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Folhetim, amore mio!

Dezembro 1, 2009

É triste! Enquanto os italianos discutem a alcova do seu primeiro-ministro , nós andamos às voltas com a alcofa do nosso, ou seja, por lá o que interessa é saber com quem é que ele dormiu, que bacanais promoveu e quanto vai desembolsar para pagar os seus pecados, por cá discute-se o que é ele acordou à surdina, que pactos promoveu e quanto é que poderia ter embolsado. Triste este país, onde passamos a vida a discutir as dores que nos consomem enquanto os outros se preocupam com o prazer que alguém consumiu. É por essas e por outras que eles tiveram um Fellini, com o seu circo da vida, e nós um Manoel de Oliveira, com os longos silêncios do nada. Confesso que me sentia melhor se tivesse que acordar todos os dias com a notícia que o PM foi apanhado nuns telefonemas para uma linha erótica, do que este triste folhetim de escutas a discutir negócios negros.

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Pois, com uma coisa ou outra, o certo é que já não passamos sem um folhetim do PM. Qual novela da Globo, qual Morangos com Açúcar, qual quê, o que queremos mesmo é a cena dos próximos capítulos de um tal José Sócrates, depois de uma licenciatura lavada a seco, de uma outlet com porta-luvas e de umas escutas de funil, só falta mesmo um caso de sangue para a saga ficar completa. Não me surpreendia nada que daqui a dias, ao ligar a TSF, ainda com os olhos remelados, escute que foi descoberto um cadáver no Guincho e que o carro do PM foi visto poucas horas antes no local. Vão por mim, já falta pouco.

Mas porque raio, temos esta obsessão com o homem? Porque ele tem ar de galã ou porque se põe mesmo a jeito? Não sei, mas por mim tudo está neste eterno gosto pelos folhetins, ficou-nos o vício desde a Gabriela, ou talvez não, e agora, como qualquer dependente, queremos mais e com formatos inovadores. Mas se até a modinha de cravo e canela da Baía não inventou nada, de onde vem mesmo esta mania de nos lambuzarmos com narrativas em suaves prestações?

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O folhetim sempre foi o parente pobre da literatura, herdeiro do cordel, primeiro como parte de um jornal, histórias contadas aos pedaços (capítulos), com enredos simples mas cheio de nós de interesse bastante fortes, com as relações familiares sempre no seu extremo e com personagens pouco profundas e estereotipadas, depois em publicações próprias por fascículos, o certo é que depressa cativou os leitores e não só. Mesmo os grandes escritores não foram indiferentes a este conteúdo e nas suas grandes obras de eminência literária não deixaram de introduzir elementos folhetinescos para fazerem evoluir a sua narrativa de uma forma mais sedutora, sem ofensa, Eça e Tolstoi também tiveram o seu lado de Janete Clair.

Mas será que é mesmo um género menor? Não creio, é apenas um género e, como tal, tem e teve alguma importância, por exemplo, a sua contribuição para a diminuição da iliteracia primária é indiscutível, pois ao conseguir pôr populações menos cultas a ler fez algo que a melhor literatura, apesar da sua indubitável importância para a perpetuação maior das letras, não conseguiu. Mas o folhetim, e as suas derivações, foi para além do facto de pôr as sopeiras a escreverem algo mais do que a sua assinatura, muita das variantes da escrita de hoje, romances, nomeadamente os best-sellers e as sagas fatiadas, argumentos, o cinema comercial é talvez o seu maior bebedor, dramaturgia, desde a elitista ópera até ao musical xaroposo, entre outros, devem bastante a esta forma simples de contar histórias, fazer da palavra, não um rendilhado semântico de elevado sabor linguístico, mas um construtor de seduções imediatas para que o receptor fique preso até ao surpreendente fim.

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O problema é que, no meio disto tudo, não contávamos que o jornalismo também se transformasse num seu discípulo, mas se virmos bem a coisa, é o regresso à sua origem, ao seja, voltamos à velha historieta publicada diária/semanalmente só que deixamos as desilusões amorosas da condessa que teve um filho bastardo com o jardineiro que havia mais tarde de se perder de amores pela filha dos patrões que era a sua própria irmã, e passamos a ter o político que se vendeu a não sei quem para que esse quem pudesse ganhar não sei o quê. Enfim, o que vamos fazer? São tempos modernos e a forma do folheto do século XIX já lá vai, agora, depois das inenarráveis novelas televisivas, só mesmo as manchetes diárias dos média, que viram neste “novo” conteúdo o filão para aliviar a ferida financeira dos seus dias, para nos prender e salpicar a rotina cinzenta dos nossos próprios dias, viver a histórias dos outros e pôr a nossa em banho-maria.

Bom, voltando o bico ao prego, e como gosto de experiência um tanto ou quanto parvas, vou atirar-me a mais uma, um relato folhetinista de uma personagem ao longo dos tempos, um pobre homem que, cansado de procurar o dito amor da sua vida, o acaba por encontrar numa caixa de Viagra. Por capítulos, como convém, ilustrar uma época ao mesmo tempo que se subvertem escritas. O Carlos Saura que me perdoe por lhe ter roubado o título, mas foi mais forte do que eu, conhecia o ditado desde pequeno, cria corvos e eles comer-te-ão os olhos, sempre me impressionou esta terrível imagem, e há muito que tinha vontade de escrevinhar à volta dele.

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Cria Corvos

Cria corvos e comer-te-ão os olhos.

Quando José Bernardo ouviu esta frase proferida pela madrinha, de costas voltadas para ele a fingir contemplar a paisagem distante da janela, ficou gelado, empedernido no meio da sala, como uma estátua equestre no centro da praça. Nunca esperou que ela reagisse daquela forma, com uma frase cortante, sem nexo com o assunto, e a acentuar cada sílaba na ressonância de uns dentes cerrados. Calculava que a reacção não seria a melhor, ia perder o seu querido afilhado, mas responder, assim, à notícia do seu casamento estava fora de qualquer previsão. Bem que ele ensaiou várias formas de comunicar o evento antes de entrar na sala grande, sempre escura, de cortinas corridas, a luz causava dores de cabeça à velha senhora, mas nada adiantou, a reacção foi a pior possível.

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– Madrinha, eu não vou embora, vou estar por aqui.

– Para mim foste para sempre – disse Amélia Bento de Oliveira, sem mover o mais pequeno músculo a não ser os labiais, caídos e rugosos, para deixar sair aquela frase dramática.

– Não percebo, afinal eu vou casar com a Belinha, que a madrinha tanto gostava – José Bernardo tentou apelar a algum sentimento saudoso que ainda pudesse existir perante aquela que foi, durante muito tempo, a sua criada de servir. Esqueceu-se que Amélia, mal suspeitara que havia namorico com o seu afilhado, a tinha corrido de casa alegando que lhe desaparecera um anel.

– Uma ladra é o que ela é.

– A madrinha sabe que não é verdade, o anel apareceu depois no armário do corredor. Olhe que nunca ninguém a mimou tanto como a Belinha.

– Basta! Esta conversa tem agora um ponto final. Vai então procurar a tua felicidade, mas não tenhas ilusões, nunca a irás encontrar.

Sem mais palavras, José Bernardo deixou a casa grande, o local onde passara quase todos os seus dias desde que se lembrava de si mesmo. Filho do antigo encarregado da grande propriedade que começava na quinta do Arco, mesmo dentro da aldeia que tinha nome de vila, Vila Maria, e da cozinheira dos ganhões, foi, desde os tempos de berço, o aí Jesus da única filha do homem mais poderoso das redondezas, que viu nele um certo consolo para o seu colo estéril e virgem de mulher culta e rica que se deixou passar no tempo sem nunca vislumbrar homem para constituir família. Mas se nos primeiros tempos esta protecção maternal de madrinha de baptismo foi farta para o pequeno Bernadinho, assim o apelidava, depressa se tornou um afecto sufocante pois, o medo de o perder, fez com que não o deixasse ganhar asas, seguir estudos, uma instrução básica era suficiente para tomar conta da propriedade. Todos pensaram de início que, face ao carinho que a madrinha tinha pelo afilhado, ela o iria pôr a estudar na capital para se formar doutor. Mas não, nem à cidade lhe foi permitido ir para fazer o liceu. Mal terminou a sexta classe ficou como uma espécie de aio da senhora, que sofria na altura o enorme desgosto da morte do pai, mais do que nunca, precisava naquele momento de um homem, ainda que de calções, que estivesse ao seu lado para a orientar. Os estudos, supostamente, só eram importantes para quem nada tinha e o Bernadinho começava uma caminhada para ser dono de tudo aquilo, uma fatia quase total das redondezas.

– Está decidido, vai ficar aqui ao meu lado – com esta frase Amélia decidiu o destino de José Bernardo, ser uma espécie de camareiro da grande proprietária da região. Mesmo a aprendizagem das lides da terra, o tomar conta dos negócios que poderia vir a herdar, foi ficando para trás, todo o tempo era pouco para andar à volta da madrinha, que era um autêntico poço sem fundo de caprichos. Por mais que ele tentasse pôr o pé fora de casa, para ganhar um pouco o mundo, havia sempre um pedido súbito de Amélia para que voltasse depressa, só um chá feito pelo afilhado a impedia de entrar em convulsões e de chamar o médico a casa, especialmente se lhe faltavam os fins de tarde, em que ela, todos os dias, o sentava no seu colo e lhe acariciava os seus cabelos cor de mel enquanto lhe contava histórias dos seus antepassados, umas reais outras inventadas ao gosto das festas capilares.

Sabor a rosas, era assim que José Bernardo sentia a pele da madrinha quando, sentado no colo, tombava a sua cabeça no peito dela e se deixava embalar pelos gestos enfeitados de palavras. Com o tempo, aquela sensação de paz e aroma florar, foi dando lugar a um certo desconforto de rapaz de pelos nas pernas sentado no colo de senhora velha, e aquilo que era uma fragrância macia depressa se transformou numa sensação enjoativa de pele de galinha perfumada. Uma questão de ossadas acabou por resolver o que começava a ser um problema, enquanto os ossos de rapaz vigoroso ganhavam volume e muito peso, os de uma velha senhora davam sinais de fragilidade. Assim, o colo de embalar foi substituído por um aconchego no sofá onde, lado a lado, ela continuou a falar das vidas que viveu e que imaginou viver, naquele seu tom verbal eloquente, de sílabas quase soletradas, como se fosse projectada para uma peça teatral épica, de grandes tragédias e fortunas em tempos perdidos. O sabor perfumado tinha desaparecido mas a impressão de uma pele crespa mantinha-se, Amélia, nos momentos mais empolgantes da sua prédica apertava a mão do afilhado, como se ela própria ficasse com medo do que dizia.

O tempo vai amaciá-la, pensou José Bernardo quando, novamente, se viu cá fora, no meio da praça. Desconhecia a tragédia que batia asas na sua direcção.

O resto da primeira entrega da saga, segue por aqui, por ser a casa onde fica mais resguardado das ventanias electrónicas.

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One Comment leave one →
  1. Kurioso permalink
    Dezembro 7, 2009 9:35 pm

    UFFF!

    Nem sei por onde começar.

    1. O homem põe-se a jeito, mas à força de tanto lhe baterem ainda o transformam num mártir.

    2. Folhetim sim senhor. Nos idos de 60 (inda você não era nascido) ouvíamos a radio novela A GATA todos os fins de tarde, sem falta!

    3. Pois nos tais idos de 60 a história do José Bernardo parece-me bem plausível. É claro que a sua versão surrealista torna-a bem mais apetitosa.

    Abraço.

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