Skip to content

Todos Nós temos uma Miss Portugal na Voz

Dezembro 30, 2009

Muito amor e paz no mundo. Não precisamos de ter uma coroa na cabeça, uma faixa a tiracolo e as pernas à mostra para soltar a eterna frase. Mal se aproximam as 12 badaladas da torre de Saint Dennis de qualquer passagem ano, lá estamos, entre brindes e passas, todos a proferir estes desejos, mostrando que em cada um de nós mora secretamente uma Miss Portugal, Mundo ou até mesmo Universo, na hora de despejar os nossos anseios sobre o tempo que se avizinha. Pois é, nesta coisa dos votos de ano novo, o léxico que utilizamos bem podia participar num qualquer concurso de beleza numa ilha das Caraíbas, entre sorrisos pepsodent e maminhas XL, apresentado por alguns figurões cabotinos em fim de carreira

Porque será que ninguém pede coisas mais terrenas, mais simples, tipo um micro-ondas, que a sogra deixe de arreliar a paciência ao domingo ou que a vizinha do prédio da frente finalmente deixe a janela aberta quando vai tomar banho? Porque isso era ser egoísta e nós queremos ser altruístas, magnânimes sobre os outros, que o bem seja o mais colectivo possível e, assim, ficarmos perto de uma certa canonização instantânea. Ok, mas não podíamos, então, pedir coisas mais palpáveis, sei lá, que o mundo inteiro tivesse um Ferrari ou que passasse andar tudo vestido por Armani. Estúpido? Talvez, inclusive até supera os votos da mensagem original, mas uma coisa é certa, o pessoal ia adorar muito mais, ó se ia! Então não era muito melhor andar por aí a laurear a pevide num popó todo vermelho, que faz ronron em cada aceleradela, com um fato de fino corte, do que essas coisas das pombinhas a voar e de beijinhos fraternos entre todos? Eu, olhando para o vizinho meu do 8º direito, e pensar que poderia receber um ósculo seu, preferia já a 3ª guerra mundial mesmo em frente à porta.

Uma forma de dar volta à questão é desejar saúde e sorte, para nós, para os próximos e para todos em geral, continuamos, assim, com a nosso pontinha de santo pontífice mas não nos comprometemos muito em termos de pirosice. Ora se a ideia é bonita, e saúde e sorte dão sempre muito jeito, a coisa, se fosse mesmo verdadeira, poderia ser muito complicada, porque nisto de ter uma boa e grande sorte implica sempre que outro a tenha má e pequena. Passo a explicar, há uma teoria, Lavoisier não a escreveu mas poderia tê-la escrito, que diz que a sorte global mantém-se sempre constante e que somatório das sortes de cada gente é igual à sorte geral, logo se o nível de sorte geral for 1.000 e a minha for 10, no dia em que a minha aumentar para 50 significa que, para manter os 1.000, alguém teria que perder 40. Confusos? Vamos a coisas práticas.

Imaginemos que Deus, num momento de boa disposição, já esqueceu o livro de Saramago, anda agora a ler o último da Rebelo Pinto para ver se entende as mulheres, ou, pelo menos, para ver se entende a própria Margarida, que não há quem a aguente em prelecções sobre a modernidade do mulherio, resolve conceder-me a minha sorte mais desejada, o euromilhões. Fico feliz, extraordinariamente feliz, digamos que com uma hecatombe de felicidade nas Bahamas de papo para o ar, e a sorte aumenta exponencialmente na conta bancária, tudo bem, mas para eu ter aqueles milhões todos, milhões de pessoas ficaram sem uma pequena parte deles, ainda que trocos, e um outro, ou vários, deixaram de ganhar o primeiro prémio.

Imaginem também que Ele estava um mãos largas, cá para mim deixara de ler o livro e esperaria pelo filme com a irmã gémea da Margarida no papel principal, a Alexandra Lencastre, e metia a cereja em cima do bolo ao dar-me também a Angelina Jolie que caía a meus pés tolhida de paixão pela minha pessoa. O que acontecia? O coitado do Brad Pitt, outro bp de 63, ficava lavado em lágrimas da má sorte que lhe tinha calhado, ficara sem o seu amor e ainda por cima a criançada, que não fora incluída no pacote do prémio, restara por lá com ele a moer-lhe o juízo e a fazer-lhe pesar ainda mais a cabeça.

Mas vamos a coisa mais simples, mais terra a terra, digamos que a disposição de Todo o Poderoso já não está no seu melhor, resolveu ver a Júlia Pinheiro e o Goucha com as encantadores criancinhas a fingirem que cantam, e, para expiar a sua dor de ouvidos, faz, por exemplo, com que eu seja promovido. O que acontece de seguida? Um outro vai ficar a chuchar no dedo e a soltar pragas ao vento com a dor que sente, tanta que ainda irá à urgência fazer uma radiografia ao cotovelo.

Mesmo a saúde, coisa que todos queremos e achamos que é um beneficio global, imagine-se que se me acabam as maleitas todas em 2010, coitados dos médicos, lá vão ficar com umas consultas a arder e menos dinheiro em caixa. Mais exemplos de desejos banais cumpridos, deixo de ter programas cretinos na televisão, já viram? Cláudio Ramos teria que emigrar urgentemente para Burundi. Triste, não é? Nesta coisa da sorte, não há mesmo almoços de borla. Nunca, mas mesmo nunca, há bela sem senão.

E não pensem que esta teoria só se aplica nos desejos individuais, pois nos colectivos é a mesma coisa. Voltemos às Misses. Já imaginaram se Deus estivesse, só para contrariar e dar uma lição ao mundo, em dia sim e concedesse aquilo tudo, muito amor e paz no mundo?! Posso vos adiantar que qualquer dos cenários seria terrível, senão vejamos:

Se houvesse uma onda de amor, seria catastrófico e não era porque a dona Isaltina da mercearia se ia agarrar a mim até eu me sufocar completamente nos seus laaaaaaaaargos braços e profuuuuuundo peito – se bem que, visualizando a ideia, isso seria uma calamidade maior do que o efeito estufa, – mas sim porque a economia ia completamente ao charco. Está provado que qualquer apaixonado baixa a produtividade, anda com a cabeça na lua, só quer é chegar à horinha de sair para partir para os braços da amada e enchê-la de beijinhos, dar-lhe docinhos e dedicar-lhe músicas pirosas. Se o amor se instalasse de armas e bagagem por cá, o mundo virava um autêntico supermercado nos tempos da grande depressão, prateleiras vazias, volte cá amanhã que já devemos ter, o pessoal deixava de produzir, as empresas não tinham nada para vender e seria o principio do caos. Ui, então se o amor fosse físico é que era o bonito, amanhã entrego-lhe o relatório que agora tenho que ir ali à sala das fotocópias matar este calor que me consome com a Liliana dos financeiros. A vantagem é que ficaríamos também um pouco prozac, não tínhamos as coisas, tudo à nossa volta despencava, mas também não nos preocupávamos muito, o amor é, afinal, o maior psicotrópico do mundo.

love-picture-kiss-young-couple-teointarifa

Se a paz viesse por aí abaixo, qual nevão global, a coisa não seria melhor. Primeiro fechavam as fábricas todas de armamento, e haveria cidades das grandes potências que desapareceriam do mapa, milhões no desemprego, organizações que eram extintas, carreiras políticas arruinadas, muita fortuna que não se construía e daí novamente mais desemprego, especialmente no bairro da moda de Milão, nos grandes construtores de automóveis, nas joalharias da Quinta Avenida, etecetera e tal. A crise económica ia ser tal que ao fim de algum tempo o pessoal já andava todo à batatada uns aos os outros e deixávamos de ter guerras lá nas montanhas perdidas do Oriente para passar a tê-la ao virar da esquina do nosso bairro. Brincadeira à parte, a indústria do armamento é a última das grandes indústrias pesadas que resistiu no tempo e se modernizou, os seus valores pesam muito nos PIB dos países e a maioria das guerras existentes não passam de meras ilusões ópticas de idealismos ou fanatismos, pois são, verdadeiramente, apenas o marketing mix a funcionar nas sua políticas de distribuição e de criação de mercados.

Pois é, isto não fácil, de tanto queremos uma coisa nunca pensamos que a nossa possível boa onda poderá ser a má de outros, é um pouco como aquelas empresas que se instalam em Portugal, ficamos felizes com a sua vinda mas esquecemos que deixou um rastro de desemprego no sítio de onde ela veio e que será o mesmo que vai deixar por cá, quando for embora para outras paragens a fazer feliz outras gentes. Voltamos ao Lavosier de pacotilhana, na sorte e na riqueza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Bem vistas as coisas, vem-me sempre à cabeça uma conversa de café, que em tempos escutei numa mesa ao lado (não sou cusco, mas se as pessoas falam alto não posso tapar os ouvidos), em que um rapaz com as hormonas aos saltos, especialmente quando misturadas em cerveja, dizia:

– Este ano estou-me cagando para essas cenas de saúde, sorte e outras merdas, quero é foder muito, mesmo muito, foder até cair para o lado.

Bom, à parte da forma vernácula como foi explicitado o desejo e da fúria da idade, o rapaz não deixava de ter uma certa razão, se até o meu avô, homem de outros tempos, dizia que o que se leva desta vida é o que se petisca na mesa e na cama. Parece que ambos afinavam pelo mesmo diapasão, e, deixemo-nos de cantilenas, não há nada que chegue ao sexo, não tem contra-indicações, inclusive faz parte dos 5 elementos que prolongam a vida, não diminui a produtividade, o pessoal até fica com pica para trabalhar mais, e é amigo do ambiente, com o calor dos corpos quem precisa de aquecedores. No entanto, sobre aquilo do até cair para o lado , há que ter algum cuidado, especialmente com a idade, alguns, se levarem isso à letra, ainda se arriscam a ficar com a clavícula partida na queda.

sexo1

Em tempos, sempre que se aproximava um ano novo, tinha muitos desejos e superstições (sobre estas já delirei, em tempos,   por aqui  ), hoje em dia, espero apenas que a coisa corra bem ou pelo menos que corra sem sobressaltos, o que já dá para aguentar o barco.

Assim, e já que aí vem 2010, que tudo vos corra bem e que os dias tenham muita espuma. Apenas isso.

Anúncios
7 comentários leave one →
  1. Dezembro 30, 2009 9:57 pm

    :))) Como sabe bem ler-te. Em resumo, tu tens é saudades do tempo em que também bebias bejecas num café e dizias as verdades em voz alta :))
    Passaste do 80 para a fase do «hoje em dia, espero apenas que a coisa corra bem ou pelo menos que corra sem sobressaltos»
    O Todo o Poderoso, a existir, garantidamente que conseguiria dar tudo a todos, cagando-se para esse Lavoisier.
    Retribuo a espuma e os dias a correr bem
    Abraço

    • bp63 permalink*
      Dezembro 31, 2009 12:16 am

      Bw

      Saudade já nem sei de quê, mas sei que a maior ainda é de futuro, mesmo que já abra a boca toda e diga bem alto o que vai na alma.

      Gostei dessa do Todo o Poderoso, realmente ele podia dar um jeitinho nisto tudo, que andamos mesmo a precisar. Cá para mim já se chateou e foi abrir condominio para outra galáxia e está a deixar degradar este, como fazem os senhorios quando se cansam dos prédios (dava um boa história, não dava?)

      Bom ano,

      Abraço

      • bp63 permalink*
        Dezembro 31, 2009 12:17 am

        errata. “já não abra a boca toda”

  2. Dezembro 31, 2009 3:07 am

    Esta tua forma de escrever é mesmo brilhante, Bp. Gil Vicente havia de curtir bué. E quem sabe até curte mesmo, sentado ao pé do tal Todo lá no café de esquina do céu, onde ‘ele’ vai todos os finais de ano beber umas bicas com os ilustres, enquanto decide as nossas ‘sortes’

    Desejo para mim e para os que falaram antes de mim (que muito prezo), que decida enquanto estiver mesmo bem disposto, como quando o senhorio já quase contratou a demolidora, mas depois, de repente, resolve afinal, remodelar o prédio vintage, cedendo a uma energia reparadora.

    : )))

    bjs

    • bp63 permalink*
      Dezembro 31, 2009 4:30 pm

      Jo

      O Gil nesta altura já não toma cafés mas 1s copos valentes, que ele sempre foi homem disso.

      Tu e a tua redenção, sempre a imaginar que o Todo Poderoso ainda liga alguma coisa a isto. Mas gostei da imagem do predio à beira de demolição e, no momeno em que a bola de ferro vai bater, para, porque baixou nele uma inspiração. Também dava outra vou história 🙂

      Bons ventos nesse prédio, que se arrume e desarrume muito.

      Bjs

  3. Kurioso permalink
    Janeiro 1, 2010 10:39 pm

    “A crise económica ia ser tal que ao fim de algum tempo o pessoal já andava todo à batatada uns aos os outros e deixávamos de ter guerras lá nas montanhas perdidas do Oriente para passar a tê-la ao virar da esquina do nosso bairro.” Pois é…

    À medida que fui lendo ainda tinha esperança que você deixasse algo para um post sobre “partilha e consequências” que eu tenho andado a matutar. Pois…não sobrou nada.

    É mesmo verdade: só há um certo nº de ideias por aí. Se alguém fica com todas, não sobra nada para os outros.

    Também eu, o que espero de 2010 é “safar-me”. O que, atendendo à “volatilidade dos factores decisivos”, já não será nada mau.

    Pois que venha lá um 2010 espumante.

    Abraço.

  4. bp63 permalink*
    Janeiro 1, 2010 11:43 pm

    Kurioso

    Esta maldita lei de Lavoisier é mesmo lixada, até nas ideias se aplica 🙂 . Mas por certo deve ter por aí uma data delas para meter cá para fora.

    Eu trouxe aqui, a propósito da sorte, umas ideias sobre as consequências más daquilo que achamos bom, mas cheguei em tempos a escrever um post (para o defunto espaço do sol) sobre as consequências boas daquilo que achamos mau, como a dita sociedade de consumo, só que o espaço por lá destrambelhou e nunca o editei. Mas a coisa era parecida com isto.

    Abraço e vamos empurrar a rolha em 2010 para ver se sai espuma.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: