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As Línguas Invisíveis do nosso (des)contentamento – 1ª Entrega.

Dezembro 13, 2009

Andam brilhantes estudiosos a dissecar as semânticas em acordos e prontuários a rodos, para que esteja sempre na ponta língua e do ouvido a epistemologia mais adequada, que é como quem diz, para que não seja dado nenhum realíssimo pontapé na gramática interpretativa;

andam, inclusive, simboligistas a decifrar códigos malucos, especialmente para venderem romances quebra-cabeças como pães quentes;

e sempre se esqueceram de desemaranhar aquilo que é o mais óbvio: as línguas que se escondem por detrás da própria língua.

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Se quando alguém nos manda fornicar em linguagem vernácula código máximo, nós não saltamos de imediato para o lombo da/o parceira/o que estiver ao nosso lado, de forma a cumprir logo ali os desígnios do coito imperativo, é porque esquecemos, por momentos, o português literal; mesmo com todo o molho de calão a pingar não o lambuzamos, interpretamos, sim, aquela ordem lasciva por um outro léxico semiótico menos despudorado, que é como quem diz: não me chateies, e vai pastar caracóis.

Mas onde está ele, esse tal glossário especial, afinal? Pois, não está!

Ainda que ninguém nos tenha explicado, todos nós sabemos que por detrás de uma linguagem primária se esconde uma outra alternativa, invisível, sem cheiro nem odor, que vai directamente àquela parte do cérebro que está lá escondida para não nos complicar a vida, ou seja, ao pedaço mais inteligente que dispomos, mas que tapamos com um lençol de neurónios BqDJ (Burrice-que-Dá-Jeito). Agora, se na maioria das vezes dá mesmo jeito não perceber, ou fingir que não entendemos, o que realmente nos estão a querer dizer, outras há em que era importante enxergar logo o verdadeiro significado da coisa para não perdemos tempo em tarefas difíceis e penosas dos nossos dias.

Ora, se quando me disseram que eu até estava bom, para a idade, claro, eu tivesse logo percebido que me estavam a dizer que estava a ficar velho, não teria ido fazer bungee jumping na ponte da Arrábida para mostrar quanta juventude havia em mim, e agora não andava a desembolsar fortunas em sessões de fisioterapia, para pôr as malditas vértebras direitas, e de psicanálise, para recuperar a auto-estima perdida perante a figura que fiz.

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O problema da interpretação é que não há uma só língua invisível, mas sim várias, o que torna o estudo muito mais complexo. Quando ouvimos um político falar, por exemplo, além da sua língua mãe, vamos esquecer inglês técnico, francês de exilado ou outras variantes arrojadas, ele fala também um outro tipo de dialecto subliminar, o politiquês, em que, apesar de utilizar o mesmo vocabulário do português, a sua epistemologia é completamente diferente. Senão vejamos, quando ele, o dito político, diz, “eu vou ser sincero” quererá mesmo dizer isso? Não, quer dizer apenas “deixa-me lá ver como é que me vou sair desta”. Mas se este mesmo político disser a frase para a sua mulher, o que ele está a dizer verdadeiramente é, “o que te vou dizer é só missa a metade daquilo que gostava de te atirar à cara”. Estão a ver complexidade disto tudo?! Só mesmo com um doutoramento em Havard é que se consegue vislumbrar alguma luz ao fundo do túnel e, ainda assim, era preciso que o Dan Brown tivesse inspirado.

Bom, para facilitar, armei-me em Robert Langdon de trazer por casa, e tentei decifrar o verdadeiro significado de certas expressões nas tais línguas invisíveis. Para já, trago apenas a língua Masculinês e Feminês. Numa próxima, apresentarei Politiquês, Culturalês, Socialês e Trabalhês, se outras não surgirem, entretanto, no decurso laboratório de alto nível em que estou envolvido.

ELE numa sessão de compras

Frase:

Escolhe tu querida, confio no teu bom gosto.

Tradução:

Não me chateies com essa merda, quero lá saber da porra dos cortinados.

 

ELE para ELA

Frase:

Nunca conheci uma mulher como tu.

Tradução:

Finalmente consegui esquecer a outra, que me andava a atormentar a cabeça o tempo todo.

 

ELA para ELE

Frase:

Nunca conheci um Homem como tu.

Tradução:

Chiça, finalmente encontrei um tipo que me apara o jogo todo!

 

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ELE para amigo

Frase:

Estou a viver uma paixão do outro mundo.

Tradução:

Ando a dar umas quecas dos diabos, daquelas de trepar paredes.

 

ELA para amiga

Frase:

Estou a viver uma paixão do outro mundo.

Tradução:

Finalmente encontrei um tipo que me mostrou o que é o sexo.

 

ELE numa festa perante a loura de decote generoso

Frase:

A miúda é bem gira.

Tradução:

A miúda é boa como o milho, tem umas mamas e um cu que só visto.

 

ELA numa festa perante a mesma loura

Frase:

Sim, a miúda é bem gira.

Tradução:

Para a idade até nem está má de todo, escusava era de se estar exibir toda como um pavão, quero ver, quando tudo aquilo começar, a cair se ainda vai ser a rainha da festa.

 

ELA para um amigo

Frase:

És tão querido!

Tradução:

És um cromo que me diverte, mas até um certo ponto, se alguma vez pensaste que te ia pôr na minha cama, esquece.

 

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ELE na discoteca

Frase:

Desculpa, acho que te conheço de algum lado.

Tradução:

Desculpa, não te conheço de lado nenhum mas a noite está a acabar e não quero ficar a seco.

 

ELA na discoteca

Frase:

Ah, está ali a Nini…Nini! Está ali uma amiga que não via há muito, prazer em conhecer-te.

Tradução:

Desampara a loja que tenho mais que fazer do que aturar cretinos como tu.

 

ELE ou ELA na discoteca

Frase:

Não está muito barulho? E se fossemos conversar para um sítio mais sossegado?

Tradução:

Chega de chove não molha, vamos lá embora para o enrolanço que já se faz tarde.

 

ELE ou ELA em encontro

Frase:

Vou indo, amanhã tenho que me levantar cedo.

Tradução:

Bom, isto não dá em nada, o melhor é bazar.

 

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ELA na cama

Frase:

Sabes bem que o tamanho não interessa.

Tradução:

Com tanto gajo bom, tinha logo que me calhar este anjinho barroco.

 

ELE na cama

Frase:

Isto nunca me tinha acontecido antes, juro!

Tradução:

Bolas, mais uma gaja que me deixou de dar tesão. O melhor é partir já para passarinho novo antes que isto se torne hábito.

 

ELA para ELE na cama

Frase:

Foi bom?

Tradução:

Ele esforçou-se muito, mas será que percebeu que eu fingi?

 

ELE para ELA na cama

Frase:

Foi bom?

Tradução:

Quase que fiz o pino, mas, ainda assim, cá para mim ela fingiu.

 

ELE ou ELA na cama

Frase:

Chega para lá, preciso de espaço.

Tradução:

Preciso da cama toda, está na hora de saíres dela para fora e não voltares a pôr mais cá os pés.

 

ELA a comentar relação

Frase:

A nossa relação está agora numa fase mais madura, mais serena.

Tradução:

A nossa relação está chata como a potassa, ele até já deve andar enrolado com a secretária, mas. mesmo assim, leva-me a jantar fora.

 

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ELE para ELA, em conversa sobre a relação

Frase:

A nossa relação está a sufocar-me um pouco, acho que preciso de espaço.

Tradução:

Estás uma chata de primeira, não largas o meu pé. Tenho saudades das minhas fainas de solteiro, dos copos e das noitadas e quero voltar a elas, agora que me apareceram os primeiros cabelos brancos e sinto que a vida me está a fugir.

 

ELE ou ELA em conversa sobre a relação

Frase:

Acho que devíamos fazer qualquer coisa na nossa relação, dar uma volta nisto, sei lá, torná-la mais aberta.

Tradução:

Quero pôr-te os cornos mas não quero ter sentimentos de culpa.

 

ELE ou ELA em conversa sobre a relação

Frase:

Preciso de um tempo.

Tradução:

Não aguento mais olhar para a tua cara, a tua fala causa-me enjoos, quero ir para o Tibete para não ter a mínima hipótese de me voltar a cruzar contigo.

 

ELE ou ELA

Frase:

Sexo sem amor não é grande coisa.

Tradução:

Há mesmo muito tempo que não dou uma valente queca.

 

ELE numa sessão de compras

Frase:

Querida, esses sapatos são o máximo, mas experimenta também estes que vão ligar muito bem com aquela mala grená que tens.

Tradução:

Querida, adoro fazer compras contigo, mas depois quero ainda voltar a esta loja sozinho, porque está ali um empregado que é um pão e já fizemos olhinhos um para o outro.

 

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4 comentários leave one →
  1. Dezembro 13, 2009 6:54 pm

    Um texto excelente!!

    Simplesmente delicoso!!

  2. Kurioso permalink
    Dezembro 15, 2009 9:15 pm

    Pois é amigo!

    Com os cabelos brancos não vêm só as dores nas costas. Vem também alguma sabedoria.

    Muito bem apanhado, e … muito verdadeiro.

    Abraço.

  3. bp63 permalink*
    Dezembro 20, 2009 5:16 pm

    obrigado otilia

  4. bp63 permalink*
    Dezembro 20, 2009 5:17 pm

    Kurioso

    Realmente estes cabelos brancos são do caneco! Alguma coisa boa havia de ter.

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