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As Estradas do Imaginário – Horror e Brilho nos nossos caminhos

Janeiro 17, 2010

Quantas estradas deve um homem caminhar antes que o chamem de homem? Cantava em tempos o Bob Dylan. Não sei se a resposta está no vento ou não, mas que as imagens podem soprar alguma ideia, lá isso podem. Fellini na sua caminhada fez questão de ventilar várias encruzilhadas burlescas, ao jeito de um circo decadente cheio de brilho.

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Tudo isto a propósito de nas últimas semanas ter esbarrado em 2 filmes que me devolveram ao mundo felliniano, que é talvez o universo que mais marcou o meu imaginário.

Quando tinha 12 anos, vá lá saber-se porquê, resolvi ver o filme  A Estrada  do maestro Federico Fellini, e foi o bom e o bonito, o filme desabou em grande estilo em cima da minha tenra cabeça, nunca tinha visto nada assim, tão profundo, tão burlesco, tão profundamente triste e apalhaçado. Não vou dizer que fiquei convertido ao talento do realizador e um seu fiel seguidor de imediato, com aquela idade sabia lá quem o homem era, por incrível que pareça não havia internet para ir logo googlear, mas que o raio do filme me marcou imenso, marcou. Tanto que, mais tarde, já com os meus 18/19 anos fiz questão de ver a obra dele toda, em ciclos promovidos pelo Cineclube do Porto e a revista Cinema Novo, e daí resultou uma paixão enorme por todo aquele imaginário circense da vida, especialmente naquele que eu considero, ao jeito da estúpida eleição do filme da nossa vida, a cereja em cima do bolo cinematográfico, Amacord.

Quando na semana passada estreou A Estrada, sabia que o filme nada tinha a ver com a obra de Fellini nem com o seu imaginário, mas, mesmo assim, fui vê-lo com uma certa pontinha de nostalgia, unia-os o nome. Voltei a ter um choque, mais uma vez o filme desabou sobre mim. Brutal é palavra que me ocorre. As estradas que ali se percorrem, ao contrário do que diz a canção, são apenas para apelidar o homem de animal, devolvê-lo à sua condição de presa e predador na natureza.

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A Estrada, The Road título original, um filme de John Hillcoat baseado no romance de Cormac McCarthy (autor do livro Este país não é para velhos), trata das consequências sociais após uma grande catástrofe apocalíptica, nomeadamente na luta de um pai para tentar salvar o filho, não só levando-o para uma suposta terra, a sul, onde pode haver alguma esperança, a eterna quimera para além do arco-íris, mas também, e especialmente, incorporando nele uma chama – o fogo, como refere o miúdo – de fé na própria humanidade. Aparentemente não traz nada de novo, já vimos esta história em muitos lados, mas a forma como ele mostra, sugere, este caminhar, onde toda a humanidade está confinada ao seu lado mais animal, a selva da sobrevivência, é demasiado forte, excessivamente amarga para os nossos olhos, a visão aterradora e angustiante de um mundo onde o homem comum não tem salvação possível não nos deixa escapatória, o horror está no meio de nós e, naquelas condições, não seremos heróis de coisa nenhuma. Poderá haver algo mais horrível do que um pai pedir a um filho para que morra? A cena da despensa foi do mais grotesco que já vi em cinema, não é a carne e o sangue que nos incomoda é a desumanidade canibalesca sugerida que nos deita por terra.

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Neste filme não temos os efeitos especiais, os monumentos a explodirem numa orgia de cores, nada, nunca sabemos o que se passou, temos apenas o drama do que vem a seguir e que nunca é contado, até que ponto sobreviver não é a mais dolorosa das mortes? Talvez o Haiti esteja aí para responder à questão.

Tal foi o abismo onde mergulhei, que mesmo no final, em aberto, onde outros viram esperança eu vi a pior das crueldades até ali mostradas.

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Se Viggo Mortensen faz o papel da vida dele, só o fracasso do filme o leva a ficar afastado dos Oscares, Kodi Smit-McPhee, o miúdo surpreende pela sua capacidade dramática, pela sua expressividade. Robert Duvall, numa curta e disfarçada aparição, está magnífico.

Contado de uma forma lenta, cinzenta, uma fotografia soberba, com uma narração poética, como se houvesse uma catarse do horror nas palavras, A Estrada é um daqueles filmes que incomodam muito, andei dias para esquecer o que vi, que achamos muito bom mas que não recomendamos a ninguém, o que o torna num injusto fracasso. Nota, se alguém ousar ir ver leve muitos lencinhos, vão dar jeito.

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Mas se a Estrada só o ligava a Fellini pelo nome propriamente dito, esta semana estreou um outro filme que, esse sim, supostamente tenta aportar o imaginário do autor de Oito e Meio. Nove, baseado numa peça da Broadway com o mesmo nome, que por sua vez foi buscar citações a 2 dos grandes filmes de Maestro, o já referido Oito e Meio e a La Dolce Vitta, é um filme musical do Rob Marshal, autor de Chicago, e que, e para ser parco em considerações, fica-se por aí, em meras citações de memórias cinematográficas embaladas com musiquinhas à maneira.

Eu com os musicais tenho uma relação do ama-me ou deixa-me, ou gosto muito, quando me consigo elevar e a música faz parte da narrativa, ou detesto, quando não consigo descolar e vejo sempre a parte musical a encher chouriços auditivos. Nada mais cativante do que uma música para despertar as emoções que a cena está a tentar passar, mas nada mais penoso do que ter uma historinha e fazê-la parar para entrar uma musiquita enchouriçada. Faz lembrar as penosas revistas à portuguesa que, entre uma laracha e outra, sai depois uma musica e um bailado para ilustrar coisa nenhuma.

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Desde o primeiro plano, em que temos a visão de um realizador angustiado pelo bloqueio criativo, até ao último o que se passa em Nove? Nada. Apenas o desfile disso mesmo, de nada se saber, nada se fazer, intercalado, isso sim, com números de canções à la carte. A narrativa é penosa, o drama existencialista de um tal Guido – Daniel Day Lewis está como peixe fora de água – é uma seca, e serve apenas para que entre o mulherio em cena a dar o corpo ao manifesto, mostrar os belos corpos e os dotes vocais que a técnica fez questão de tornar bonitinhos.

Curiosamente, o suposto filme que o tal Guido quer fazer e não consegue chama-se Itália, ora é precisamente isso que acontece em Nove, de tanto a quererem mostrar, a Itália não mora ali, só mesmo uma versão estereotipada, para a americanada ver, é que faz a sua aparição. Apenas o número da prostituta na praia com os miúdos a perderem uma certa inocência perante o castigo do clero, se aproxima do velho imaginário neo-realista, tem inclusive algo de Amacord, mas a escolha da cantora, Fergie dos Black Eyed Peas, não foi a mais acertada, pois, apesar de ser a que afina melhor as notas musicais, precisava-se de uma mulher mais carnuda para ilustrar as Mamma Roma do antigamente, sedutoras e destruidoras de virtudes infantis.

Resta a consolação de ver as grandes divas todas bonitas a fingir que cantam. Será que no DVD vai sair uma edição especial em que só aparecem elas em palco? Era uma boa ideia.

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Nas encruzilhadas dos caminhos destes 2 filmes chego à conclusão que não queria que o vento me soprasse o que quer que fosse, perante o eco das respostas de A Estrada preferia ser surdo, porque dói muito ouvir a dor, e perante Nove preferia mesmo que o vento levasse para bem longe o deserto de ideias.

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2 comentários leave one →
  1. Janeiro 19, 2010 10:55 pm

    Curiosamente, de todos os filmes que referiu, penso que só vi Oito e Meio e acho que não percebi “pevas”. Talvez esteja na altura de estudar o mestre.

    “a visão aterradora e angustiante de um mundo onde o homem comum não tem salvação possível”… porque já vivi perto de homens mais básicos, e também ouvi, de viva voz, relatos de situações limite, eu acredito que fora da sua redoma o “homem comum” não dura uma semana. Ou morre fisicamente por incapacidade ou morre civilizacionalmente por adaptação. Ao fim de seis meses já só ficaram os “animais”.

    Penso que não irei ver A Estrada.

    • bp63 permalink*
      Fevereiro 13, 2010 9:28 am

      Kurioso

      Amacord é mesmo o melhor do mestre. Quanto a esta estrada dói mesmo, como refere só ficaram animais. Talvez em video o filme não tenha uma carga tão forte.

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