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A Valsa dos Namorados

Fevereiro 13, 2010

Um dia ela chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, para seu grande espanto não sentiu o cansaço da ferroada das horas a fio à frente de um trabalho agreste; ganhou, inclusive, vontade de fazer uma coisa muito peculiar, aquela que adornava as suas fantasias há muito.

Corset-BryonPaulMcCartney-Switzerla

Ainda antes de despir a roupa, que tresandava à dolência dos seus dias, dirigiu-se à cozinha e começou a preparar o prato que ele mais gostava: lombo de lagosta com um molho de francezinha especial, um petisco que tinham provado, ainda no tempo das paixões quentes no corpo, num pequeno bar junto à praia, e que ela conseguira apropriar à sua maneira. Mas naquele dia, a adaptação tinha que ser de excelência, uma sensação sem igual que o deixaria perfeitamente atordoado. Pegou nas ervas todas, que secretamente coleccionara para o momento, combinou-as no tal molho que só ela sabia fazer – e que a ele o levava à loucura, quando essa demência explosiva de afeição ainda fazia sentido –, e deixou que a alquimia dos sabores fizesse o seu caminho.

– Não sei se não exagerei na dose – comentou ela, para si, ao sentir um aroma forte no molho; um pouco mais de amido de milho e, por certo, contrariaria o efeito.

No fim, sentiu-se orgulhosa de seu preparado, olhou para ele como o artista contempla a sua obra depois do impulso da criação. Então, dirigiu-se ao quarto, e fez-se bonita como há muito não ousava ser, escolheu um vestido preto decotado, já enfadado de guardado, pintou os lábios de uma cor bem forte, como se quisesse marcar alguém de beijos, e soltou o cabelo num movimento de fúria libertadora. Olhou-se no espelho e amou a paisagem.

Hel-LadoAlexi-Germany

Antes que o marido chegasse, arranjou a mesa, colocou a toalha de linho bordada – lembrança da sua avó –, os pratos de porcelana bem antigos, já perdera a noção que parente os usara em primeira mão, e foi buscar uns castiçais, prenda de casamento guardada e nunca usada, para acender umas velas de aroma agradável que comprara por comprar, naquelas seus passeios da hora do almoço para matar o tempo antes da própria tarde a abafar.

Quando ele entrou, encontrou a mulher sentada no sofá, de perna cruzada, com um sorriso doce mas nervoso de quem o esperava ansiosamente. Achou estranho todo aquele cenário, havia dias que nem davam um pelo outro, mas resolveu não questionar, dirigiu-se a ela e tentou beijá-la – o que quer que fosse havia que agradecer –, só que foi interrompido no gesto. A mulher voltou-se, subiu o cabelo e ofereceu-lhe o pescoço.

– Ajuda-me a colocar isto – disse ela ao lhe entregar um colar de pérolas que herdara da mãe. – Nunca consegui atinar com este fecho.

Como uma criança a quem se mostra uma brincadeira, conduziu-o para a mesa e sentou-o. Sem dizer palavra, foi buscar a lagosta e o molho, que reaqueceu rapidamente, e serviu-o. Beijou-o – as marcas de batom nos lábios dele, como se ele próprio os tivesse pintado, não mentiam – e levou-lhe à boca a primeira tranche de lagosta bem envolta no molho suculento.

Untitled13

Ela saiu para a rua e começou a rodopiar, não havia música mas ouviu violinos ao longe. Era noite, mas sentiu na pele o calor imenso de um sol brilhante que a cumprimentava; não fora o pudor da vizinhança e era mesmo nua que dançaria. Abraçada a ela própria, anunciou-se livre.

Lá dentro, ele agonizava estendido no chão o veneno, carinhosamente preparado num molho picante, que lhe apoderava o sangue e o fazia estilhaçar por dentro em dores estridentes de asfixia. Nos pouco momentos em que ainda teve alguma lucidez, tentou chamar por ela, a companheira de todos os seus dias, mas não teve sucesso, apenas estremeceu, em jeito epiléptico, e tombou no solo, arrastando com ele a toalha e todo a bonita composição da mesa. Amaldiçoou a hora em que ingerira a lagosta; sempre se disse que o marisco, por vezes, é fatal.

****

Apesar de tudo, uma homenagem surrealista, mesmo que enviesada, à linda Valsinha do Chico Buarque. Como contraponto sexista, um outro prato, mais rápido, nesta nesta sala .

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7 comentários leave one →
  1. Kurioso permalink
    Fevereiro 16, 2010 10:27 pm

    E o céptico sou eu!

    Então e os passarinhos, e a Primavera, e o “Love is in the air”?

    Você “surrealisa” o fracasso das relações, e eu gostaria de saber os porquês.

    Porque é que numa época de liberdade e igualdade tantas raparigas se deixam abusar pelos namorados (http://familia.sapo.pt/artigos/actualidade/noticias/1015198.html)?

    Até que um dia se fartam…

    Abraço.

    • bp63 permalink*
      Fevereiro 22, 2010 8:01 pm

      Kurioso

      Disse bem, surrealista. Era apena isso, uma bricadeira metafórica sobre o fim das relações, também pode haver romantismo em saber colocar um fim :).

      A questão que estava aqui era apenas isso, até que ponto sabemos colocar um fim numa relação que se apagou e se soubermos porque não fazê-lo em grande estilo 🙂 metaforicamente falando, claro.

      Abraço.

  2. Anónimo permalink
    Fevereiro 22, 2010 12:59 am

    Estou a colocar a leitura em dia…e não gostei ! Não gostei mesmo !

    Nós mulheres não somos viboras…só se nos fizerem muito mal ! E esse desgaçado para merecer um molho desses , deve ter oferecido á dita cuja esse “molho” diáriamente sem efeitos mortais …mas piores ! 🙂 Molhos de tortura emocional ! Os homens são peritos nisso :))) Não tem efeitos visiveis , mas mata .

    Ok ! Estou zangada … a sério . A imagem que tens da ala feminina , está proximo de algo sanguinário ! 🙂

    Agora vou estar atenta , até ver aqui um texto bem bonito , escrito com alma, para as mulheres !

    Meio Beijo e mal humorado ! 🙂

  3. Paula permalink
    Fevereiro 22, 2010 1:01 am

    Claro que esse anónimo sou eu ! 🙂 A irritação foi tanta…

    • bp63 permalink*
      Fevereiro 22, 2010 8:08 pm

      Paula

      Não precisavas de esclarecer o anonimato pq eu topava logo 🙂

      Está muito enganada quanto à imagem da ala feminina, pelo contrário, é uma homenagem às mulheres e à classe em pôr um fim.

      Tem que ver isto como uma metáfora. É fácil ganhar uma relação, construi-la até e também perde-la, mas o difícil é mesmo saber colocar um fim. A relação entranha-se tal forma, como um vírus, que mesmo quando acaba ela permanece cá dentro, nas suas ramificações, assim preferimos deixa-la definhar a pôr um ponto final. O conto falava sobre isso, saber colocar um fim na coisa e ainda por cima com grande estilo 🙂 uma simples metáfora ironia, nada mais.

      Bjs

      PS: Sabes que a versão inicial era ao contrário, o tipo é que fazia a despedida em grande, mas depois começou a ficar demasiado negro sem piada, sem ironia, com uma carga de violência doméstica que, invertendo os papeis, não tem, pois a mulher consegue dar um lado mais vamp ao assunto realçando melhor a ironia que se pretendia.

  4. Paula permalink
    Fevereiro 22, 2010 10:08 pm

    :))

    Eu deveria estar no meu dia não , ou antes, o dia em que os homens me irritam ! 🙂 pois não entendi a metafora… a sério .:))

    Mas continuo a refilar com a “imagem” feminina que aqui está ! Ah pois ! E mais…sobre o teu P.S. , se a personagem “fatal” fosse um homem…ninguem estranharia ! :)) È o normal 🙂

    Mas vamos lá …

    Sobre o fim de um relacionamento ou a incapacidade de dizer : ” acabou” , eu penso que todos (a maioria) sabem quando um relacionamento chegou ao fim. O problema é que hoje em dia as dependencias são muitas …hoje as pessoas relacionam-se porque existe algum interesse e mantem um relacionamento ou casamento por essas mesmas dependencias …sejam elas economicas, sociais ou emocionais. Como uma amiga minha diz : ” os realcionamentos aos 30/40 não são como aos 20, em que tudo é belo e existe a esperança de construir algo…aos 30/40 a maioria já construiu a sua vida profissional e a vida pessoal vem com lastro …um lastro muitas vezes bem pesado.”
    Assim a escolha mesmo que não seja intencional, é feita na base de dependencias…e quando somos dependentes de alguem , dificilmente aceitamos “largar” essa pessoa.

    Paula

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