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A Pornografia das Ideias – (o regresso)

Março 28, 2010

Prazer, o verdadeiro combustível do ser humano. Mais do que um simples sentido, vários são os trilhos para ele se mover. O problema é que a fronteira entre a plenitude do saciamento e o abismo é quase um mero pormenor.

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Ele chegou a casa mais ansioso do que era habitual. Não era de estranhar, o simples facto de estar na expectativa da grande festa que ia acontecer à noite deixava-o nervoso, inquieto, mal tinha dormido a imaginar tudo o que ia acontecer, parecia uma criança em véspera de natal. Não perdeu muito tempo em deambulações domésticas, raios parta esta coisa comezinha da casa que nos consome o resto da luz dos dias, foi de imediato para o banho.

Deixou a água, bem quente, cair sobre o corpo numa espécie de terapia dos sentidos, sabia que não havia nada como aquele líquido natural para despertar a pele ao prazer, como se os poros se equipassem com uma espécie de sensores do deleite. Lavou bem as partes mais íntimas, talvez até com algum exagero, mas naquela noite queria estar no seu melhor. Enquanto se esfregava, pensou no evento que o esperava e imagens luxuriosas invadiram-lhe a mente, em jeito de alucinação pornográfica. Excitou-se. Como um adolescente, sentiu uma vontade enorme de saciar já ali o prazer, mas travou o ímpeto, não ia gastar energias, queria estar bem vigoroso no festim que o esperava dentro em pouco.

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Saiu do banho. A nuvem de fumo do vapor de água quase que não o deixava encontrar a toalha, tinha estado tempo demais naquela deleitação húmida. No quarto, procurou a roupa que havia de vestir, escolheu uma que guardava para ocasiões especiais, achava que o beneficiava, e na idade que já carregava qualquer coisa que o favorecesse era muito importante, a maldita barriga, que não havia meio de baixar, e o cabelo a rarear, por certo, não eram lá grandes ícones de sedução. Quando vestiu a primeira peça, uns boxers de marca, riu-se para ele mesmo, que raio, porque estava com todo aquele cerimonial de guarda-roupa se, ao chegar lá, era tudo para despir de imediato?! Mesmo assim continuou o ritual de vestir todo um conjunto de roupa de bom gosto, peça a peça, até uma echarpe masculina enrolou ao pescoço, de linho cru com umas riscas vermelhas e azuis, agora os homens têm estas mariquices para parecerem modernos e ele queria dar um ar de muita juventude. Antes de sair, foi à gaveta dos medicamentos e escolheu aquela pílula milagrosa, apesar de se sentir com todas as forças do mundo tinha que estar prevenido, não fosse a coisa ficar um pouco pesada e ele fraquejasse.

A ideia do tudo o que o esperava não o largava, quase obsessivamente, não conseguia deixar de pensar, num só minuto, na folia que ia ter. No metro teve mesmo que abotoar o casaco, as malditas calças clara deixavam escapar um volumoso contentamento que estava a chamar à atenção, a última coisa que queria era ter um tarado qualquer a persegui-lo, apesar de tudo, ele era um homem decente e de princípios.

Ao chegar, Madalena, uma velha sua conhecida, abriu-lhe a porta.

– Bom dia senhor engenheiro, o quarto púrpura já está preparado, está tudo à sua espera – disse-lhe ela em forma de cumprimento.

Ele dirigiu-se de imediato ao referido compartimento, sem mais conversas, abriu a porta e pôde contemplar o faustoso espectáculo lhe era oferecido, um desfile enorme de volúpia aguardava a sua entrada. Despiu-se. Ao sentir-se completamente nu, olhou de novo para todo aquele bacanal, a tentar ver por onde começar, qual delas, a mais sedutora, a mais farta, o chamava primeiro. Não perdeu mais tempo na escolha, atirou-se de cabeça e mergulhou naquele mar de prazer e ignomínia pecaminosa.

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Flashes de deleite puro invadiram-lhe a mente, como se de repente fosse atingindo por um raio supersónico de orgasmos, sentir aquelas texturas todas nas mãos, na pele, e aqueles sabores intensos na língua deixavam-no completamente fora de si. Aos poucos, foi-se acalmando e pode começar a degustar com maior requinte todo aquele fausto manjar. Tartes cremosas e belas, tortas de sabores múltiplos, carnes assadas com os melhores dos temperos, molhos divinais, iguarias de todos os feitios estavam ali, naquela mesa farta e plena, para ele se espraiar e deglutir em pleno.

Passado algum tempo, aquela que fora uma mesa composta com um manancial imenso de comida de excelência, cheia de cor e de paladares, foi ficando descomposta, caótica, numa espécie de ruína gastronómica. Ele, como um animal insaciado, comeu, provou, cuspiu, enrodilhou-se naquela paisagem de calorias, até não aguentar mais, a sua barriga, já proeminente por defeito, parecia agora que ia explodir. Era um homem feliz.

Depois de se ter rebolado todo naquele altar nutritivo, o seu corpo parecia uma escultura com restos de comida pegados em todas as partes, e de ter desfrutado de todas as iguarias, começou a sentir-se um pouco enjoado, como sempre comera mais do que devia, já não tinha idade para aquelas aventuras, bem que o seu médico o mandou ter cuidado com o colesterol. Felizmente que tinha no bolso do casaco a pílula milagrosa, o seu Kompensan, que o ia voltar a pôr no ponto de exacto, de forma a volta para a mesa e começar o banquete de novo. Para a próxima tenho que pedir à Madalena para não pôr tanta pimenta na vitela, dá-me cá uma azia.

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2 comentários leave one →
  1. Março 28, 2010 9:43 pm

    Por enquanto, a gula ainda não é tão penalizada quanto a luxúria. Mas lá chegaremos. As companhias de seguros tratarão disso.

    E, nos tempos que correm, os prazeres solitários sempre são um pouquito mais seguros.

    Abraço.

  2. Março 31, 2010 2:49 pm

    Ohhhh !
    Bem, espero que a vitela, a galinha e a vaca sejam maiores de idade e a prática tenha sido con.sensual… 🙂
    Há taras piores, há taras perdidas ! lol

    beiju !

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