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Lugares (1) – Sydney – O Nudista Acidental

Janeiro 9, 2010

Muito mais do que os monumentos, os grandes edifícios ou a beleza geográfica, um lugar faz-se de pequenos detalhes e de impressões que se colaram na pele, ainda que não constem em nenhum compêndio histórico ou turístico. Assim, a forma como respirámos num determinado sítio embruma ou esplandece o nosso olhar sempre que a paisagem da sua memória se abre na nossa janela.

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Durante este quase meio século em que é composta a minha caminhada – não podia ter arranjado imagem mais deprimente para ilustrar o meu calendário pessoal- já tive a sorte de ter passado por muitos lugares, de ter visto muita coisa e, para mal dos meus pecados, de ter sofrido muitos acontecimentos. Quando refiro sofrer não estou propriamente a compor uma hipérbole ao sabor da pena para fazer ramalhete na frase, é mesmo de padecimento que falo, tal é a minha mala pata para que desabem sobre mim agruras aos molhos, numa espécie de desfile de carnaval de figuras funestas de absurdo em que cada uma consegue sempre superar a outra. Não acreditam?

Nesta minha nova série de Sombras, de histórias vividas e padecidas em distantes lugares, vou iniciar o relato por Sydney, uma das cidades que o meu olhar mais amou, e a pele também [:)].

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Sydney é uma cidade muito bonita, não só pela organização urbana que foi feita ao longo do tempo, com uma mistura de estilos engraçada, o moderno e a o antigo convivem de braço dado, como também pelo facto da natureza a ter bafejado com todos aqueles recortes marítimos, o que lhe dá um ar de ilha permanente, mesmo sem o ser. Digamos que é uma espécie de mistura de Nova Iorque com o Rio de Janeiro, sem a componente benigna de ambas, ou seja, sem o esmagamento urbano de NY e sem a violência e a pobreza das terras cariocas. A imagem maior que me ficou da cidade foi a de um regresso por barco, ao anoitecer, depois de uma visita a umas montanhas no interior, e ver aquela manta salpicada de luzes – os arranha-céus da baixa ficam todos iluminados durante a noite, como o distrito financeiro em NY – a aproximar-se lentamente, como se nos viesse abraçar. Valeu a pena o quase ter ficado com a cara paralisada de frio, tal era o vento gélido na proa.

Precisamente depois dessa grande sensação, e porque vinha enregelado, como se me tivessem tirado de um congelador, esqueci-me que em Julho faz frio por lá e não levei grande roupa, resolvi aquecer-me bem, e nada melhor do que uma boa sauna. No elevador reparei que o hotel tinha sauna e piscina no terraço do último andar. A piscina estava fora de questão, não devia ser aquecida, mas a sauna vinha mesmo a calhar. Mal cheguei ao quarto despi-me, vesti o roupão do hotel e zás, aí vou eu para o forno humano que a rapaziada lá dos mantos nórdicos resolveu inventar.

Ao chegar ao terraço fiquei mais uma vez maravilhado, a vista era espectacular, a velha e conhecida Harbour Bridge, a magnifica Ópera e os magnânimes arranha-céus iluminados, estavam mesmo ali ao lado, a encher-me a vista de contentamento. Reservei a imagem, para a voltar contemplar, num dia mais vestido, e fui para a minha sauna catita que esperava ansiosamente por mim. Ups, ao chegar lá vi que a dita era mista e eu apenas tinha no corpinho o belo roupão branco bordado com o logótipo do hotel. Não me atrapalhei, enrolei-me numa das muitas toalhas disponíveis para o efeito e entreguei-me aos prazeres das altas temperaturas. Uma outra surpresa contemplativa esperava por mim, a sauna tinha uma pequena janela de vidro que permitia estar a destilar por todo o lado e a ver a Ópera lá ao fundo, toda janota, bem como os barquinhos a ir para o cais. Pude inclusive abrir a toalha, detesto estar muito embrulhado numa sauna, porque não apareceu ninguém, também já era tarde e o pessoal devia estar no repasto.

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Mais reconfortado, e depois de me ter esvaído em suor, passei-me pelo chuveiro e saí da sauna. Já me preparava para abandonar o terraço, quando reparei num belo jacuzzi envolto em vapor, tal era o contraste entre o quente da água e o frio do ar, mesmo ao lado da piscina. Bolas, porque é que não tinha levado calções de banho, devia ser espectacular estar ali no quentinho, com o frio na cara a contemplar todo aquele espectáculo da vista. Mas se não tinha aparecido ninguém até ao momento, dificilmente àquela hora viria mais alguém, assim, não devia haver problema em me meter naquela água quentinha tal e qual como vim ao mundo. Se bem o pensei, melhor o fiz. Tirei o roupão, coloquei-o numa cadeira mesmo ao lado, para o caso de o ter que vestir de emergência se ouvisse barulho, e mergulhei nas delícias de uma água quente ao ar livre em plena noite australiana.

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Estava eu tão extasiado com o deleite das sensações de calor no corpo, frio na cara e uma imagem soberba, apesar de estar no alto, os enormes edifícios financeiros da dowtown pareciam desabar sobre mim, que nem ouvi que alguém chegara entretanto. Quando reparei, já tinha uma enorme família à minha volta, digo enorme porque traziam crianças e os adultos, 3 ou 4, aportavam com eles umas dimensões muito bem generosas, aquilo da carne de canguru deve ser mesmo muito nutriente. De imediato pensei em pisgar-me, enquanto estavam naquela algazarra da instalação, tinha o roupão ali ao lado e eles nem iam reparar na minha saída. Engano. Não só as criancinhas voaram sobre o jacuzzi de imediato e começaram a chapinhar, como o meu belo roupão, pousado na doce cadeira, foi arrastado para mais longe nas arrumações que aquelas singelas mãos australianas – pelo sotaque era gente da terra – fizeram, num instante viraram aquilo do avesso. Ok, calma. Isto vai compor-se, bastava ficar aqui com cara de parvo a lançar sorrisos amarelos perante as diabruras infantis, esperar que eles se cansassem e zarpassem dali para fora. Novo engano.

Vieram para ficar durante muito tempo. Esqueci-me que as crianças nunca se cansam de estar na água e que o pessoal mais gordo acha que as borbulhas de um jacuzzi desfaz as calorias que andaram a enfardar durante anos, pelo que quando se metem lá passam largas horas a tentar definhar. Para agravar a situação e me sentir ainda mais um alien naquele espaço, a família, por ser avantajada, não coube toda naquela banheira borbulhenta e um deles, presumo que o chefe da tribo, ficou sentado à espera que eu saísse para que ele mergulhasse as suas belas adiposidades em tão fogoso caldo. Cada minuto que passava lançava-me um olhar fuzilador, como quem diz: ó cromo, baza que agora é a minha vez.

jacuzzi

Só tinha mesmo uma solução, enfrentar as feras. Eu é que estava a ser parvo, aquilo era gente muito evoluída e estar-se-iam a borrifar para a nudez de um pacóvio qualquer. Nem percebia muita bem a minha reacção, se nunca tido problema em despir-me em qualquer lado, desde que o lado fosse próprio para isso, evidentemente, porque estava eu com tantos pudores em sair dali? Ganhei coragem, enchi o peito de ar, levantei-me, mostrei orgulhosamente a minha nudez, como quem diz: eu venho lá da metade da fatia do norte do globo mas sou muito mais evoluído, para mim jacuzzi é em pêlo, seus mariquinhas – e procurei o roupão. Vesti-me e desejei-lhe uma boa noite em língua de gringo. Nem me lembro se me responderam, apenas sei que, de repente, Sidney deve ter entrado num coma profundo, só ouvi um ruidoso e imenso silêncio, a conversa intensa com que as mulheres se digladiavam dentro de água ficou automaticamente suspensa, o olhar perseguidor foi a única linguagem que vislumbrei.

A aventura nudista foi depois motivo para grande risota, são estas coisas que dão colorido aos sítios e tornam as viagens marcantes. Não tinha que me preocupar, a probabilidade de me cruzar com aquela gente era praticamente nula. Siga a viagem e a desfrutar do tempo que ainda faltava para estar naquelas paragens.

Na última noite em Sydney, depois de mais um dia aproveitado até à exaustão, já era tarde e havia que procurar lugar para jantar, o que não era fácil, tirando os bares da boémia da zona do Rocks, perto do hotel, os restaurantes à semana fecham normalmente cedo. Como estávamos perto do complexo do Sydney Harbour achou-se melhor comer algo por ali, tinha espaços agradáveis e alguns ainda estavam abertos. Entrámos num restaurante italiano que tinha boa pinta, ok, a comida por lá não era grande coisa, e manjar algo cá das europas até que não era mau. Mal entrei, ouvi uma voz, aguda e em eco pelo restaurante:

– Mummy, mumy, looks, he’s the naked man!

Uma adorável menina, sentada numa mesa, onde fartos acompanhantes deglutiam fartas pizzas, apontava de dedo em riste para mim, canalizando todos os olhares para a minha pessoa, como setas precisas de William Tell a disparar sobre a maçã. Nessa noite comi a pizza mais corada e pesada do mundo.

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Pronto, esta foi a minha aventura nudista em terras australianas, num próximo post relato os jackpots falhados, o atentado a coca-cola e aventura mais próxima que tive de um filme pornográfico.

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10 comentários leave one →
  1. Janeiro 9, 2010 7:22 pm

    🙂
    Tu dás mau nome a Portugal. Mas explica-me lá uma coisa a quem não é assim muito viajado. Isso da Sauna é para ir em pelota ou é habitual levar-se uns calções?
    E não te ocorreu dizer às pessoas que estavas nú no jacuzi, porque também não estava à espera de visitas, e se eles não se importavam de te dar o roupão? Era o que eu teria feito 🙂
    E posso-te garantir outra coisa. Nem que eu estivesse vermelho, com a pele, ou mesmo a carne a cair, me atreveria a sair dali em pelota

  2. bp63 permalink*
    Janeiro 9, 2010 10:41 pm

    1º – Nas saunas separadas cada um vai como quer, mas o normal é em pelota com a toalha enrolada, que podes desenrolar. Nas mistas, normalmente ou nunca te desenrolas da toalha ou leves uns calções, com excepção das dos povos lá do norte da europa em que mista ou separada vai tudo abaixo 🙂 resisto a fazer uma piada com isto.

    2º – Não me ocorreu nada, só queria que eles fossem embora. Era muito complicado explicar o que quer que fosse, acho que ia fazer pior.

    3º – Eu estava a borrifar-me para a minha nudez, quanto a isso não tinha problemas, só tinha receio é que levantassem um pé de vento por eu me ter metido nu ali dentro e não fosse o bruta montes dar-me alguma lambada por ter feito aquilo ali com crianças, sei lá, nunca se sabe o que vai na cabeça dessa genta.

    4º – Não foi a primeira vez que me sucedeu um coisa assim, aliás devo ter uma costela da Bo Franceneid.

  3. Janeiro 18, 2010 12:30 am

    Venho comentar um, e já cá está outro. Isso é que é produtividade.

    Sydney,

    Tirando a parte do andar pelado, você fez-me uma inveja danada, pois Sydney, onde nunca fui, é um dos meus lugares de sonho.

    Aqui há uns meses a Sony usava um documentário sobre Sydney para promover os Bravia. Quase todos os dias parava uns momentos para apreciar as vistas deslumbrantes. O televisor eu já tenho. Ir a Sydney vai ser um pouquito mais difícil.

    Em relação à nudez não tenho grandes pruridos desde que no ambiente adequado. Porém se fosse apanhado desprevenido, não sei como reagiria.

    • bp63 permalink*
      Fevereiro 13, 2010 9:31 am

      Kurioso

      Sydney é realmente encantadora e figura sempre no nosso imaginário como um sitio a ir, por ser tão longe. Ir lá, para mim, foi o cumprir de um sonho. O resto foi o bonus 🙂

  4. Fevereiro 1, 2010 1:42 pm

    Ó Bp, ao grito “the naked man” tu devias era ter inflado o peito e desfilado pelo restaurante com o gingado de um nu que abana orgulhosamente as suas partes ! lol
    Então um homem “lá da metade da fatia do norte do globo mas sou muito mais evoluído, para mim jacuzzi é em pelo, seus mariquinhas,(…)” deixa-se intimidar depois ?!
    Deixa estar que graças a esse episódio não só tiveste, como proporcionaste uma experiência inesquecível -talvez à garota em particular… lol
    E olha que isso não foi azar, foi uma oportunidade e tanto. Ou não estaríamos aqui a falar disso… rs

  5. bp63 permalink*
    Fevereiro 13, 2010 9:34 am

    Branca

    Eu até nem me intimido, sempre tive avontande e descaramento com a nudez, talvez até demais ;), o problema era a criancinha e o cabedal exagerado daquela gente que podia não achar piada à brincadeira.

  6. Novembro 18, 2012 3:09 pm

    Oh Bau, agora entendo…mas, por curiosidade…costumas andar nú assim por todos os países que vais? hehehe estou a rir até às lágrimas!

  7. Maio 28, 2017 12:16 am

    Adoro esta Blog! Simplesmente fantastico todos as publicações que
    vocês colocam estou sempre acompanhando e compartilhando em minhas redes socias parabéns https://www.escortsclub.com.br/acompanhantes-rio-de-janeiro/

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