Skip to content

A Bela e o Monstro dos dias

Junho 13, 2010

 

Chegou a casa cansada de mais um turno da noite; a cama era a sua foz desejada. Novamente tivera uma noitada difícil, parecia que todos os deserdados, solitários e paranóicos com insónias do mundo formavam um exército uno para a atacar com os fantasmas de problemas minúsculos e de situação inauditas; chegava quase a acreditar que eles sentiam tudo aquilo, dores vindas do outro mundo, tal era a verosimilhança dos sintomas que lhe relatavam por telefone. Com muita paciência lá os acalmava, dava-lhes uma explicação técnica ligeira, numa espécie de placebo oral, e o pessoal sossegava, voltava a ficar aconchegado nos contornos difusos das suas próprias paredes, agora menos hostis. Por vezes, em dias com menos paciência, tal era avalanche de padecimentos chorados no auricular, lamentava que as antigas linhas eróticas tivessem caído em desuso; não só lhes faria bem aquele desabafo libidinoso, ouvir sussurros de um prazer encomendado, como também, provavelmente, a deixariam, a ela, um pouco em paz – quem é que depois de um bom orgasmo, mesmo virtual que fosse, se preocupa com problemas mesquinhos de saúde?!

Quando entrou no quarto, olhou para aquele que era o seu objecto de desejo e com o qual lhe apetecia enroscar-se de imediato; estendido na cama, solto, luminoso, fresco, de quem teve uma noite tranquila, parecia esperar por ela. Normalmente, passava pelo chuveiro em ritmo acelerado – para, assim, abrir as sensações da pele –, atirava-se para a cama, envolvia-se toda nele e deixava levar-se pelas profundezas de um prazer único: um sono leve e penetrante. Desde que perdera a cabeça por aquele conjunto de lençóis de cetim grená, contrariando todas as regras do bom gosto – que se lixe a ditadura do bom senso –, que as suas noites passaram a ser mais tranquilas e macias, especialmente depois de uma sessão de trabalho intensiva. Mas, naquela manhã, não ia ter essa sorte, uma chamada de urgência obrigou-a a preparar-se para sair de novo.

2593323

Depois de um banho rápido, desta vez não para embalar a derme, mas, sim, para a despertar, procurou a roupa necessária para sair. Felizmente que era organizada e ao abrir o roupeiro tinha, num só cabide, tudo o que precisava. Vestiu-se num instante, a prática já era muita, e escolheu o calçado apropriado, não servia qualquer coisa, toda a mulher sabia que sair à rua com sapatos não adequados à ocasião era como ir nua. Lá fora, a cidade teimava em pingar o cinzento que há dias não largava a paisagem, por isso, resolveu vestir a sua velha gabardine preta que quase lhe chegava aos pés. Abriu um novo armário e começou a colocar os objectos necessários ao trabalho numa velha mala de pele castanha, herança do seu querido avô, médico de província, onde ele guardava um autêntico consultório ambulante; felizmente que os tempos eram outros e ela precisava de pouca coisa. Preparada para a guerra, saiu.

Ao entrar no edifício, o segurança abriu-lhe de imediato a porta e indicou-lhe o elevador. Ela sorriu-lhe, não tanto pelo cumprimento, mas pela graça de ele lhe ensinar um caminho que já era seu velho conhecido. A entrada na sala foi antecedida pelo anúncio da secretária.

– Pode entrar, estão à sua espera – informou a funcionária depois de receber ordem pelo telefone.

Ela entrou. Lá estavam eles, uniformizados nos seus fatos cinzentos escuros, alguns de muito mau corte, e nas suas camisas brancas decoradas com gravatas luzentes, sentados à volta de uma enorme mesa quase nua, os tempos eram electrónicos e toda a informação necessária habitava nos pequenos monitores à frente de cada um.

– Desta vez demorou um pouco mais – comentou o líder, sentado no topo da mesa, confortável na elegância do seu fato de fino corte, a sobressair de toda a paisagem envolvente.

– Silêncio! – gritou ela. – Aqui quem fala sem haver ordem sou eu.

Numa perfeita mudez geral, ela despiu a gabardine, colocou a mala numa cadeira e retirou o objecto supremo para a sessão. Sem pedir licença, subiu para cima da mesa e caminhou. Os tacões finos das suas botas pretas de cano alto, até ao joelho, a bater no tampo envernizado era o único som que emergia na sala. Ao centro, parou e olhou para a população a seus pés, maioritariamente masculina, apenas uma ou duas mulheres para compor o ramalhete e dar um ar de modernidade; tinham todos um ar triste e abatido. Ainda que quase nua – apenas umas botas, um corpete de cabedal negro e umas luvas de renda preta revestiam-lhe a pele –, sentiu-se poderosa e mais protegida do que ninguém. Fez estalar no ar o chicote.

sedu2

– Então, parece que os meninos têm andado a portar-se mal – disse ela no fim da chicotada. – Merecem castigo. Ora, vamos lá começar. Já sabem, ao mínimo engano baixam as calças e vão sentir o peso da minha mão e deste meu amiguinho, já vosso velho conhecido.

Como um coro, bem afinado, começaram todos a entoar, dois vezes um, dois, dois vezes dois, quatro, três vezes dois, seis. Ainda não tinham chegado ao estribilho final do dois vez dez e já um elemento se enganara.

– Parece impossível! Logo o Primeiro a ser o primeiro a embarricar-se, até parece que gosta de ir ao castigo. E vocês, quem vos mandou parar? – gritou ela furiosamente, fazendo estalar o chicote de novo. – Continuem já ou daqui a pouco está tudo de joelhos a lamber as minhas belas botas de pele macia!

Enquanto o líder baixava as calças e se deitava sobre a mesa para receber a punição merecida, os restantes continuaram a entoar a sinfonia matemática. Ela preparou o chicote e suspirou de aborrecimento: estava a ficar um bocado cansada daquelas sessões no Conselho de Ministros.

Anúncios
7 comentários leave one →
  1. minda permalink
    Junho 13, 2010 8:51 pm

    Bau,
    como sempre fantasticas as tuas historias… a gente le de um folego como se bebesse um trago…

    ah… e os finzinhos!!! deliciosos!

  2. Anónimo permalink
    Junho 14, 2010 2:38 pm

    Muito bem escrito, parabéns pelo estilo linear e ágil nas palavras. Se me permite,
    chamar-lhe -ia mesmo ” Job for the Girl”…
    Muito bom.

  3. Junho 14, 2010 10:00 pm

    tu és terrível… verdadeiramente terrível…. mas escreves bem!!! que mal é que os ministros te fizeram????

  4. Junho 17, 2010 8:26 pm

    “a cidade teimava em pingar o cinzento que há dias não largava a paisagem” gostei desta.

    Então a senhora é mais uma praticante das medicinas alternativas? E também faz domicílios…

    Um achado a imagem dos ministros masoquistas. Se não são, bem parecem!

    Se não fosse pela obrigação do corpete e das botas de salto agulha, até eu lhes daria umas chicotadas nos Exmos…

  5. Bau P permalink*
    Setembro 14, 2012 6:32 pm

    Reblogged this on A Sombra das Imagens and commented:

    Pois, qual “Cinquenta Sombras de Grey”, qual quê! Estas Sombras são mais desvairadas.

  6. Anónimo permalink
    Setembro 14, 2012 7:49 pm

    Gostei, pois claro, e gostei também daquele comentário anónimo , diz aquilo que eu penso do estilo, linear e ágil, além de muitas outras coisas interessantes.
    Maria

Trackbacks

  1. Os números de 2010 « A Sombra das Imagens

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: