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Coisas da Escrita – Ajuste de contas

Março 21, 2010

Escrevo para me encontrar com os outros e me desfazer aos poucos. Sempre que esta frase se solta, sinto um desejo enorme de me fustigar por ela aportar em mim um sentimento miudinho de inveja e de raiva, quase que matava para ter sido eu o seu autor. Quando Baptista Bastos a escreveu nos anos 80 no belo livro Elegia para um Caixão Vazio, nunca pensou que estava, qual máquina do tempo, a retirar dos meus dedos aquilo que é para mim a mais perfeita definição da escrita. Já nem sei quem devo açoitar, se a mim, pelo pecado mortal, se o BB por me ter “roubado” a enunciação do que são as palavras no meu escrevinhar.

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Aviso à navegação, este texto não é recomendado a quem vem, ou costuma vir, pelas alucinações semânticas, as historietas subversivas, a análise de pacotilha ou o humor apalermado, isto vai ser uma seca de um ajuste de contas com a escrita e o maldito tempo. A sua leitura pode, inclusive, provocar sérios danos a nível da disposição. Consulte o seu médico antes de prosseguir.

A primeira demolição que fiz de mim, através do rasgo aparentado de literatura, foi aos 12 anos com uma peça de teatro. Não que fosse um génio, não era, mas porque tinha que me salvar, ou seja, que não houvesse um desencontro com os outros. Ia o ano de 75 e quis um conjunto de professores de português organizar um festival de teatro na escola preparatória. Foi pedido aos alunos de cada turma que preparassem umas pequenas peças, trabalho de grupo, para que a melhor da classe fosse representada nesse tal mini-festival. Para mal dos meus pecados calhou-me a Gata Borralheira e o maldito papel do príncipe.

Primeiro, fiz um esforço enorme para convencer o gupo que a Cinderela fosse a menina mais gira, pelo qual tinha um fraquinho, queria lá eu que me calhasse um peso pesado que lá andava e que me esmagava sempre que se sentava ao meu lado, depois fiquei em estado de choque quando vi o guarda-roupa que as colegas, sempre muito voluntariosas nessas coisas, me arranjaram: uma túnica roxa, restos de uma procissão do senhor dos passos, uma capa e, ó inclemência, uns lindos collants verdes. Aparecesse eu assim vestido em palco e seria o gozo para toda uma eternidade, na escola, na cidade e em Marte, caso acompanhem este reality show que é a Terra. Só havia uma solução, mudar o raio da peça.

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Cheguei a casa, saquei de umas folhas e zás, num instante, escrevi uma peça chamada Os Camponeses. Tinha uma duração curta, talvez 10 minutos, poucas personagens, cinco, e, creme de lá creme, só uma era masculina, feita especialmente para mim, eliminando, assim, logo a hipóteses de uns colegas ranhosos, que me andavam a consumir por causa dos collants, entrarem no meu universo. Já não me lembro do que tratava o enredo, sei que havia uma grande discussão entre pai e as 3 filhas, a mãe tentava pôr caldo na fervura, e no fim um 13 no totobola resolvia tudo. Uma digníssima comédia de costumes, segundo os entendidos.

Quando mostrei ao professor pensei que ele me ia mandar às urtigas, já havia trabalho feito e não era tempo para despautérios de franganotes armados em autores, mas, para meu grande espanto, o homem não só adorou como arrumou logo com todas as outras, não valia a pena perder-se tempo a fazer escolha a interna da turma, aquela era a indicada. Claro que ele fez uma boa revisão e a coisa ficou muito melhor. A única selecção que se fez na turma foi a escolha dos actores, a mim coube-me o privilégio de ser a única personagem masculina, por alguma coisa era o autor, e a mais 4 moçoilas espevitadas foram-lhes dados os papéis da mãe e suas filhas. O mundo não é perfeito, a menina dos meus olhos, para quem eu tinha escrito o papel da mãe, não foi escolhida. A cena em que havia um forte abraço entre pai e mãe nunca mais viera a ser como eu a tinha imaginado. Autor sofre!

Os ensaios correram com normalidade e peça lá estreou no tal desfile escolar de teatro. Desse momento, lembro-me apenas de 2 coisas, de estar aterrorizado antes de entrar em palco, só mesmo com os fortes risos da plateia perante as discussões das personagens consegui acalmar, e de a maldita escoltêra não partir. Na peça, havia uma cena em que uma cafeteira de barro, escoltêra no Alentejo antigo, era tirada do armário para se fazer café ao lume e caía estrondosa no chão, estilhaçando-se em mil pedaços e dando origem a uma correria entre pai e filha, a fim de ele lhe assentar umas boas palmadas, bem educativo o enredo, como se pedia, só que a porra da chocolateira caiu mas não se partiu, o que, continuando intacta, impedia o desenrolar do resto da trama. Só havia uma solução, corri para o objecto, já no chão, e dei-lhe um forte pontapé, provocando, assim, os cacos necessários ao desenvolvimento da trama. O que se seguiu foi puro surrealismo, eu corria atrás da filha para lhe bater, por ela ter partido a jóia da baixela da família, quando na verdade tinha sido eu a fazê-lo. Ora digam lá se aquilo não era coisa de grande nível cultural?! No fim, fortes aplausos e a eleição da melhor peça do sarau, tanto que a escola a escolheu para um festival de teatro amador que havia na cidade, em que vinham companhias de vários pontos do país. Quis, depois, a inquietação política daquele verão bem quente que tudo fosse cancelado no próprio dia, uns tumultos que ocorriam algures em Portugal, que eu nem percebi, travaram todo os espectáculo. Foi assim, que o meu primeiro pedaço que se desfez.

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Esta aventura criou-me o bichinho da escrita e comecei a escrevinhar coisas, primeiro à mão e depois numa máquina de escrever. Lá para os meus 14/15 anos escrevia historietas de aventuras, uma espécie de imitações idiotas dos Cinco e dos Sete da saudosa Enid Blyton, e umas coisas tipo folhetim para contentar uma prima que se tinha tornado a minha grande leitora. Sentada na soleira da porta ela ficava à espera que eu acabasse a folha para devorar o destino seguinte do casal que vivia as agruras de uma paixão dolorosa como calco renal.

Esta minha mania de virar as histórias ao avesso não vem de agora, um dia passei-me dos carretos e fiz uma reviravolta tal no enredo, acho que no fim tudo aquilo era uma ilusão psicótica e não se tinha passado nada, o que fez com que ela, a tal prima, entrasse porta adentro, em estado quase histérico, me ameaçasse em rasgar o que tinha escrito e ordenar-me que refizesse o final, não estive todo este tempo a ler isto e agora era tudo uma mentira, dá lá um destino decente à Mónica e ao Paulo e que seja feliz de preferência. Pois é, eu também tive a minha Kathy Bates muito antes de Hollywood se ter lembrado disso. Vendido, era rapaz de grandes princípios, fiz logo cedências, não estava para andar sempre a reescrever a toda a hora, e comecei a pôr aquilo ao jeito que eu sabia que ela gostava. No papel ficava uma coisa, mas na minha cabeça outra, mais pérfida mais nonsense. Autor sofre!

A suposta asfixia democrática-literária não impediu a minha escalada nas cordilheira das palavras, continuei a escrever, a escrever, experimentei todos os géneros, poesia, conto, novela, romance e até ensaio, mas foi na parte de guião cinematográfico que acabei por me fixar. Normalmente nas férias escrevia sempre um argumento para um filme, Vento que não soprou, Paisagens de um Verão e Sombras foram alguns títulos deste cinema imaginário. A coisa só ganhou algum alento quando ao mostrar o Sombras a um colega, já no ensino superior, ele roubou-me o manuscrito e resolveu mostrá-lo a um encenador teatral conceituado da praça. Mas uma vez morri na praia, o homem gostou, chegou a falar comigo, disse-me que mesmo sendo escrita para cinema dava uma boa peça de teatro, aliás seria mais esse o seu destino dado que a sétima arte em Portugal era uma coisa sem vida e que dificilmente se conseguia fazer alguma coisa. Mas eu, na arrogância dos meus 19 anos, achei que aquilo era puro cinema e não dramaturgia, encolhi os ombros e tudo ficou em águas de bacalhau.

writer

Ainda escrevi mais uns quantos, quase todos incompletos, por onde andarão essas páginas?, mas aos poucos fui desistindo. Podia dizer, para dar um ar mais poético-erudito, que o turbilhão da vida, nas suas arestas profissionais e sentimentais, engoliu o aprendiz de escritor, mas penso que não, ou pelos menos não terá sido só isso, outras 2 grandes razões afastaram-me da escrita.

A primeira teve a ver com a consciência que fui ganhando, ao longo do tempo, sobre a falta de domínio da língua. O facto de ter tido um péssimo ensino de português no secundário, maldito unificado experimental, que não me deu conhecimentos técnicos suficientes, olha o queixinhas, aliado à descoberta de leituras mais elaboradas, em que comecei a verificar o quanto de complexo é esta coisa das palavras, levou-me a começar a ter vergonha do que escrevia, aquilo que parecia muito bom era apenas uma réstia de esboços medíocres literários.

A segunda, talvez determinante, tinha a ver com uma aparente trapalhice ou distracção, como costuma ser apelidado. Depois de escrever uma coisa que me parecia bem aos meus olhos, ao fazer uma releitura passado algum tempo, verificava que estava cheia de gralhas não detectadas nas primeiras revisões, erros de concordância de palmatória, com troca de género e de pessoa, palavras fantasmas, não estavam lá mas eu li-as ao rever, palavras mutantes, em que trocava ou fundia sílabas de 2 palavras criando um novo vocábulo, palavras desobedientes, que ficavam fora de ordem, e palavras praga, de repente ficava refém de um termo qualquer e repetia-o incessantemente no texto sem dar por isso. Depois de muito arrancar os cabelos, nos tempos em que podia ser modelo da Vidal Sassoon, e antes que caísse no divã para dissecar qual subconsciente é que morava por cá, para me atraiçoar desta maneira, descobri uma coisa terrível, era disléxico. Afinal quando trocava o masculino pelo feminino, ou o contrário, era porque o cérebro fazia uma associação à imagem da sílaba seguinte, e não porque houvesse em mim uma qualquer falta de identidade sexual. Ufa, que alívio!

Disléxico! Que fazer? Como fui infectado com este vírus das letras com nome de jogador de futebol vindo do Coríntias? Como não se descobriu logo de início, antes que eu tivesse contaminado resmas de papel? Será que não era engano?, eu até tinha tido boas notas durante o processo de aprendizagem. Bom, para não cortar os pulsos o melhor era parar com esta coisa da escrita criativa e ficar só pela lavra profissional que, ao estar mais relacionada com números, saía sempre bem.

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E quando o mundo já tinha ficado em paz sem a poluição dos meus escritos, eis que resolveram criar esta gerigonça das janelas electrónicas em que cada um se pode assomar e berrar o que lhe vai na alma. Blogues, pois então! Achei que era um bom desafio e uma boa terapia, o facto de escrever, publicar e de estar sempre a abrir a porra da página, obrigava-me a ir prestando atenção aos dislates e a corrigi-los.

Assim, nasceu no ano da graça de 2006 o blogue Imagens Caídas no Sol de longe memória. Aquilo que era para ser uma terapia em dois sentidos, a de dislexia e a de estados de alma, deixa-me lá mandar para aqui umas larachas existencialistas, acabou por ganhar vida própria, ter alguma atenção e seguir o caminho do burlesco. Pior ainda, para serem fofinhos comigo, vamos lá incentivar o rapaz que parece ser boa pessoa, desataram a dizer que gostavam muita da escrita e até, ó insensatez, me chamaram de escritor, há gente que precisava mesmo de ser chicoteada em praça pública em nome do bom gosto literário.

Foi, então, o bom e o bonito, além de explodir em escritas no blogues – rei do lençóis foi um dos títulos que me deram, e este aqui já vai bem longo, desgraçado de quem o tiver que passar a ferro, – destapou-se a caixa de Pandora e as historietas que andavam cá todas presas nos catacumbas do esquecimento libertaram-se, qual revolução bolchevista, e tomaram conta das fábricas e campos do meu escrever. Contos, mini-romances, novelas de absurdo, ensaios delirantes, projectos de filmes e romances depressa encheram a panela dos bytes das novas gavetas, esta memória electrónica em que passámos a guardar o entorpecimento dos dias.

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Sobre romances, quis o destino que o autor novamente chamasse Calimero para entrar em cena. Em 2007 escrevi, ou melhor despejei, um romance de supetão. As ideias fervilhavam e tinha que escrever aquilo compulsivamente, sem grandes revisões nem reflexões, isso era para depois, numa espécie de transe em que tinha que soltar cá para fora os espírito das ideias ficcionistas que me possuíam. Pensei inclusive fazer uma coisa que nada tinha de original mas que poderia ser em engraçada, tendo em conta que o enredo abordava o universo dos blogues, criei, nesse mesmo ano, um outro blogue com o nome do romance para lá colocar supostas denuncias, eram de ficção mas seriam apresentadas como se fossem reais, dando, assim, a ilusão que o que se lia era verdadeiro quando não passavam meras partes do romance. Digamos que seria uma espécie de Blair Witch Project mas em versão literária. Perceberam? Eu também não. Só que, quando ia iniciar a brincadeira, eis que surgiu um clone, a minha personagem chamava-se O Mensageiro, mas quando criei o nick só registei Mensageiro, resultado apareceu um outro com o verdadeiro nome o que depois dava uma grande trapalhada. Acabei apenas por colocar rascunhos de capítulos, sem grande revisão, no blogue do romance, bem como no meu principal (Aqui Aqui).

Mas o pior estava para vir, escrevi o romance todo, sem revisões, e meti-o na gaveta electrónica, era um policial subvertido, crónica de costumes sobre o nosso cantinho, e dei-lhe um nome, chamava-se A Fúria de Deus. Qual não é o meu espanto quando em 2009 sai publicado um outro, e com grande sucesso, chamado A Fúria Divina. Tristes coincidências, não são?! O enredo nem tem nada a ver, e nem há qualquer polémica no assunto, mas face à proximidade de nomes se a coisa já era para a gaveta, agora é para um baú, bem trancado e a fazer companhia ao Titanic. Para os mais corajosos, se quiserem dar uma espreitadela no minha gaveta exterior, onde ponho os delírios ficcionistas a arejar um pouco, podem aqui  ver o primeiro capítulo.

Agora, que já escrevi mais 3 romances (ainda que incompletos) só estou à espera que venha por aí outro best-seller famoso que, apesar de ser diferente, lá traz a porcaria de uma coincidência que vai tirar a piada toda ao que este ilustre amador possa ter feito.

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E é com este mais desabafo de Calimero que encerro o meu ajuste de contas. Não sei se me desfiz mais um pouco, provavelmente nem me encontrei com ninguém, tal a seca das palavras que passaram por aqui, mas, mais uma vez, acho que me vesti com palavras para me despir por detrás delas. Bom, ao menos esta frase de striptease literário já o Baptista não a leva, é minha, muito minha e só minha.

Acho que até já estou a espirrar com toda esta nudez cheia de correntes de ar.

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5 comentários leave one →
  1. Março 22, 2010 12:59 pm

    Linda história de um Bpzinho12 que cresceu e se transformou num Bp63… lol
    Isso dos clones e coincidências tem muito que se lhe diga… há quem se vista das palavras dos outros e “viva” da criação alheia.
    Mas quanto ao nome do romance, supera-te a ti mesmo e dá-lhe um nome ainda mais forte !
    beijo

  2. Março 24, 2010 12:15 pm

    «para serem fofinhos comigo, vamos lá incentivar o rapaz que parece ser boa pessoa, desataram a dizer que gostavam muita da escrita e até, ó insensatez, me chamaram de escritor» Mas quem é que teve a ousadia de dizer uma alarvidade dessas? Sim, quem? Mas isso é coisa que se diga? Espera…eu acho que disse isso. Raios! Esquece lá isso que eu posso ter dito. E mais, se o disse é porque estava a delirar. Não o disse certamente por causa disso do ‘fofinho’, bolas!
    O que te posso dizer é são muitas as ‘primas’ sentadas à soleira da tua porta virtual, desejosas de ler o que vais escrevendo. Por isso, ide e escrevei mais uma página
    Abraço

  3. Março 24, 2010 9:29 pm

    Nos meus primórdios por aqui, fui saltando de casa para casa, ora lendo ora fugindo, e comecei a catalogar os habitantes: os desabafadores, os bota-abaixo, os analistas, etc.

    Marquei os interessantes, continuei a cirandar, e um dia tropecei na sua peça da equipa de televisão que vai relatar o desastre na aldeia. Lidos os primeiros parágrafos pensei:”Eh pá! este gajo escreve bem!” Fiz scroll até ao fim e parei de ler. Voltei no dia seguinte, com TEMPO.

    E, até hoje, todas as visitas a esta casa foram sempre assim. Vejo o tamanho, e se não for um “amuse bouche”, volto quando tiver tempo para apreciar a comida. Pratos gourmet não se tragam, degustam-se.

    Se o romance tiver que sair, sairá. Até lá ” ide e escrevei mais uma página”.

    Abraço

  4. Anónimo permalink
    Outubro 21, 2012 10:35 pm

    Não sei o que diga… acho que fiquei pior e com mais vontade de reiterar o que estou farta de dizer.
    Maria

    • Bau P permalink*
      Outubro 22, 2012 6:55 pm

      Uma vez escrevi: Escrever para não enlouquecer. – acho que é isso 🙂

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