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AVATAR – O Princípio do Fim

Dezembro 20, 2009

Qual é o país mais capitalista do mundo, qual é? Os States, claro. Quem faz mais manifestos anticapitalistas? Os americanos no seu cinema, evidentemente, mesmo que ele seja uma das pérolas maiores do próprio sistema. Qualquer filme vindo de lá consegue ser mais marxista que o próprio Marx, Hengel e Lenines juntos. Nem o próprio Bernadino Soares, se agarrasse uma câmara e pusesse a Angelina Jolie de foice na mão e o Brad Pit de lenço vermelho ao pescoço e punho erguido, conseguiria tanto (não deixa de ser um exercício mental curioso pensar que filme poderia ele fazer com este naipe de actores). Ainda que já tenha explanado sobre isto, em tempos, por aqui , não deixa de ser curioso voltar ao assunto depois de ver AVATAR.

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1. O Delírio

A historinha pode resumir-se em 2 penadas: A primeira, trata daquela espécie ruim como as cobras, o ser humano, que chega a uma terra distante para sacar a riqueza e lixa tudo o que está à sua volta; a segunda, trata do indivíduo, desgraçadinho, paralítico, com irmão morto, aquelas coisas que mais parecem decalcadas de um triste fado luso numa tasca de Alfama, que se mistura com os estranhos para os lixar mas depois é ele que acaba por lixar o plano todo ao se apaixonar por uma indígena e tomar partido dos mais fracos. Original, não é? Bom, uma coisa assentamos desde já, o filme é sobre o eterno lixanço, isto para não me espraiar em termo mais vernáculo, que o homem sempre faz, quer seja em bando, como praga de gafanhotos, quer seja a nível individual sempre que se enrola com os meandros da vida, nomeadamente se os meandros tiverem um bom par de pernas, que neste caso são bem esguias e azuis ainda por cima. Resta agora saber se o filme vai lixar o cinema ou se ele próprio se lixa nas bilheteiras, mas sobre isso já lá iremos mais abaixo, vamos agora ao delírio social.

Ao ver o filme, uma coisa saltou-me no pensamento, não fossem as longas 3 horas e aquilo até podia ser o preâmbulo do discurso de Obama em Copenhaga ou em outra parte do mundo, tal é o moralismo ecológico e pacífico que aporta. Não sei mesmo se não é o James Cameron que anda a fazer os discursos emblemáticos ao presidente, cheio de boas intenções, melodramático e arrebatador, há mesmo uma altura em que o herói Jake Sully disserta para a plateia indígena e em que ficamos à espera de um Yes we can, todo o filme assenta numa áurea de ambientalmente correcto: as conquistas energéticas, e especialmente as da ganância, do subsolo destroem os mundos pela forma como vão corroer o equilíbrio da natureza e só mesmo uma verdadeira consciência civilizacional nos poderá salvar. Além disto, deixa ainda escapar uma outra Obamada, tudo é muito bonito, muita paz, muito amor, mas só a guerra nos pode libertar, claro que é uma guerra boa, limpa proveniente da natureza e contra os maus, uns capitalistas dos diabos que chacinam tudo. Porque será que os argumentistas americanos, quando toca à moral, são tão bipolares, roçando mesmo uma certa esquizofrenia cinematográfica?

Não deixa de ser curioso ver um produto maior do capitalismo – Avatar é o maior investimento de sempre do cinema, 500 milhões sem grandes rigores, e precisa de vender muito, mas mesmo muito, para não colocar ninguém com o pescoço na guilhotina, – a trazer uma bonita metáfora sobre as consequências do dito capitalismo sobre o meio, a ânsia desmedida de fornecer produtos abate drasticamente os recursos, não nos podemos esquecer que na ficção em causa a conquista do planeta deriva do facto de se querer captar um minério energético, o Unobtainium, que mais do que mover o mundo, o faz levitar, na verdadeira acepção do termo.

2. A Mensagem

Aquilo que é aparentemente um filme de acção e de ficção científica, acaba por ser um manifesto imenso de boas ideias.

A primeira já referi, a procura de energias minerais é devastadora e acaba por colocar sempre em perigo as outras energias naturais, menos fortes mas mais equilibradas. Todos sabem disso, mas a rentabilidade económica, ao ser grande, dita a cegueira e avança-se sobre a natureza para colher os frutos malditos, petróleo ou Unobtainium tanta faz, o resultado é o mesmo, a aniquilação total. A certa altura a personagem principal refere que na terra já não há verde pois tudo foi destruído, não contentes há que ir para outros planetas fazer o mesmo, que nesta coisa da fotossíntese ninguém se pode ficar a rir. A pergunta que fica por esclarecer é se havia alternativa, se a espécie humana para sobreviver não teria mesmo que invadir e lixar tudo, afinal não é a própria natureza que tem as regras dos predadores e das presas? Mas pronto, fica mais bonito mostrar como somos maus e os aborígenes extraterrestes bonzinhos de uma pureza angelical. Porque será que nunca mostram que os povos primitivos, apesar de toda a espiritualidade e crença em bolinhas de sabão, são também normalmente bárbaros?

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Mas talvez a maior mensagem que o filme tenta passar está na coisa mais simples, que é o facto de na natureza estar tudo ligado e em harmonia e que só mergulhando de novo nesse equilíbrio, integrando-nos nela, nos poderemos salvar. A “ligação” tem no filme uma metáfora muito física, os selvagens ligam os seus cabelos a filamentos de outros animais e plantas e comunicam com eles, como se ficassem a fazer parte de um único elo. Mais, essa ligação ao ser uma forma de comunicação acaba por criar a energia que tanto se precisa, e a própria internet, como rede, não foi afinal nada inventada, apenas decalcou, em electrónica, aquilo que sempre esteve no ecossistema global, uma vasta teia de partilha.

Com esta coisa do está tudo ligado ficou-me uma dúvida, será que a ZON patrocinou o filme?

É sempre bonito sair com reconforto espiritual de um filme. Penso mesmo, que o pessoal que se sentou a empanturrar com sacos gigantes de pipocas e baldes de plástico de coca-cola a ver a fita, saiu feliz, quase expiado, por sentir que o mundo humano e a natureza têm que andar de mãos dadas e em harmonia como um casalinho de pombinhos em inicio de namoro, isto até encherem um saco com o lixo que criaram com os comestíveis cinematográficos e virarem na esquina do centro comercial para comprarem o novo Nokia, que faz umas coisa giras, mesmo sabendo que o que têm bolso ainda funciona e faz tudo o que precisam, no fundo, novamente como o tal casal que, passado o arrufo romântico inicial, já grita um com o outro.

3. O Filme

Bom, agora sobre o filme propriamente dito, uma coisa é incontestável: Não adiante blue-ray, nem plasmas gigantes ou home-cinema, aquilo é mesmo para ser visto em ecrã gigante com os óculos 3D e tudo. Nunca, alguém que só vai ver em televisão, poderá dizer que viu propriamente o filme. A beleza cromática, o detalhe das figuras e a coreografia dos elementos só são mesmo perceptíveis na forma para a qual foram concebidas, o ecrã de cinema e em 3D. James Cameron apostou forte, e neste aspecto ganhou a batalha, o filme é uma peça única e marca o cinema, tal como StarWars marcou na época, com uma viragem na abordagem das imagens e na sua espectacularidade, o que pode ser a salvação imediata do convento face ao declínio da exibição cinematográfica actual, até podem estar a oferecer cópias piratas de Avatar à entrada que não fazem dano, uma versão em DVD vai parecer sempre uma anedota. Talvez, assim, o futuro do cinema passe por aqui, por criar objectos que se distanciam de uma possível visão doméstica e que obrigam a ir a recintos próprios para os visualizar, pois todos nós sabemos que tudo o que puder ser visto em casa, será objecto de réplicas electrónicas a baixo ou nenhum custo.

O rigor técnico do filme é de excelência, não me admira nada que leve a palma dos Óscares nas categorias especiais, não deve falhar uma. Um deslumbramento para os olhos consegue apesar de tudo, que essa overdose de universos faça parte da narrativa e não nos afaste dela. A primeira parte parece, inclusive, um passeio por um parque de atracções, tudo são motivos para nos surpreender com a beleza da fotografia e da cinematografia. Este assombramento visual não significa que o filme funcione bem como um todo, pois o argumento tem algumas debilidades. Além da falta de originalidade, decalca em parte Dança com Lobos, não esmiúça, palavra da moda, em condições as personagens nem detalha alguns pormenores que seriam interessantes, o que está a acontecer na Terra, a aplicação do mineral, como é feita a transposição neural dos avatares, são perguntas não esclarecidas. Além disso, há alguns buracos na história, umas incoerências que não se percebem, como o do avatar da cientista, Sigourney Weaver, que afinal já se misturava com os indígenas e poderia ter tirado toda a informação que queriam, sem precisar de todo aquele espalhafato do agente infiltrado.

Ao escrever este post ainda não sei o comportamento da receita de Avatar, sei que no dia de estreia rendeu 27 milhões, foi bom mas abaixo do esperado, parece que havia por lá umas tempestades e o pessoal ficou em casa, mas fica a dúvida se alcançará o sucesso de Titanic. Tenho sérias dúvidas, Titanic era um filme de gaja, aí o meu Leonardo que belo, que os gajos também viam, pela acção de ver aquilo tudo ir ao fundo, tenho um jogo em casa que faz quase igual, e que além de levar os jovens ainda trazia as velhas senhoras, que antes de scones e chás, passavam pela sala de cinema para chorar os desencontros de amor do casalinho principal, já para não falar dos velhos senhores que também gostavam de ver a tragédia do acidente, pois na segunda circular há muito que não havia uma batidela em condições para parar e avaliar. Avatar, a ser classificado, é mais um filme de gajo, a acção é predominante na narrativa, ainda que tenha um piscar de olhos ao lado gaja com a previsível historinha de amor entre o bom selvagem e a selvagem boa, já para não falar no deslumbre estético da cenografia natural. Faz-me lembrar aquele apartamento de gajo solteiro, comprado apenas para reunir amigos e fazer altas farras, copos a rodos, uns filmes javardos e umas miúdas, por encomenda, para se descascarem, mas que ao mesmo tempo convida uma amiga, pela qual tem um fraquinho, para o decorar e ir lá fazer um pouco de companhia, a certa altura nem a rapariga está bem nem os gajos se divertem. Um sucesso será de certeza, mas não será tanto quanto se pensaria, a não ser que a inflação dos bilhetes, são muito mais caros, a isso ajude.

Mas a grade marca de AVATAR será o que ele pode significar no cinema, o fim de um ciclo e o princípio de outro, que ditará a sua morte, pelo menos tal e qual como o conhecemos.

Se no filme já está simbolizada o fim da nossa civilização, caso não se inverta o rumo, alô Copenhaga, ele próprio poderá simbolizar o fim do cinema como uma macro indústria. Apesar dos seus elevados custos ele veio demonstrar que é possível fazer cinema sem nada, basta a voz. Até agora o que se via, além dos filmes de animação, era que os efeitos serviam de suporte para o desenrolar da acção principal, esta real e com gente de carne e osso, mesmo as personagens virtuais, quando existiam, eram de contraponto, caso do Smiguel ou King Kong, para impressionar. Em AVATAR não, as personagens verdadeiras e de dimensão dramática são as virtuais, sendo os actores reais mero suportes secundários. Ou muito me engano ou futuro da profissão dramática será a representação oral, como nos tempos do velho folhetim radiofónico. E se agora são precisos muitos milhões para fazer uma fita como esta, em bom pouco tempo isso será doméstico, os bons princípios do capitalismo assim o ditam, e vai haver avatares nos youtubes da época a dar com um pau, se até agora o poeta, o escritor, ou o artista plástico que há em nós já tem um palco solitário para se exibir ao mundo, através dos blogues, daqui a pouco o cineasta que também cá mora tem os ecrãs electrónicos domésticos para se mostrar, assim haja bytes disponíveis. Será triste pensar que daqui a 100 anos uma Angelina Jolie terá por detrás uma Magda Patalógica qualquer que apenas tem uma voz sexy, felizmente que já cá não estarei.

Mas se sobre esse cenário ainda faltam alguns anos, não tantos como se pensam, um outro poderá ter nascido com AVATAR, o do filme imagem sensação, em que é necessário ir mesmo à sala para o ver, como se voltássemos ao velho tempo da feira popular e de cinematógrafo, que é como quem diz, às verdadeiras origens do cinema, em que a propósito de nos assombrar com umas imagens iam desfilando algumas historinhas. No fundo, é disto que se trata neste filme, uma pequena história dentro de um imaginário imenso. E que imaginário!

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4 comentários leave one →
  1. Dezembro 20, 2009 4:10 pm

    Parabéns pela maravilha desta tua apresentação.
    Simplesmente sensacional!!!
    Abraço e Óptimo Natal

  2. bp63 permalink*
    Dezembro 20, 2009 5:13 pm

    obrigado james

    bom natal tb

  3. Dezembro 20, 2009 6:02 pm

    :)) E explica-me lá uma coisa que eu não percebi pelo trailer.
    Aquilo é no futuro, certo? Os tipos até têm tecnologia que implantam um humano num ser grande (3m?) de cor azul, certo? Existe isso tudo e o herói anda numa cadeira de rodas? Raios, então não poderia existir tecnologia que lhe reparasse o corte na espinha, ou um elemento mecânico que substituísse a obsoleta cadeira de rodas?
    «claro que é uma guerra boa» corrigindo «claro que é uma guerra justa»
    Tu que já andavas a falar há muito deste futuro, estás a olhar para ele cada vez mais de perto. Os de carne e osso passam a ter o papel secundário e o Óscar, quem sabe, talvez seja entregue a um personagem azulado.
    Só falta uma coisa que falavam no I, que contraria a tua defesa do cinema e que virá em meu proveito 🙂 O dia em que o filme será projectado à tua volta na Sala de jantar, onde tu passas a estar no meio da acção.
    3h com óculos bicolores na cara…enxaqueca?
    Abraço

    • bp63 permalink*
      Dezembro 20, 2009 6:49 pm

      Bw

      Bom, não te desvendando a coisa na totalidade, não há propriamente um implante, é mais uma coisa neuronal, aliás outro buraco do argumento porque não aprofundam bem aquilo e há algumas incoerências, mas perante tudo who cares. Sim, a das pernas à primeira vista será mais uma, mas parece que ele pode colocar pernas novas, por isso vai no engodo da missão.

      Quando tiveres o cinema na tua casa e tu dentro dele, o cinema já morreu, ou o fazes tu ou vais-te contentar com meros jogos, está a haver um desinvestimento muito grande, as produtoras estão a ficar com a corda apertada, só um cinema diferente que as puxe para as salas e faça esquecer a pirataria as pode salvar, por isso antes de teres isso já acabou tudo, pelo menos da forma como o conhecemos.

      E as 3 horas não dão enxaquecas, vê-se mesmo que já não vai ao cinema a algum tempo, o 3 D está completamente diferente. Ainda por cima nesta nem está lá para fazer as bolinhas saltar, mas para definir melhor, vá lá quebre a promessa que isso é coisa apenas Fátima e adjacentes.

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