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Lugares (2) – Austrália – Nas Nuvens

Abril 10, 2010

Depois de ter andado a mostrar o pirilau em terra de cangurus (ver aqui), só podia mesmo ir às nuvens na cena maior da fantasia erótica: uma aventura com uma hospedeira, melhor duas, em pleno voo. Não acreditam? Passo a explicar.

A aventura começou logo ao pisar solo Australiano, mais propriamente Darwin. Ao chegar ao aeroporto, fui para a fila eterna do controlo de fronteira, preenchi o papelinho a contar a história da minha vida, que deve ir para um monte que depois ninguém liga, juntei o passaporte e o comprovativo do visto electrónico, e entreguei à linda australiana, loura pura, juro, que estava no respectivo guichet. Qual não foi o meu espanto, quando a outrora cara laroca se transformou em algo sisudo e me pediu para a acompanhar a uma sala. De repente, vi-me fechado num cubículo, sem janelas, com uma secretária e 2 cadeiras. Mandaram-me esperar. Passou-me tudo pela cabeça, que algum membro da Al-Qaeda devia andar com documentação minha, que ia direitinho para Guantánamo enquanto o diabo esfrega um olho, sei lá. Em tempos, umas meninas em Roma cercaram-me no metro, fizeram-me umas festinhas, pensei que era algum número para animar o pessoal, e limparam-me a carteira com tudo. Agora, sempre que tenho um problema, penso que a minha documentação foi parar às mãos do maior bandido ao cimo da terra, daqueles que cospe fogo e tem cicatriz na testa.

Para agravar o meu desespero naquele espaço minúsculo, fiquei completamente só e sem nada, quem me acompanhava seguiu em frente no controlo, levando bilhetes de avião, mochila, tudo. Ao fim de alguns minutos surgiu um australiano, com cara de poucos amigos e perguntou-me o que vinha fazer à Austrália, como quem diz, ouça lá, o que vem um pelintra lá da fatia de cima aqui abaixo fazer? Lá lhe expliquei a componente da viagem, uma parte profissional, em território vizinho, e uma parte pessoal de lazer, passear na linda terra de sua excelência. Depois de todas as explicações, perguntei-lhe qual era o problema, ao que ele me disse que estavam à espera de um bebé de 2 meses e não de um calmeirão com 40 anos. Motivo, uma funcionária da embaixada em Portugal devia estar a pensar no macho lusitano com quem tinha dado uns passos de baile na discoteca na noite passada e, no campo da data de nascimento do visto, colocou o dia de emissão e não o momento em que vim ver como era o mundo. Moral da história, como o visto era electrónico, nos computadores deles estava assinalado a vinda de um bebé. Depois de alguns risos, tímidos da minha parte, e de uma certa conversa profissional, lá me deixou seguir. Quando, passado 2 semanas, voltei a ter que fazer o controlo de novo já foi uma festa, o homem não só me conheceu imediatamente, como parecia que estávamos amigos para a vida inteira, só faltou ir beber umas bjecas e comer uns torresmos de canguru.

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Antes de chegar a Sydney passei por Brisbane e foi, precisamente, no voo Darwin-Brisbane que tudo aconteceu. Estava eu a tentar dormir, para curar uma má disposição pela ingestão de umas sandes de folhas de não sei quê, dão cada coisa no avião que é de cair para o lado, quando senti uma pinga a cair na cara. Mau, será chuva, será gente, gente não é certamente e a chuva não bate assim, pelo menos dentro de um avião. Fui ver. Um líquido castanho pingava do tecto do avião e, além de me ter interrompido o sono, já me tinha sujado a camisa. Chamei de imediato a hospedeira que, mal viu o líquido, saiu a correr, disparada, para junto do staff. Vieram mais 2 tripulantes analisar a questão, olharam circunspectos, revolveram as bagageiras, mas não viram nada. Depois do 11 de Setembro qualquer coisa num avião põe as pessoas todas à beira de um ataque de nervos. Felizmente que a tentativa de atentado com líquidos ainda não tinha acontecido e não havia essa paranóia, senão ia ser o bom e o bonito. Mesmo assim, em poucos minutos estava instalada uma certa confusão controlada, o pessoal andava todo num sururu, mas tentava não dar nas vistas aos outros passageiros.

Passado algum tempo, vieram dizer-me que, do ponto de vista de segurança, estava tudo bem, que o Comandante não tinha detectado nenhuma anomalia, para estar descansado. Mas como podia descansar se estava a levar com aquela chuva miudinha de sabe lá deus o quê, ainda por cima a camisa estava suja. Lamentaram que não me podiam mudar de lugar, nem passar para primeira classe, o avião estava cheio, mas para ir lá dentro para limparmos a camisa. Assim fiz, levantei-me e fui para um espaço reduzido onde as 2 simpáticas hospedeiras, uma pela frente e outra por detrás, tentavam tirar as nódoas da veste. Quem passava, a caminho do wc, ficava intrigado ao ver 2 pequenas a esfregar os ombros de um marmanjo. Elas riam e diziam: Massage service! Tenho em mim que um pançudo, daqueles que anda lá pelo deserto australiano a pastar boiadas, até acreditou.

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O problema é que o liquido, com que me tentavam limpar, acabou por trespassar o tecido e começou a manchar também a minha linda pele, pelos menos assim o disse a menina mais loura, a que tinha na minha frente, e que espreitou, gulosa!, pela camisa bem aberta. A detrás, mulher mais madura e mais desenrascada, não esteve para menos, correu a cortina e pediu-me para eu despir a camisa. Primeiro, fiquei um pouco sem jeito, mas depois, o que tem que ser tem muita força, acabei por acatar o pedido e zás, lá fiquei em tronco nu, com 2 mulheres, uma pela frente e outra por detrás, com algodão a fazer festas na minha derme, no momento hipersensível, para tirar as manchas. E pronto, foi o mais próximo que tive da eterna fantasia de uma cena erótica nas alturas. Mal as manchas saíram, elas zarparam com a camisa, para a secar, deixando-me ali sozinho e desnudado a chuchar no dedo das imaginações. Quando, mais tarde, se abriu a cortina e eu estava a abotoar a camisa ao lado da menina mais nova, a outra já estava noutras tarefas, alguns sorrisos marotos foram lançados por quem presenciou a cena. Então, quando viram que ela me ofereceu uma garrafa de champanhe e um cheque oferta para fazer compras no free-shop, para compensar o incomodo, é que eles devem ter pensado o bom e bonito; sinto que por instantes fui promovido a Zezé Camarinha das nuvens.

Quando voltei ao lugar e me preparava para finalmente descansar – afinal ter uma aventura erótica em pleno voo, mesmo que apenas no domínio da fantasia, cansa, – reparei que havia um sururu mais à frente. Um jovem bastante avantajado, com um sotaque lá das beiras americanas, barafustava com o resto da maralha, penso que deviam ser uma equipa de desporto qualquer, por lhe terem bebido a garrafa XXL de coca-cola que ele guardara na bagageira – na altura ainda era possível viajar com líquidos. Who was the funcking guy? Berrava ele. Não é por nada, mas quase que tive para lhe dizer que tinha sido eu, ou melhor, a minha camisa, gulosa como era tinha mamado para aí meia garrafa, mas depois, a avaliar pelo cabedal, achei que não devia ter muito sentido de humor.

Momento Calimero: Se a porra da garrafa estava a uns bons lugares à minha frente, porque raio, ao entornar o líquido, tinha que vir por ali direitinho a mim, um entre 300 passageiros? Não podia cair logo no lugar que estava imediatamente por baixo? Não, o líquido teve que se infiltrar e vir ali todo catita, feliz, a azucrinar-me a cabeça – olha ali um morcão português, bora dar-lhe cabo do juízo. – E depois ainda dizem que não ando com uma nuvem sobre a minha cabeça, claro que ando, nem que seja feita da água suja do capitalismo.

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Momento Calimero 2: Fui visitar o casino em Sydney e joguei nas máquinas. Não troquei muitas moedas, que eu nestas coisas sou muito seguro, mas todas as que meti foram engolidas pela máquina sem ter sequer um gesto amigo de me ter dado um brinde, mínimo que fosse. Esgotado o saldo, levantei-me e disse à pessoa que chegava: mete na minha, pode ser que agora dê alguma coisa. E não é que deu?! Não foi nada do outro mundo, mas logo à primeira vomitou uma quantidade enorme de fichas que se traduziram numa razoável quantia de dólares australianos. Nem tudo foi mau, à pala disso, nesse dia almocei de borla.

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Momento Calimero 3: O Hotel em Sydney era muito bom, ficava na zona do Rock’s, com vista para a Ópera, mas, na altura da reserva, por ser muito caro optei por não incluir o pequeno-almoço, melhor seria vir cá fora comer qualquer coisa num dos muitos bares à volta. No último dia, por estar cansado e me apetecer voltar ao quarto depois de comer, resolvi tomar o pequeno-almoço no hotel, que se lixem os dólares, pensei. Então não é que, ao entrar, fui informado que havia uma promoção cortesia do hotel e que durante aquela semana estavam a oferecer a dita refeição. Ou seja, podia todos os dias ter comido como um príncipe, poupando inclusive o almoço, porque realmente era majestoso tudo o que havia disponível, mas não, andei a gastar os preciosos dólares em meias-de-leite e torradas manhosas nos bares da movida, ao lado do maralhal jovem que, provavelmente, estava ainda a fechar a noite.

E pronto, conjuntamente com a do Nudismo, estas foram as aventuras mais sui generis, e contáveis, claro, que me aconteceram por terras de Crocodile Dundee. Apesar de tudo, é um lugar onde voltava.

Numa altura em que vou partir para partes menos certas, e menos dadas a aventuras naifs, nada melhor do que revisitar aquelas onde ficaram pedaços felizes de nós.

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Inté!

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2 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Outubro 29, 2012 12:49 pm

    Que bom!! Já decidi, depois de Singapura será a Austrália quando o euromilhões der à costa , ou seja, nunca :). Essa cena das máquinas engolidoras de moedas, aconteceu-me em Madrid por duas vezes. Adoro a noite madrilena e quando lá ia , duas vezes por ano, além de flamengo e muitos petiscos pela noite fora, havia noites em que a cama nem me via, jogar naquelas salas enormes era um gozo. Depois de gastas as moedas numa máquina em que parecia sempre que estava quase, o parceiro que veio a seguir gozou à brava à minha conta. Histórias de viagens, não é original, a Maria Vieira fez, mas parece-me que as suas serão bem mais interessantes, sobretudo aquelas que não se podem contar 🙂
    Maria , pois claro …

    • Bau P permalink*
      Outubro 29, 2012 8:39 pm

      Pois as que não se podem contar, dessas dava mesmo um grande livro 🙂 mas são esses detalhas que marcam os lugares, pois monumentos há em todo o sítio.

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