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A Fofura da Perversidade

Outubro 15, 2009

 

Entre uma imagem angelical de inocente, as lindas criancinhas, e uma outra de doçura de maturidade, os velhinhos fofinhos, está aquela coisa rude e má que é o ser humano adulto. Muito me estranha este instantâneo cliché que, na maioria da vezes, se atira para explicar os males das sociedades. É certo que a espécie humana mal ganha hormonas nos sítios certos, empreende um caminho bastante aguerrido e, por vezes, leva tudo a direito, não deixando o rasto do caminho em bom estado. Mas será que é mesmo assim?

Será que a perversidade é uma coisa que apenas nasce aquando do romper da aurora dos pelos da cara, ou de outros sítios mais íntimos, e morre logo quando também partes capilares começam a desaparecer? Não andaremos um pouco enganados com esta coisa da inocência pueril e da candura anil? Cá para os meus botões, acho sim.

Nestas coisas de perversidade, penso que ela está nos genes e vem logo ao de cima mal respiramos o primeiro mm3 de oxigénio. O nosso lado animalesco de sobrevivência, mal ouve a pistola de largada, zás, começa logo a fazer das suas com todos os atletas que nos aparecerem nas pistas do lado – o quê? Aquele camafeu não me dá chucha, berro já que me farto, o menino partiu o copo, ó mãe, ele partiu o copo, vamos ver se ela lhe assente já uma galheta para eu ficar feliz – não só para garantir melhor lugar no pódio, como também para podermos rir sarcasticamente dos outros que ainda rebolam no chão. O melhor do mundo são as crianças, dizia o poeta, mas tenho em mim, que bom, bom, será mesmo o momento que normalmente antecede as crianças, assim uns meses antes.

Mas sobre os petizes, o pessoal já encara que eles, afinal, não são os anjinhos barrocos com que eram pintados. Um tal de Freud, um senhor já muito antigo, mostrou isso e a malta ficou de pé atrás. Mas ainda há um mito que resiste, os dos velhinhos, os nossos adoráveis idosos, aquelas pessoas que esbanjam ternura em cada sorriso, em cada festa. Pois! Temo que este filme Corin Tellado descambe muitas das vezes em algo mais Fantasporto.

A idade de ouro é também o fim de um ciclo, ora se o ciclo é redondo, onde se vão encontrar as pontas? Na infância, claro. Assim, aquela perversidade, que ficou escondida na grande corrida da vida, agora que há mais calma, volta a ser tirada do baú onde ficou arrumada, e zás, toca a despachá-la novamente, mas com muito mais inteligência e manha. Assim, aquela espécie de mafioso napolitano adormecido, primeiro de leite agora de chá, volta a atacar nas suas chantagens e nas suas exigências nos bairros familiares do costume.

A perversidade está na condição humana sempre, apenas a escondemos ou a mascaramos durante uma grande fase da vida, num procedimento muito complicado a que podemos chamar crescimento, isto para não ficar mal na fotografia e clicar sobre termos como hipocrisia, falsidade, etc. Só que há uma fase que em achamos que o fardo é muito grande, as costas também já começa dar de si, e volta tudo ao início, manda-se ao ar a carga que com as rugas já ninguém repara.

Em jeito de sombra literária desta imagem que despenquei aqui, apresento um pequeno falso conto (é realmente um capítulo de uma novela porno-satírica) levemente inspirado num caso real.

 

Maria Clara, já estou pronta!

Irene abriu o roupeiro e começou a escolher as roupas que iria vestir naquele dia. Um simples vestido azul com bolinhas brancas para a manhã, não ia sair de casa, um casaco branco para colocar por cima e, assim, sair depois de almoço até à pastelaria no rés-do-chão do seu prédio para o seu café cheio, com 2 pacotes de açúcar, e, finalmente, uma saia-casaco salmão de lã, que sempre arrefece, para o passeio do fim da tarde. Colocou todas as peças em cima da cama. A empregada já sabia do ritual, passado pouco tempo passava por lá, pegava nelas e dava-lhes um jeito com o ferro. Enquanto não estivesse pronta a primeira veste, Irene ultimava a parte final da sua higiene matinal, apenas a mais simples, a facial, pois a filha todos os dias antes de sair dava-lhe um bom banho. Com 83 anos já lhe era difícil entrar na banheira e lavar-se sozinha, a última vez que o tinha tentado fazer escorregara e fracturara a perna, o que a deixou muito abalada, não pelo traumatismo ósseo propriamente dito, mas porque esteve à beira de um esgotamento nervoso com o facto de ter que ficar fechada em casa durante alguns meses.

Depois do cafezinho pós-almoço e de uma tarde na companhia da sua irmã, com quem mantinha acesas discussões sobre tudo e nada até ao chá das cinco em ponto, momento em que todas as asperezas eram postas de lado pela doçura dos biscoitos e das compotas, Irene voltava ao quarto para fazer a sua higiene de fim de tarde, retocar a maquilhagem, uma mulher não pode sair à rua apenas de cara lavada, e vestir a última toilette escolhida. A empregada, mais uma vez, já sabia que tinha que entrar em cena, comparecia no quarto todos os dias à mesma hora, ajeitava-lhe a roupa, havia sempre uma gola que não estava direita, e ajudava-a a colocar o batom, a mão trémula da velha senhora já não lhe permitia contornos exactos.

Quando a filha abriu a porta, já no final da tarde, pôde ver a paisagem de sempre. A sua mãe, lá estava ela, sentada na cadeira almofadada do hall de entrada, toda arranjada, com uma das melhores indumentárias que tinha, bem hirta, com a mala, a condizer com os sapatos, pousada no colo e a bengala, de punho de prata, numa das mãos.

– Maria Clara, já estou pronta! – repetia ela, como uma deixa teatral, todos os dias ao ver a filha entrar depois de um longo dia de trabalho.

Cansada, ser directora financeira dava muito trabalho, especialmente nas épocas de crise em que há que ginasticar, por vezes com autênticos saltos mortais à retaguarda, toda a economia de uma empresa, Maria Clara suspirava para que a mãe perdesse um pouco o fôlego e não quisesse sair todos os dias para um passeio de fim de tarde. Quer estivesse sol quer estivesse chuva, fosse dia ou já noite profunda, Irene esperava sempre pela filha para fazer um mediano passeio de carro pela cidade ou, se ainda houvesse tempo, uma pequena ronda pelas montras.

– Mas ó mamã, já é tão tarde, estou tão cansada, só me apetece atirar para a cama – suplicou a filha na tentativa que a mãe fosse sensível ao seu estado.

– Por amor de deus, Maria Clara, até me falta o ar! Eu estou um dia inteiro aqui fechada, a ver uma televisão deprimente, a ter que estar sempre em cima da Fernanda, senão faz tudo mal, e a aturar a tua tia Luísa, que não sai de cá.

– Mas a tia Luísa vem para lhe fazer companhia, para se distraírem.

– Distrair? Não se pode conversar com ela, está sempre, sempre, no contra. Imagina tu que agora até me diz que vai votar no Bloco Esquerda. Com aquela idade armada em revolucionária, não vê que esse tipo de politiquice é de gente nova. Qualquer dia perde o juízo de vez e ainda me chega aqui de minissaia. Estás a ver o que eu passo, todos os dias. Ainda queres tu que fique aqui, ai não, preciso mesmo de ir apanhar ar. Tu sabes muito bem como são os meus nervos, tenho que espairecer, aliás o primo Antunes bem o recomendou na última consulta.

– Mas ó mamã, ainda por cima o carro está a fazer um barulho esquisito – tentou Maria Clara uma última oportunidade, aproveitando o facto de o carro ter um chiar esquisito, provavelmente a avisar que estava na hora de ir à revisão.

– Se é por isso, que também não quero ficar aí parada no meio da rua a esta hora, chamamos um táxi.

– Um táxi?

– Sim, ainda tenho reforma para pagar isso.

Maria Clara viu que mais uma vez nada no mundo iria demover a mãe de querer o passeio de sempre.

Bom para não torturar mais aqui, o resto da historieta está completa na outra minha sala o Guardador, precisamente Aqui.

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7 comentários leave one →
  1. Paula permalink
    Outubro 15, 2009 3:10 pm

    Eu já volto aqui ! 🙂 Pois tenho que tirar horas aos meus tratamentos de beleza , para ler um lençol… :)))) O que vale é que são de boa quaidade …senão …:)

    Mas só comento se V.Exa for um cavalheiro para as suas fãs !

    Ainda me tens que contratar como agente !

    Homens!

    Beijocas

    Paula

  2. Paula permalink
    Outubro 15, 2009 3:11 pm

    Errata nº 238494040

    “O que vale é que são de boa qualidade…”

    Diz lá que já não estavas com saudades ! Hoje estou bem disposta 🙂

  3. bp63 permalink*
    Outubro 15, 2009 3:13 pm

    🙂 tava! … tenho que ir ali apanhar 1 avião e já volto.

  4. Outubro 17, 2009 1:52 pm

    olá….
    bem, fui ler o link, tudinho!… Concordo que existam criancinhas lindas e más, perversas até. Gostam desde cedo de fazer e praticar maldades como pegar fogo a animais e coisas assim… Velhinhos?! Também os há mauzinhos, alguns até estão sozinhos por isso. Ambas as idades são no entanto idades “frágeis” que levam os restantes a ser condescendentes com certas atitudes.
    A D. Irene é o maximo! Dar com a bengala no capot?! Não tenho bengala mas por vezes até com uma marreta me apetecia… Vês?! Mazinha também, eu! E a Maria Clara, bem… “what a tipical day”! Beijinhos, bom fim de semana para ti e teus!

  5. Outubro 19, 2009 4:29 pm

    [teste]
    Foi você que pediu uma Burka?
    :))))

    Raispartaosvelhos… Os matreiros! outros há que são fantásticos…

    Só o meu Pai era um Santo!!!!
    😉

    Um Beijo BiPi

    (outro para as meninas)

  6. minda permalink
    Novembro 7, 2009 9:58 pm

    oi, oi bêpê

    eu voltei, depois de uns bastos tempos de descanso preguiçoso, e dou de caras contigo?

    será premonitório? que será, será, o que ainda nao descobri é de quê…

    e deixando a paródia para ir para a coisa séria te direi:
    as crianças sabem bem ser perversas…
    aliás são-no tão naturalmente umas com as outras que às vezes até espanta…
    mas há-as doentiamente perversas… mas essas são contas de outro rosário…
    quanto aos velhinhos… eheh… hei-de ser uma destas se fizer juz a fama dos escorpioes?

    beijicas
    minda

    notinha… tinha tanta saudadinha das tuas doces maluqueiras

  7. Kurioso permalink
    Novembro 7, 2009 11:18 pm

    Bem…já troquei as caídas pela sombra, nos favoritos.

    Mais uma crítica certeira a certos mitos da nossa sociedade.

    Ainda recentemente, uma conhecida nossa foi aconselhada pelo médico da mãe a não se deixar “tiranizar” pela dita senhora.

    Parece que quando a sociedade alivia a pressão, cada um mostra aquilo que verdadeiramente é.

    Abraço

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