro, seu vizinho, homem avantajado, que vivia fechado no seu pequeno universo amassado de farinhas a criar sabores que outros, em grandes mundos, enfartavam nas suas faustas mesas.

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– Não posso, tenho uma fornada a cozer – negou ele, sem grande convicção, afinal há muito que não sentia o desvelo de uma mulher e aquela vizinha, a quem ele dava restos de pão, côdeas duras que os ricos enjeitavam, estava mesmo uma tentação, as coxas destapadas, já salpicadas da farinha que andava liberta, faziam-no tremer de fogo por dentro, como ele gostava de umas pernas brancas bem cheias, raras naqueles tempos em que a maioria apenas escondia, debaixo de fartas saias, uma figura escanzelada de fome.

– Deixa-te disso e vem! – sem mais conversa, ela puxou-o para cima de si e rebolaram os dois sobre o monte de sacos de farinha que aguardavam ordem de abertura para construir o pão que o deus, de alguns, amassava.

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Nem o pó, que se soltava no ar a cada eufórico movimento libidinoso, nem o desconforto da alcova improvisada, os atrapalhou, entregaram-se ambos numa cópula avassaladora, como se o mundo estivesse para acabar dentro em breve, talvez mesmo no momento a seguir, e houvesse que lambuzar sofregamente os últimos minutos. O odor a rosas da pele que beijava, ela esmerara-se e tinha passado um pano encharcado com água fervida com pétalas sobre o peito, estava prestes a enlouquecê-lo, o eterno cheiro a farinhas e farelos, em que vivia enfurnado, e a pestilência das ruas, quase que o tinham levado a esquecer o poder das sensações que, ao entrar pelo nariz, eram capazes de iluminar o cérebro. Nem mesmo os dentes escuros de podres lhe estragaram o sabor quente dos beijos, aquela rapariga sabia umas coisas, quem diria que a língua podia ir tão longe.

De repente, ele parou toda a sua lascívia e quedou quieto que nem pedra no monte.

– Cheira-me a queimado – disse Thomas com o nariz no ar.

– Deixa lá isso, não vês que somos nós que ardemos em paixão – respondeu ela, agarrando-o pelas costas e dando um jeito às ancas para que ele se entalasse ainda mais no seu corpo oferecido.

– Não, há qualquer coisa a arder.

– Isso é do pão. Não há-de ser nada.

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Mas foi! Nessa noite, por causa de um forno com pão queimado, Londres ardeu quase todinha.

Um ero-revisionismo, ao meu jeito, da História de Londres que na noite de 2 de Setembro de 1666, e por causa de um pequeno fogo na padaria de Thomas Farriner, ardeu quase na totalidade.

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One Comment leave one →
  1. minda permalink
    Julho 15, 2010 10:06 pm

    que deliciosa esta hisória… só mesmo essa tua cabeça criativa e meia louquinha conseguia escrever uma estória da história tão bem conseguida, tão divertida e tão certeira! parabéns! e… beijinhos

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